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O exemplo de Juliano Mer-Khamis

Com sua vida e com seu corpo, o ator e diretor Juliano Mer-Khamis encarnou a possibilidade de um movimento de resistência binacional no conflito Israel-Palestina. Filho de uma mãe judia e um pai palestino, nasceu em duas culturas, e escolheu viver nas duas. Foi baleado e morto em Jenin, segunda-feira. Juliano era um artista e um palestino, um militante de esquerda e um judeu. O artigo é de Amira Hass.

por Amira Hass

Aqueles que conheceram Juliano Mer-Khamis, o ator e diretor nascido em Nazaré que foi baleado e morto em Jenin, na segunda-feira, serão os que escreverão a respeito dele. Tudo o que nós outros podemos fazer é escrever a respeito das marcas de sua vida.

Juliano teve sorte. Nasceu numa família palestina e judia, judia e palestina. Este homem irado foi cercado por identidades conflitantes e complementares. Ele foi a sombra estendida de uma comunidade binacional imaginada nos idos dos anos 50. Como um Peter Pan que se recusava a crescer, Juliano encarnou o potencial de uma vida compartilhada (ta’ayush, em árabe) enquanto lutava por igualdade. Filho de uma mãe judia e um pai palestino, nasceu em duas culturas, e escolheu viver nas duas. Ele não via necessidade de explicar isso.

Eu acho que Juliano não alimentava ilusões; levando golpes de todos os lados, o potencial de uma ta’ayush diminuía. Ta’ayush é uma visão sadia das coisas, mas a sua chance de realização é cada vez mais ínfima. Há aqueles que fantasiam com os dias do Messias para se evadirem de pensar nos dias que antecedem ao próximo desastre. Juliano era um filho da fantasia da ta’ayaush. Seu nascimento foi a realização da fantasia da ta’ayush e sua morte é um desastre.

Juliano tinha raiva. Sua raiva era do tipo que só um judeu como ele, nascido na esquerda e militante pela igualdade até o fim, pode se permitir expressar como um modo de vida. Os palestinos devem conquistar sua raiva, amadurecê-la; devem domesticá-la, reprimi-la, sublimá-la. Essa é a única maneira de permanecer vivo e são (sem ser preso, ferido ou morto) sob as condições de violência física e não física ditadas por Israel.

É isto: violência áspera, que fede a racionalismo e a supremacia e se pretende esclarecida. É o que se encontra diariamente, a cada momento, do nascimento à morte. A violência encontrada da expropriação comandada e acompanhada por um mapa ao disparo num alvo a partir de uma torre de observação; do Ministro do Interior expulsando palestinos de Jerusalém, sua cidade de origem, ao bloqueio do retorno à vila de Bir’im, na Galiléia; das respostas racistas da juventude judia nas pesquisas de opinião ao barulho dos disparos sobre os telhados onde crianças brincam em Gaza. A violência está sempre lá, das taxas municipais de Jerusalém sobre ruas arruinadas e lixo sem coleta às câmeras de segurança na vizinhança do bairro/cruzado shtetl judaico em Silwan; de um assentamento esverdeado luxuoso às cisternas palestinas destruídas por um tanque israelense; das concessões para o estabelecimento de fazendas no Negev à incriminação dos beduínos como fossem “infiltrados”. Numa palavra, do judaico ao democrático.

Essa violência tem tantos ângulos diversos que pode levar à loucura. Juliano teve a sorte de ser um artista, e a loucura era um de seus pincéis. Através do teatro que ele fundou em Jenin, Juliano se permitiu a crítica a aspectos repressivos da sociedade palestina. Poderia se pensar que ele fez isso enquanto militante de esquerda, como um ator compromissado com o dever artístico de ser honesto, e como um palestino. Torçamos para que seu assassino seja encontrado, e então saberemos se um artista palestino foi morto por causa de sua coragem de viver de uma maneira que rompe com a ordem, ou se um artista judeu foi morto porque se permitiu a criticar abertamente uma sociedade que não é a sua, de acordo com alguns, ou se um homem de esquerda foi morto porque rompeu com a ordem. Ou talvez as três coisas juntas. Mesmo que tenha sido morto por qualquer outra razão, Juliano era ainda um artista e um palestino, um militante de esquerda e um judeu.

Agora que a possibilidade de uma visão sadia de uma ta’ayush é pequena, o que resta? O caminho. Esta é a opção de um movimento binacional de resistência, que quer derrubar coisas como Kadafi, Mubarak, Assad, que oprimem um povo sobre o outro.

Há quem insista na fantasia de que um movimento binacional é uma necessidade histórica, como uma antítese lógica à ideologia da separação demográfica que se tornou a bíblia do processo de Oslo. A verdade deve ser dita: ao longo do tempo a maioria dos que lutaram por essa fantasia são judeus. Então, abrandamos a contradição entre o amor pelo povo e pelo lugar, por um lado, e o ódio da violência esclarecida, por outro?

Com sua vida e com seu corpo, Juliano Mer-Khamis encarnou a possibilidade de um movimento binacional de resistência. O assassino, qualquer que tenha sido seu motivo, queria o seu corpo. Na sua morte, Juliano nos deixou o possível.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

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