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Islândia: população diz não para pagamento de dívida

Os islandeses votaram, novamente, em referendo que o Estado não deve pagar a dívida de cerca de 4 bilhões de euros à Holanda e ao Reino Unido. De acordo com os resultados já anunciados, o “não” ganhou com quase 60 por cento dos votos. Em causa estão 4 bilhões de euros depositados em 700 mil contas bancárias na Holanda e Inglaterra, no agora falido banco online Icesave. O Icesave foi uma das instituições financeiras que faliram na sequência da crise financeira mundial que atingiu com especial dureza a Islândia, com cerca de 320 mil habitantes, provocando a queda da moeda e da economia do país.

Na Islândia, a palavra de ordem “não pagamos a crise deles” é mesmo o mote que indica o caminho. Segundo os dados já disponibilizados neste domingo pela televisão islandesa, 58 por cento dos eleitores votaram “não” e 42 por cento votaram “sim” ao pagamento de quase quatro bilhões de euros a credores externos, nomeadamente à Inglaterra e à Holanda.

O referendo foi convocado pelo presidente da Islândia, Ólafujr Ragnar Grímsson, que em 20 de fevereiro deste ano vetou, pela segunda vez, a lei IceSave (que tinha sido aprovada pelo Parlamento islandês).

Em causa estão, especialmente, 4 bilhões de euros depositados em 700 mil contas bancárias na Holanda e Inglaterra, no agora falido banco online Icesave. Tratava-se de uma conta de poupança online, a Icesave, comercializada agressivamente no Reino Unido e na Holanda pelo banco Landsbanki – que foi o segundo maior da Islândia -, prometendo juros acima de seis por cento.

Os depósitos de estrangeiros foram reembolsados pelos respectivos governos – 3,9 mil bilhões de euros -, que agora querem cobrá-los da Islândia.

O acordo rejeitado permitiria escalonar o pagamento da dívida até 2045, com uma taxa de juro de 3,3 por cento ao Reino Unido e de três por cento no caso da Holanda. Uma parte seria paga com a venda dos ativos do Landsbanki, mas não se sabe ainda quanto seria – embora os partidários do “não” defendam que deveria chegar para o reembolso.

Esta foi a segunda vez que os islandeses decidiram se queriam ou não que dos seus bolsos saísse uma parte significativa do valor total das indenizações que o governo da Islândia se comprometeu a pagar a Londres e a Haia.

Há um ano, um outro acordo, ainda menos favorável, tinha sido rejeitado com uma esmagadora maioria (93 por cento): previa uma taxa de juro de 5,5 por cento e o pagamento em 15 anos. Em 2010, tal como em 2011, o acordo foi enviado para referendo pelo Presidente da República, Ólafujr Ragnar Grímsson.

O Icesave foi uma das instituições financeiras que faliram na sequência da crise financeira mundial que atingiu com especial dureza a Islândia, com cerca de 320 mil habitantes, provocando a queda da moeda e da economia do país.

Fotos: Esta foi a segunda vez que os islandeses decidiram se queriam ou não que dos seus bolsos saísse uma parte significativa do valor total das indemnizações que o governo da Islândia se comprometeu a pagar a Londres e a Haia. Foto LUSA/EPA/S Olafs

Fonte: Carta Maior

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Islândia: novo referendo decide quem paga dívida de banco

Os islandeses decidem neste sábado, em referendo, se o Estado deve ou não pagar a dívida de 4 bilhões de euros à Holanda e ao Reino Unido. As sondagens apontam para a vitória do “não”, tal como aconteceu no referendo do ano passado. Em causa estão 4 bilhões de euros depositados em 700 mil contas bancárias na Holanda e Inglaterra, no agora falido banco online Icesave. Tratava-se de uma conta de poupança online, a Icesave, comercializada agressivamente no Reino Unido e na Holanda pelo banco Landsbanki – que foi o segundo maior da Islândia -, prometendo juros acima de seis por cento.

Há um ano atrás, protestos contínuos contra o acordo do pagamento da dívida dos bancos pelos contribuintes levaram o Presidente islandês a convocar o primeiro referendo que acabou por rejeitar maioritariamente o acordo (93% da população votou contra).

Os islandeses vão, no fundo, responder a um pergunta muito simples, mas com vasta implicação: quem deve afinal pagar a fatura das aventuras financeiras da elite bancária islandesa no estrangeiro, que em outubro de 2008 culminaram com a falência dos bancos, a ruína do Estado e a declaração de bancarrota na Islândia?

A crer nas sondagens dos últimos dias, a resposta dos islandeses vai ser novamente que a fatura das dívidas da banca islandesa no estrangeiro deve ser paga não pelo povo, mas sim pelos executivos financeiros e banqueiros, que as contraíram em nome do país.

Uma sondagem publicada quinta-feira pela Capacent Gallup dava o “não” com 52 por cento, e outra pelo jornal Frettabladid com 54,8, diz a agência Bloomberg. A 6 de Abril, o canal 2 da televisão islandesa apontava para um resultado de 56,8 para o “não”.

Em causa estão nomeadamente quatro bilhões de euros depositados em 700 mil contas bancárias na Holanda e Inglaterra, no agora falido banco online Icesave. Tratava-se de uma conta de poupança online, a Icesave, comercializada agressivamente no Reino Unido e na Holanda pelo banco Landsbanki – que foi o segundo maior da Islândia -, prometendo juros acima de seis por cento.

Os depósitos de estrangeiros foram reembolsados pelos respectivos governos – 3,9 bilhões de euros -, que agora querem cobrá-los de Reikjavik. O acordo que poderá ser rejeitado permite escalonar o pagamento da dívida até 2045, com uma taxa de juro de 3,3 por cento ao Reino Unido e de três por cento no caso da Holanda. Uma parte será paga com a venda dos ativos do Landsbanki, mas não se sabe ainda quanto será – embora os partidários do “não” defendam que deveria chegar para o reembolso.

Os governos da Holanda e da Inglaterra querem o dinheiro de volta, mas o eleitorado islandês insiste que estão batendo na porta errada.

Há um ano, um outro acordo, ainda menos favorável, tinha sido rejeitado com uma esmagadora maioria (93 por cento): previa uma taxa de juro de 5,5 por cento e o pagamento em 15 anos. Em 2010, tal como em 2011, o acordo foi enviado para referendo pelo Presidente da República, Ólafujr Ragnar Grímsson.

Se há uns anos o Presidente falava do “capitalismo viking” e de um punhado de jovens banqueiros “prontos para conquistar o mundo”, agora, em entrevista ao El País, nota-se que o voto que vai este sábado depositar na urna não será garantidamente um “sim”: “O fundamental é que a Islândia é uma democracia, não um sistema financeiro, e que esta não é apenas uma crise econômica, é uma crise política. Os governos não podem continuar a ser arrastados pelos mercados”.

Fonte: Carta Maior

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Não devia ter um feminismo aqui?

por Luka Franca

A esquerda não é uma bolha. Talvez para grande maioria dos homens ligados ao movimento social em geral esta ficha custe a cair, compreender que também fazemos parte da sociedade e assim como qualquer outra pessoa e portanto estamos passíveis de reproduzir o machismo, racismo, homofobia e tantos outros preconceitos existentes por aí.

Não é raro nos depararmos com casos de agressões, intimidações e qualquer outro tipo de violência contra a mulher também em espaços dos movimentos sociais, partidos de esquerda e qualquer outra forma de organização política crítica ao status quo. Porém ao invés de serem o primeiro espaço aberto para o combate ao machismo, normalmente o que vemos é a diminuição da importância dos casos de agressão, intimidação e outras violências, como se não fossem problemas políticos também, infelizmente o espaço da organização política é onde percebemos o quanto a nossa luta é secundarizada neste mundão, como se revoluções não passassem também pela mudança na relação social entre mulheres e homens.

Na verdade vemos a esquerda adaptar à sua realidade a divisão sexual do trabalho. É uma espécie de divisão sexual da militância na qual o homem ocupa o espaço público como figura pública do partido, movimento ou entidade que for e na grande maioria das vezes é também quem formula a política a ser tocada nos espaços e a mulher cumpre a tarefa do espaço privado, ou seja, organiza a reunião, escreve a relatoria e qualquer outro trabalho de secretariado existente nas organizações políticas, tanto que Alexandra Kollontai era a única mulher no bureau do partido bolchevique no período revolucionário e durante reuniões era dela a tarefa de passar um cafezinho para os outros companheiros. Quantas mulheres dirigentes políticas nós vemos citadas nas intervenções em atos, assembléias, plenárias ou congressos? No máximo uma citação da Rosa Luxemburgo e mesmo assim ainda é raro. No final das contas precisamos localizar muito bem qual é tanto o nosso lugar na política quanto qual o lugar do feminismo na política e não é tarefa simples, assim como combater o machismo diariamente na sociedade também não é.

Muitas vezes vemos mulheres ligadas ao fazer político denunciando alguma atitude machista de um companheiro e as reações basicamente são as mesmas que vemos no resto da sociedade: não devemos tratar disto pois é um problema pessoal e não político; que se trata de uma histérica; a denúncia foi motivada por vingança pessoal e tantos outros subterfúgios tão questionados pelas feministas quando há casos de violência machista em outro espaço da sociedade que não seja o político. Porém na hora que aparece o quiprocó no seio da esquerda nos deparamos com o corporativismo das organizações, se é denúncia contra alguém do meu partido, movimento ou entidade é uma calúnia, e se o caso de machismo é no quintal do outro vemos muitos se levantarem com o rabo sujo para apontar dedos.

Qual a grande diferença entre a ameaça de morte feita por um companheiro de esquerda e a ameaça de morte de um homem não envolvido com a política? A mão de um militante de movimento social é mais leve do que a do trabalhador? A intimidação de um camarada de uma entidade combativa à uma companheira em um espaço de disputa política é menos intimidação do que a do cara na balada em cima de uma garota? Não, não há diferenças, pois todas as situações estão baseadas na mesma coisa o machismo e um não é menos pior do que o outro e cabe a nós feministas apontarmos sim o dedo na cara da hipocrisia sem medo de retaliação ou puxada de orelha.

Este começo de ano ouvi diversos casos sobre machismo no movimento social, dois deles me chamaram a atenção: no Espírito Santo e em São Paulo. O primeiro envolvia uma militante e um militante do Fejunes e o segundo do MPL/SP. Em ambos os casos os agressores foram denunciados na base do movimento e as organizações foram cobradas para darem uma resposta política às denúncias de agressão, infelizmente apenas o Fejunes reconheceu a gravidade da situação afastando imediatamente o agressor de suas tarefas junto ao fórum e tomando as medidas cabíveis de formação e debates entre os militantes do fórum.

Já em São Paulo acabamos assistindo uma série de ataques a premissa de autodefesa feminista e da necessidade da denúncia dos agressores, muitas vezes se pautando na formulação equivocada de que o escracho promovido por algumas militantes feministas ao militante do MPL/SP em um dos atos contra o aumento da passagem de ônibus era um retrocesso a luta feminista, ora, em ambos os casos por conta da coragem – vamos combinar não é a coisa mais fácil do mundo você denunciar publicamente um agressor junto à sociedade, imagine em um espaço no qual as pessoas se julgam livres de qualquer tipo de preconceito – destas mulheres ao denunciarem suas agressões outras mulheres também vieram a público para falar que também foram violentadas fosse fisicamente ou psicologicamente, e os relatos se passavam em estados diferentes e com organizações políticas também diferentes.

Foi histeria coletiva de mulheres que nem se conhecer se conheciam? Não se nega a importância de lidar com a questão da violência contra a mulher como um problema social, mas isso não é sinônimo de desonerar o agressor de suas responsabilidades, ainda mais quando são atitudes que além de violentar inibem a participação política das mulheres em espaços importantíssimos, ou lutar contra o aumento das passagens, abertura de bolsas nas universidades não são pautas das mulheres também? O que eu vejo é na verdade uma grande falta de formação e formulação da esquerda brasileira sobre as opressões específicas em geral, ou alguém aí acha que em um país onde a maioria dos pobres é negra e mulher muda-se algo sem ser feminista e antirracista?

Poderia passar horas escrevendo sobre “causos” da esquerda envolvendo atitudes machistas, mas o intuito é justamente refletir o motivo de tanta resistência desses homens, e até mesmo mulheres, lutadores pela mudança social compreenderem que também perpetuam o machismo e se realmente há vontade de mudar a sociedade precisamos fazê-lo de forma completa, compreendendo a misóginia, racismo, homofobia e outros preconceitos como breques da nossa luta.

A Flávia Alli acerta muito ao dizer:

É mais fácil para os homens, digo, homens da esquerda, se relacionar com mulheres sem consciência e concepção feminista. Pois, no fundo, oprimir alguém para que esta dependa de alguma forma – seja subjetiva ou objetiva -, é mais fácil e mais cômodo

Óbvio que não é nada fácil peitar os homens nos espaços políticos – ainda mais se há acordo em boa parte da política com eles -, pois se não bastasse a violência física sofrida pelas mulheres, estas, quando decidem pela denúncia, sofrem a violência psicológica de uma sociedade machista e dos movimentos sociais que sequer sabem lidar com coerência frente à situação.

Vejo uma luz no fim do túnel quando mulheres resolvem dar um basta de vez a atitudes machistas dentro da esquerda brasileira e colocar que para nós o feminismo tem lugar na política até porque fazer a dissociação entre a luta política e a luta feminista é, no mínimo, cruel com as mulheres, pois não são coisas dissociadas. É preciso dizer com todas as letras que não haverá transformação real se isso não passar pela transformação social das relações entre mulheres e homens. Só dar uma olhada nas pesquisas feitas pelo IBGE, ONU e tantas outras para ver quem está na base da pirâmide social, definitivamente não são os homens. A pobreza tem sim cor e gênero e passar batido por isso é não compreender a complexidade da sociedade em que vivemos, é recair em erros históricos.

Avança o feminismo sim quando temos força e respaldo para cobrar aos movimentos sociais coerência e não complacência com a violência machista, quando forçamos nossas companheiras e, porque não, nossos companheiros a se posicionarem e não mais serem testemunhas silenciosas, quando temos força para dizer que: Nenhuma agressão passará impune!


Luka Franca:

Paraense, jornalista, mãe, feminista e socialista. Graduada em Jornalismo pela PUC/SP, foi militante e coordenadora da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação Social (ENECOS) onde descobriu a importância de se lutar pela democratização da comunicação e sobre tudo contra a opressão de gênero. É colaboradora do Portal Diário Liberdade.

Fonte: Blogueiras Feministas

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Lições de Dantas e Valério. O Brasil está à venda. É barato

E sai até barato

por Paulo Henrique Amorim


Refletir sobre as revelações da Carta Capital é desalentador.

Clique aqui
para ler “Carta desmascara a Época” e aqui para ler o editorial do Mino, ” Dantas é invulnerável porque conhece todos os podres”.

Todos os podres de todos os poderes: Judiciário (cabe vir em primeiro lugar), o Legislativo, o Executivo (nos governos FHC e Lula) e no quarto poder, a Imprensa, onde ele deita e rola.

Como diz o Mino, o fato de não existir um “mensalão”, mas, sim, um sistema ilegal de financiamento de campanha e cooptação de empresas e intermediários de variada espécie não tira ninguém da cadeia – do PSDB ou do PT.

Como diz o Mino , o emprego da palavra “mensalão” é o log in do PiG (*) para entrar na página em que condena o PT e absolve os santinhos do PSDB – especialmente FHC, que incubou Dantas, e Padim Pade Cerra, cujos membros da família , por duas vezes, pelo menos, se associaram o Complexo Dantas Para Salvar o Brasil – numa empresa com sede em Miami ( epa ! ) e em outra que, como demonstrou Leandro Fortes na Carta, violou milhões de sigilos fiscais, com o ” trabalho interno” de um amiguinho no Banco do Brasil.

( Não se iludam: o livro do Amaury vem aí .)

Este ansioso blogueiro não se cansa de dizer: antes de readmitir o Delúbio, o PT tem que se acertar com o Dantas.

O financiamento ilegal de campanha é intrínseco ao sistema político brasileiro.

Dele quem mais se beneficia é um passador de bola apanhado no ato de passar bola, cujo business plan se sustentava em: usar dinheiro dos outros ( dos fundos de pensão e do Erário ) ; e a impunidade na Justiça.

Ele faz e arrebenta , porque, como diz o Mino, é invulnerável.

Mas também as empreiteiras e grandes fornecedores são capazes de, através de Kurts da vida, manipular os partidos e os políticos.

A Castelo de Areia foi dissolvida n’água, numa decisão inacreditável: o STJ deu aos ricos a certeza de que, mais do que impunes, eles ininvestigáveis.

Porque, aparentemente, a Justiça tem a percepção de que, se fizer Justiça, o sistema político se desmancha.

Rico no Brasil não é suspeito.

E, breve, se os tucanos mandarem, não pagarão impostos, como recomenda a revista Economist.

O sistema político brasileiro não vai peitar o financiamento ilegal das campanhas.

Seria retirar o oxigênio que se respira na laranja que Niemeyer cortou ao meio e depositou na Praça dos Três Poderes (podres) em Brasília.

Se aprovar o financiamento público , será mais desrespeitado que a Constituição.

Dantas é o maior dos corruptores.

Marcos Valério, seu patético instrumento.

Eles são um exemplo de como é fácil comprar todo o sistema: PSDB e PT.

Urbi et Orbi.

Em São Paulo, Minas, Rio e tudo converge para Brasília, que, hoje, concentra mais escritório de lobby-cum-advogados do que em toda a Washington.

O Kakay, por exemplo.

O grande advogado de Brasília.

Nao há em Washington ninguém que se compare na relação número de causas-sucessos obtidos.

A única comparação possível é com Márcio Thomaz Bastos, que não perde uma no Supremo.

Ou o Greenhalgh, também chamado de “Gomes”, na Satiagraha.

Sem ele, a BrOi, a P-36 do Governo Lula, não existiria.

(Hoje, aparentemente, o ” Gomes” se dedica a incentivar a publicação de livros que mesclam as biografias de São Francisco de Assis com a de Daniel Dantas).

Interessante que Greenhalgh, Bastos e Kakay começaram a vida pelo lado esquerdo, a defender presos políticos no regime militar.

Falta-nos o Padre Vieira (longe de ser essa a vocação do Mino).

A conjugação do verbo “rapio” é o que dá vida e coerência ao sistema.

O Brasil está à venda.

A apropriação do Estado pelos ricos mais espertos é táo brasileira quanto o Tico Tico no Fubá.

E sai barato.

É só ver as contas do Marcos Valério na Carta.

Com qualquer dez mil reis se compra qualquer coisa.

E ninguém vai em em cana.

Ou é importunado com uma investigação criminal.

Como disse outrora um brasileiro de que devemos nos orgulhar, o Juiz Fausto de Sanctis.

O Brasil é um paraíso.

Paraíso penal.

Fonte: Conversa Afiada

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Mino: por que Dantas é invulnerável? Porque ele conhece todos os podres

Mino: Isso aqui não é um país sério

por Paulo Henrique Amorim


Telefono para Mino Carta para dar parabéns pelo soberbo trabalho da CartaCapital na internet: “Carta desmascara Época. Relatório da PF incrimina Dantas”.

Mino interrompe, irritado.

“Se isso aqui fosse um país sério, isso provocava uma crise de bom tamanho !”

Pondero que isso aqui não é sério e nem é uma democracia.

Como já disse esse ansioso blogueiro, a impunidade de Dantas interessa, sobretudo, à classe política.

Clique aqui para ler também “Será que o Macabu vai absolver Dantas na semana em que foi herói da Época ?”

E aqui para ler “Delúbio: PT tem que se acertar com Dantas”.

Mino recomendou que eu lesse o editorial de hoje da CartaCapital.

Ele tem razão.

O editorial irretocável é um verdadeiro retrato do Brasil.

Um país que não é sério e nem é uma democracia.

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O relatório da Polícia Federal mostra como e por quê. Trata-se, obviamente, do orelhudo.


Grande e feliz corruptor


por Mino Carta

Editorial da edição 641 de CartaCapital


Na festa de Carta-Capital do ano passado, realizada entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial para celebrar o aniversário da revista e entregar os troféus das Empresas Mais Admiradas no Brasil, na minha fala de boas-vindas aos convidados me atrevi a confrontar os governos Lula e FHC. E me coube constatar a verdade factual: o mensalão, como propina mensal a parlamentares variados, não foi provado. Um murmúrio estrondoso de desaprovação elevou-se da plateia e algumas pessoas deixaram precipitadamente o recinto.


Leitores, telespectadores e ouvintes da mídia nativa acreditam cegamente no mensalão na versão apresentada por editorialistas, colunistas e perdigueiros da informação. Não percebem que o crime cometido no episódio por larga porção do PT é tão grave quanto o seria o mensalão conforme a pretensa denúncia de Roberto Jef-ferson. Não é que este enredo chamusque apenas o partido, ustiona-o no grau mais elevado e deixa uma cicatriz irreversível.


Quem se entrega às fantasias do jornalismo pátrio não se dá conta de outro logro, sem falar de má-fé de muitos, inclusive alguns que se dizem de esquerda: o mensalão é um biombo desdobrado para encobrir a ação, continuada e infelizmente eficaz, do grande corruptor, o banqueiro Daniel Dantas.


Pergunto aos meus céticos botões por que a revista Época decidiu dissertar a respeito do relatório da Polícia Federal sobre o valerioduto e suas consequências. Gargalham sinistramente ao registrar o esforço insano da semanal da Globo para colocar na ribalta o chamado mensalão pretendido por seis anos a fio e para relegar a um brumoso bastidor a figura do banqueiro orelhudo do Opportunity.


Com quanta desfaçatez a mídia nativa manipule o noticiário é do conhecimento até do mundo mineral. A verdade factual é outra (e CartaCapital em vão a apresenta desde 2005) e soletra a seguinte situação: o dinheiro do Opportunity irriga a horta petista por intermédio do valerioduto sem que isto implique pagamentos mensais a parlamentares.


Dantas sempre soube quais as hortas a serem regadas, daí ter começado pela tucana à sombra de FHC, para ser premiado na hora das privatizações. Ao se concluir, o enredo encena um jantar com o presidente e príncipe dos sociólogos em 2002, destinado a traçar os caminhos do futuro. O banqueiro acabava de regressar de Cayman, onde guarda e põe a fermentar as contas secretas de inúmeros graúdos. No dia seguinte, FHC trocou as diretorias dos fundos de pensão, que até então eram entrave poderoso aos negócios dantescos.


O tucanato foi bom parceiro também no plano regional. O ensaio do caso nacional levantado pelas acusações de Jefferson deu-se, como se sabe, em Minas Gerais, quando do governo Azeredo. A bandalheira foi provinciana, contudo opulenta. De todo modo, há jantares e jantares. Significativo aquele de cardápio árabe servido na residência brasiliense do então senador do DEM Heráclito Fortes, em plena crise do mensalão. Confraternizaram no quibe e no charuto de uva Daniel Dantas, grande amigo do anfitrião, e o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, acompanhado pelos organizadores da tertúlia, os deputados José Eduardo Cardozo e Sigmaringa Seixas.


Mas quem se incomoda com isso? Quem se aventura a ilações aparentemente obrigatórias? E quem abre os olhos diante de uma estranha operação que levou Marcos Valério e, em oportunidades distintas, outras figuras do PT e do PTB, inclusive Delúbio Soares, a Lisboa quando Dantas quis vender a Telemig à Portugal Telecom? E quem se indigna se Gilmar Mendes solta no espaço de 24 horas dois habeas corpus para pôr em liberdade o banqueiro preso por obra da Satiagraha, e logo secundado pelo ministro Nelson Jobim, exige do presidente Lula, “chamado às falas”, o afastamento imediato do delegado Paulo Lacerda- da direção da Abin? Réu por ter colaborado com o delegado Protógenes para suprir a falta de apoio da própria PF entregue ao seu sucessor, Luiz Fernando Corrêa. E quem se surpreendeu ao saber que o atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi à Itália como advogado de Dantas ainda no seu tempo de parlamentar para contribuir à tentativa, fracassada, de provar que quem iniciou a guerra dos grampos foi a Telecom Italia?


Intermináveis perguntas se escancaram em busca de esclarecimentos a respeito de outras tantas situações suspeitas, para usar um adjetivo brando. Mas, se há jantares e jantares, há ministros e ministros. O da Justiça à época da Satiagraha, Tarso Genro, telefonou no dia da primeira prisão de Dantas, logo de manhã para me dizer eufórico: “Viu o que a gente fez, prendemos o Dantas”. Aquela ligação até hoje me deixa boquiaberto. Talvez Genro estivesse a navegar na névoa, como um barco escocês ao largo de Aberdeen, em uma madrugada invernal, e sem apito. Sobra a evidência clamorosa: Dantas conhece a fundo os podres da República, e isso o torna, por ora pelo menos, invulnerável.


Fonte: Conversa Afiada

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Nenhuma escola é uma ilha

por Ana Flávia C. Ramos, em Tabnarede


Tragédias como a ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, sempre provocam grande comoção pública, indignação e, obviamente, tristeza pelas muitas crianças perdidas no atentado. Além desses sentimentos, tais fatos provocam também um grande tsunami de “especialistas”, mobilizados em velocidade estonteante pela mídia, para dar laudos e explicações quase matemáticas sobre as motivações do assassino. O atirador Wellington Menezes de Oliveira, segundo as informações desses “cientistas da tragédia” (que variam de “criminólogos” a policiais militares), era tímido, solitário, filho adotivo, “usuário” constante do computador (a “droga” dos tempos modernos segundo os “analistas”), ateu, islâmico, fanático, fundamentalista, portador do vírus da AIDS e, provavelmente, vítima de bullying na escola.

Certamente não há como contestar que todo ato humano, e por isso histórico, se explica a partir da análise de uma cadeia de relações complexas. Como digo aos alunos, nada tem resposta simples e direta. Entretanto, o tipo de questão levantada para entender o terrível ato de Wellington Menezes de Oliveira diz muito mais sobre nós mesmos do que sobre ele. Todos os nossos preconceitos estão embutidos nessas respostas. De fato, não sabemos, e talvez nunca saibamos, por que exatamente ele atirou contra cada uma das crianças (em sua maioria meninas), assim como não sabemos sobre as reais motivações dos muitos atentados como esse, ocorridos em países como Estados Unidos e Dinamarca. Mesmo depois de tudo o que se discutiu, ainda é difícil, por exemplo, explicar Columbine (abril de 1999).

Uma das coisas que mais tem me chamado a atenção é a recorrência da explicação que elege o bullying escolar como um dos fatores que podem desencadear esse tipo de ato violento. A explicação não é nova, Columbine é prova disso. Há mais de dez anos atrás, dois meninos entram em uma escola, de capa preta (quase como em um filme hollywoodiano) e atiram em seus colegas. “Especialistas”, gringos agora, se apressam em dizer as razões: divórcio nas famílias, videogames, filmes violentos, Marilyn Manson, porte de armas facilitado e, como não poderia faltar, bullying na escola.

É inegável que o bullying é uma realidade. É indiscutível que ele é extremamente nocivo e doloroso aos alunos que sofrem com ele. É evidente que há urgência em iniciar um debate para saber como sanar o problema. Mas a pergunta que fica é: o que de fato é o bullying? Ele é um sinal (histórico) de que? E ainda mais: ele é um problema restrito à escola? Por que os alunos são tão cruéis com seus colegas?

Michael Moore, cineasta norte-americano explosivo, tentou dar a sua interpretação para o atentado de Columbine com o documentário Bowling for Columbine (2002). Moore, ao invés de repetir os clichês da mídia, foi implacável na destruição do senso comum das justificativas moralistas para o evento. Item por item, desde a desagregação da família, Manson, até a polêmica questão do porte de armas foram desconstruídos em sua narrativa. O foco centrou-se em respostas muito mais interessantes, localizadas não nos dois jovens assassinos, mas na sociedade americana. O imperialismo militarista dos Estados Unidos, a ação violenta em outros países, a política do medo (incentivada pelo Estado e pela grande mídia), que reforça e superestima dados sobre a violência urbana, sobre o fim de mundo, e, principalmente, a intolerância com todo tipo de diferença. Racismo, preconceito, homofobia, conflitos religiosos e luta de classes são só alguns dos ingredientes do caldeirão de ódios em que se transformou a sociedade americana.

Como crescer no Colorado, na “livre” América, e não ser conspurcado por esses valores? Como não idolatrar armas e achar que elas são um meio prático de solucionar problemas? Como viver imune a uma sociedade individualista, capitalista, que divide os seus cidadãos o tempo todo em “winners” e “loosers”? E mais ainda, como não se deixar levar por uma sociedade que até hoje não consegue lidar com a diferença entre brancos e negros? Uma sociedade que até os anos 1960 não oferecia direitos, oportunidades e tratamentos iguais a todos os seus cidadãos, tem o que para oferecer ao pensamento dos estudantes? Os americanos, ainda hoje, estão preparados para o respeito à diferença? A relação que eles mantêm com os muçulmanos diz muito. Definitivamente a liberdade e o respeito ainda não se transformaram em uma unanimidade por lá.

É claro que mesmo Moore não chega a dar respostas definitivas sobre a questão. E mais ainda: é evidente que ele considera a forma pela qual a instituição ESCOLA trata seus alunos (hierarquias e classificações hostis), ignorando muitas vezes o bullying, tem sua responsabilidade no massacre. Assim como é nítido que a venda facilitada de armas e munição são coadjuvantes importantes da história. Mas Moore foi corajoso ao lançar em cada um dos americanos a responsabilidade da tragédia e discutir aquilo que ninguém teve coragem (ou má fé) de fazer. Nem a mídia, nem o governo, nem a sociedade. É preciso encarar os “monstros”, com franqueza, e não apenas “satanizar” o ambiente escolar, para dar algum significado para esses eventos.

Ontem no Terra Magazine o antropólogo Roberto Albergaria afirmou que a mídia e a sociedade brasileira desejavam o impossível: explicações para um “desvario sem significado”. Segundo ele, o que Wellington Menezes praticou foi o que os estudos franceses chamam de “violência pós-moderna”, caracterizada por uma ruptura irracional, sem explicação. De fato, talvez tenha sido um “ato irracional”, fruto de um momento de insanidade. Mas acredito que esse tipo de resposta não nos ajuda a resolver coisas importantes sobre nós mesmos. A tragédia no Realengo, a meu ver, pode e deve ser início de um debate importante sobre a nossa sociedade.

A tragédia na escola do Rio de Janeiro acontece num contexto bastante relevante. Em outubro de 2009, Geyse Arruda foi hostilizada por seus colegas de faculdade porque, segundo eles, ela não sabia se vestir de modo “apropriado” para freqüentar as aulas. Em junho de 2010, Bruno, goleiro do Flamengo, é suspeito de matar a ex-namorada, Elisa Samudio, por não querer pagar pensão ao filho. Suposta garota de programa, Samudio foi hostilizada na opinião de muitos brasileiros. Após rompimento, Mizael Bispo, inconformado, mata sua ex-namorada Mércia Nakashima em maio de 2010. Em novembro de 2010, grupos de jovens agridem homossexuais na Avenida Paulista, enquanto Mayara Petruso incita o assassinato de nordestinos pelo Twitter. E mais recentemente, em cadeia nacional, Jair Bolsonaro faz discurso de ódio contra homossexuais e negros. Tudo isso instigado e complementado pelo discurso intolerante, preconceituoso, conservador e mentiroso do candidato José Serra à presidência da República. A mídia? Estava ao lado de Serra, corroborando em suas artimanhas, reforçando preconceitos contra Dilma, contra as mulheres e contra os tantos mais “adversários” do candidato tucano.

Wellington matou mais meninas na escola carioca. Se, por um lado, jamais saberemos as reais razões que o fizeram agir dessa forma, por outro sabemos o quanto a sociedade brasileira tem sido, no mínimo, indulgente com atos de intolerância, machismo, ódio e preconceito contra mulheres, negros e homossexuais. Se não há uma ligação direta entre esses diversos acontecimentos, eles pelo menos nos fazem pensar o quanto vale a vida de alguém em um contexto de tantos ódios? Quantas mulheres morrerão hoje vítimas do machismo? Quantos gays sofreram violência física? Quantos negros sentirão declaradamente o ódio racial que impregna o nosso país? O que é o bullying se não o prolongamento para a escola desse tipo de mentalidade? Quantas pessoas apoiaram as declarações de ódio de Bolsonaro via Facebook? Aquilo que acontece no ambiente escolar nada mais é do que um microcosmo do que a sociedade elege como valores primordiais. E o Brasil, que por tanto tempo negou a “pecha” de racista e preconceituoso, vê sua máscara cair.

Não adianta culpar o bullying, achando que ele é um problema de jovens, um problema das escolas. Não adiante grades e detectores de metal nas entradas ou a proibição da venda de armas. Como professora, sei que o que os alunos reproduzem em sala nada mais é do que ouviram da boca de seus pais ou na mídia. Não adianta pedir paz e tolerância no colégio enquanto a mídia e a sociedade fazem outra coisa. Na escola, o problema do bullying é tratado como algo independente da realidade política, econômica e social do país. Mas dá pra separar tudo isso? Dá pra colocar a questão só em “valores” dos adolescentes, da influência do malvado do computador ou dos videogames? Ou é suficiente chamar o ato de Wellington de uma “violência pós-moderna” sem explicação? Das muitas agressões cotidianas, a da escola do Realengo é apenas uma demonstração da potencialidade de nossos ódios. A única coisa que me pergunto é: teremos a coragem de fazer esse tipo de discussão?

*Ana Flávia C. Ramos é professora, historiadora pela Unicamp


Fonte: Viomundo / TabNarede

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CARPE DIEM

” Nunca se deixem convencer de que esta vida vale pouco. Bebam a vida em grandes goles, então verão que ainda foi pouco quando tiverem de a deixar. Não vivam nunca de esperar, o tempo é muito limitado. O grande bem é a própria vida. Vive-se apenas uma vez”

(Bertolt Brecht)

Quer saber quem é Bertolt Brecht? Clica aqui ó: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bertolt_Brecht e http://www.culturabrasil.pro.br/brecht.htm

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Pela pirataria na internet

Por Wilton Cardoso, editor de Vida Miúda


A internet é, por natureza, uma biblioteca composta pelos conteúdos digitais (e digitalizáveis) de todas as épocas e culturas. Uma biblioteca total, gratuita, interativa, livre de controles e acessível a quem quer que tenha um chip plugado na rede. Esta pelo menos é a potência da internet, é no que ela pode facilmente se transformar num piscar de olhos. E o que impede a concretização desta potência? Basicamente interesses de mercado e do estado.
Internautas, artistas e programadores simpatizantes ou ativistas da cultura livre se debatem entre o velho e o novo mercado pop. Por um lado o velho mercado, formado por editoras, estúdios, gravadores e emissoras, deseja manter o status quo das rígidas leis de direitos autorais e de cópia (copyright) que o beneficia. Por outro lado, o novo mercado, formado por empresas telefônicas e sites de serviços e conteúdos como o Google, deseja a flexibilização das leis de direitos autorais e de copyright em nome de novos marcos legais que regularizem suas atividades baseadas na publicidade. Um artigo esclarecedor sobre o jogo do mercado na internet e a posição da cultura livre neste jogo pode ser lido aqui.
A crítica aos mercados não se trata de uma reclamação típica de esquerdistas frustrados e sonhadores. Vale ressaltar o quanto o novo mercado pop (ao que tudo indica, o que sairá vencedor na batalha dos mercados) coloca em risco a privacidade das pessoas, pois seu negócio é exatamente a armazenagem e o cruzamento de dados privados dos internautas para vendê-los à publicidade dirigida – e, eventualmente, entregá-los ao estado. Se o direito ao acesso livre e gratuito aos conteúdos é um assunto caro às “esquerdas”, o direito à privacidade, pelo que eu saiba, é muito estimado pelos liberais. O problema, portanto, é de todo mundo. Para saber mais sobre os riscos que o mercado e o estado trazem à privacidade do internauta, sugiro este artigo.
UM EXEMPLO CONCRETO

A internet trouxe problemas às leis de direitos autorais e de copyright pois é impossível impedir ou controlar a cópia de conteúdo na rede. Isto por vários motivos: a cópia de conteúdo digital não tem qualidade inferior ao “original”, seu custo é praticamente zero, é rápido e fácil copiar qualquer conteúdo. Chaves de proteção são facilmente quebradas por hackers. Na verdade, a internet funciona, entre outras coisas, por meio da cópia de bytes – para ler esta página de blog, por exemplo, seu computador local está fazendo uma cópia temporária dela na memória. A cópia de conteúdo pertence, portanto, à natureza da internet.

Um bom exemplo de como a internet bagunça as leis do copyright é o caso da música.

Vamos aos fatos: já é possível baixar gratuitamente qualquer música por meio de torrents ou sites de armazenamento. Todo mundo baixa/ouve (vê o clipe da) música gratuitamente e sem o menor peso na consciência de estar lesando gravadoras, autores, músicos, técnicos etc… Algumas gravadoras e artistas já entenderam que as pessoas não querem pagar por conteúdo digital/digitalizável (LPs esgotados também se tornam mp3 disponíveis para download) e disponibilizam as músicas gratuitamente para baixar. Vão ganhar o seu com shows e outros serviços, fora do ambiente da internet: veja o caso da Trama Musical.

Se for pra cobrar de alguém, a única chance é que se cobre das empresas de telecomunicações, sites de armazenamento, Youtube ou portais de torrents, que faturam com publicidade: o internauta não aceita pagar e já considera, mesmo que incosncientemente, que o acesso gratuito às músicas (a qualquer conteúdo) é um direito seu.

É altamente provável que os internautas não queiram nem mesmo se expor à publicidade para consumir música gratuitamente, pois isto significa literalmente vender sua privacidade, seus gostos, sonhos e desejos em troca de conteúdo. Negociar a privacidade é como vender a alma ao mercado por intermédio do publicitário (este padre hedonista), um negócio pior que vendê-la ao diabo. Este pelo menos remunera o mortal com riquezas terrenas, já o mercado só retribui com contas a pagar. É que ainda não há alternativas na internet à publicidade: caso surja um espaço na rede que seja gratuito, sem publicidade e livre de controles de mercado e dos governos, certamente os internautas correriam pra lá sem pestanejar.

INTERNET: TERRITÓRIO EM DISPUTA
A internet se trata, portanto, de uma mídia técnica na qual se digladiam várias potências, várias vontades de poder, vários interesses conflituosos:

1. Os do velho mercado pop, que gostaria que a rede nunca tivesse nascido e que será, provavelmente, derrotado;

2. Os do estado, sempre acometido de paranóia e desejo de controle, ávido por saber os passos de cada cidadão seu. Neste aspecto, a internet é uma ferramenta muito poderosa, pois ela grava todos os eventos da rede e o cálculo computacional proporciona um cruzamento de dados que torna o universo de controle do filme 1984 uma brincadeira de criança;

3. Os do novo mercado pop, ávido pelos bancos de dados da alma de cada pessoa a fim de maximizar suas receitas publicitárias;

4. Os de artistas, programadores, hackers e internautas adeptos da cultura livre em geral, que veem na internet um espaço potencialmente livre dos controles do mercado e do estado, no qual a criatividade desenvolve toda a sua potência e a privacidade e o acesso gratuito ao conhecimento (aos conteúdos) é um direito.

É possível que outras forças surjam na internet, que algumas se extingam ou se transformem e outras permaneçam. Uma coisa é certa: a potência da rede como biblioteca total e gratuita, como espaço da cultura livre, faz parte de sua natureza maquínica e vai de encontro com o desejo das pessoas pelo acesso livre e gratuito ao conhecimento. A adesão praticamente irrestrita da população internauta à pirataria digital confirma que as pessoas já escolheram o direito à informação em detrimento ao direito de propriedade intelectual. Tacitamente as pessoas dizem:

“vamos copiar todos os conteúdos independente de leis ou vontades autorais, estatais ou mercadológicas em contrário, contra o autor, os produtores, distribuidores e o estado. Acessar, copiar e (usu)fruir gratuitamente todo e qualquer conteúdo digital ou digitalizável no ambiente da internet é legítimo, é um direito nosso. “

Por que não explicitar tal desejo coletivo numa declaração de princípios, trazendo-a para a consciência e exigindo leis que cumpram tais princípios?

CINCO PRINCÍPIOS DA CULTURA LIVRE NA INTERNET
Qualquer lei que atenda aos anseios por uma cultura livre na internet teria que se basear, pelo menos, nos seguintes princípios:

1. É direito do internauta que todo conteúdo digital/digitalizável seja disponibilizado gratuitamente na internet;

2. Todo conteúdo disponibilizado na internet poderá ser copiado de forma ilimitada;

3. É vedada a disponibilização de conteúdo com qualquer tipo de proteção contra cópias ou limitações ao uso gratuito (No máximo, poderá haver um “pague se quiser” ou “pague a mim, mas pode repassar gratuitamente”);

4. O conteúdo gratuito não pode sofrer restrições de acesso/download por conta de contratos publicitários. Obs. 1: Por outras palavras, todos os conteúdos podem ser remixados para a retirada de publicidade ou disponibilizados em ambientes livres de publicidade. Obs. 2: Este item é controverso, mas não acho que hackers, piratas e praticantes da cultura livre queiram abrir mão dele, pois é ele que dá direito ao internauta de escapar da nova indústria cultural que vive de publicidade, como o Google;

5. Se houver exploração comercial de um conteúdo na internet, o seu criador (ou criadores) terá direito de ser remunerado. Obs.1: Por outro lado, o autor não tem direito à remuneração no caso do uso não comercial da obra. Obs. 2: Outro ponto polêmico: o autor poderia criar obstáculos à fruição desinteressada de seu trabalho no ambiente da internet? O direito ao conhecimento não se sobreporia ao direito de propriedade do autor sobre sua obra, pelo menos no espaço da biblioteca total que é a internet?

Isto valeria para vídeo, imagem, som, escrita, games, programas, etc. Tudo que seja digital…

Tenho certeza que tais princípios são moralmente concretos e tecnicamente factíveis de se atingir. Moralmente, eles já estão entranhados firmemente no espírito das pessoas e são, portanto, legítimos: as pessoas já escolheram privilegiar, em detrimento dos outros direitos, o direito irrestrito ao conhecimento e à informação. Tecnicamente não há o que comentar, a internet é, por natureza, uma biblioteca total de conteúdos digitais/digitalizáveis, gratuita e disponível a todos que tenham um chip conectado na rede: a única coisa que falta é fazer upload das obras ainda fora da rede e catalogar tudo com precisão, para evitar conteúdos em duplicidade e dificuldades na busca.

Não tenho ilusões que o mercado e o estado permitirão a aprovação de leis que atendam a estes princípios que, como disse, são legítimos e deveriam ser alçados à condição de direitos da população (global). Uma lei assim só sairá do papel quando a pirataria for tão maciça, disseminada e incontrolável que o mercado e o estado não tenham nada mais a perder. E ela vai atingir tal estágio de virulência, estejam certos disso: se existe uma praga determinada, tenaz e invencível neste mundo do Deus Mercado, é a pirataria digital.

É ela, a pirataria digital, esta guerra suja empreendida pelos vagabundos da rede, que irá efetuar a potência máxima da internet, tornando-a efetivamente uma biblioteca total.

Fonte: Outras Palavras / Vida Miúda

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