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A outra lambança imobiliária nos EUA

Como os bancos recorreram a fraude e falsificação para retomar casas

por Argemiro Ferreira


Já se teme até um “segundo choque imobiliário”. Nos diferentes estados dos EUA, cada vez mais norte-americanos enfrentam o risco de retomada de suas casas por falta de pagamento da hipoteca. No último domingo o jornalista Scott Pelley expôs no “60 Minutes” da rede CBS a questão crucial que ainda tem impedido mais e mais retomadas em massa de casas pelos bancos.

(Veja a reportagem AQUI http://www.cbsnews.com/video/watch/?id=7361572n&tag=nl.e882

http://cnettv.cnet.com/av/video/cbsnews/atlantis2/cbsnews_player_embed.swf

e um complemento AQUI:

http://www.cbsnews.com/8301-504803_162-20049744-10391709.html)


http://cnettv.cnet.com/av/video/cbsnews/atlantis2/cbsnews_player_embed.swf

Para comprar casa a pessoa era obrigada pelos bancos a apresentar papelada rigorosamente em dia. Os bancos, no entanto, não cuidaram de sua própria papelada. Por causa do descuido são agora dezenas de milhares os casos de bancos e financeiras incapazes de localizar os documentos que provem estarem legalmente habilitados a retomar imóveis dos inadimplentes.

Ficou difícil saber quem é de fato dono de cada casa. A culpa pelo pesadelo, segundo Pelley, é a invenção em Wall Street, na fúria desregulamentadora, dos investimentos garantidos por hipotecas – ou, na língua deles, “mortgage-backed securities”. Os mesmos “investimentos exóticos” que desencadearam o colapso financeiro nos EUA e continuam a criar problemas.

Também ouvida domingo, no final de “60 Minutes”, a própria presidente da reguladora bancária FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), Sheila Bair, foi enfática. Chamou a situação atual de “pervasive” – expressão que qualifica a influência nociva e perversa disseminada largamente pelos bancos.

Entre os bancos atolados na lambança de fraudes e ilegalidades estão gigantes como HSBC, Citibank, Wells Fargo, Deutsche Bank, US Bank e Bank of America. Mas os detalhes mais escabrosos relatados na reportagem da CBS só começaram a surgir graças a uma personagem singular, Lynn E. Szymoniak. Enquanto tentava salvar a própria casa, ela fez várias descobertas.

Wall Street usava seus computadores mais modernos para produzir a desastrosa securitização garantida por hipotecas, segundo Szymoniac, mas esqueceu de preservar documentos em papel, talvez temendo que retardassem o ritmo frenético dos lucros.

Ao levar Szymoniac ao tribunal como inadimplente, o banco credor dela teve de alegar ter perdido os papéis. Mais de um ano depois, disse tê-los reencontrado. Não sabia que a moça, além de advogada, era investigadora de fraudes e especialista em documentos forjados (até treinara agentes do FBI).

Ao examinar os papéis afinal apresentados pelo banco, Szymoniak achou primeiro uma discrepância: a data da compra da hipoteca pelo banco (17/10/2008) era posterior à do processo de retomada iniciado pelo banco (julho de 2008). Ou seja, quando o banco iniciou a ação de retomada ainda não era dono da hipoteca.

Não fazia sentido mas o que veio depois foi ainda mais estranho. Numa pesquisa online em 10 mil hipotecas, Szymoniak passou a devassar a orgia de fraudes bancárias. Havia milhares de documentos forjados. Grande número deles levava a assinatura de Linda Green como “vice-presidente” do banco. E Green assinava ainda, ao mesmo tempo, como vice-presidente de 20 bancos.

Szymoniak concluiu estar diante de “fraudes absolutamente intencionais”. Na prática, ao encurtar caminhos e empacotar hipotecas em “securities”, Wall Street recorria a atalhos. “Securities” eram negociados e passavam de mão em mão, de investidor a investidor. Depois, com a inadimplência de compradores, os bancos precisaram, para retomar imóveis, exibir documentos que provassem a propriedade. (“Mostre-me a prova de que é dono” passou a ser a reação inicial ao ataque dos bancos).

A dificuldade tornou-se então impossibilidade. Incapazes de provar sua condição de donos das hipotecas, o que passaram a fazer bancos e financeiras? Optaram pela fraude explícita. Criaram um conjunto de procedimentos ilegais destinados a “fabricar” provas para, com elas, fundamentar a retomada de casas.

A pesquisa de Szymoniak aprofundou-se num caso específico – o da singular Linda Green, que assinava como vice-presidente sem nunca sequer ter trabalhado em banco. Localizada pela equipe da CBS, ela reconheceu: assinou milhares daqueles papéis. Admitiu ainda que muitas outras pessoas também contratadas assinavam o nome dela. Que habilidade especial tinha para ser escolhida? Um nome curto e fácil de soletrar.

O empregador dela era uma companhia do estado da Georgia chamada DOCX, subsidiária da LPS, de US$2 bilhões, especializada em prestar serviços jurídicos a bancos provedores de hipoteca. Somente em 2009, devido à enxurrada de processos, a LPS resolveria fechar a DOCX, na esperança de assim por fim ao problema. Mas o estrago estava feito. Os bancos acharam ter se livrado do problema, transferindo-o para pessoas ingênuas como Green, sem consciência do que faziam a serviço deles.

A investigação de Szymoniak comprovou ainda que mais pessoas também assinavam, com letras bem diferentes, o nome de Green. A CBS chegou a elas. Muitas delas eram, na época em que aceitaram o emprego, estudantes de escolas secundárias. Recebiam para passar horas no escritório assinando o nome “Linda Green”.

O jovem Cris Pendly era uma dessas pessoas. Ele explicou à equipe da CBS como trabalhava. Não tinha experiência bancária mas só o que se exigia dele era velocidade para assinar o nome de Green o máximo de vezes possível. “Eles me garantiram antes que aquilo era estritamente legal”, disse. “Só teria de pegar a caneta e começar”. Em torno da mesma mesa dele trabalhavam ao todo 20 pessoas, todas fazendo a mesma coisa. Pendly chegava a fazer cinco mil assinaturas num mês.

Havia ainda notários, para atestar a identidade da pessoa e a autoria da assinatura. Uma jovem que fazia esse papel explicou à CBS: “Antes eu não sabia. Agora sei: era falso o que eu atestava como verdade”. Mas os documentos resultantes da fraude foram usados para permitir a retomada das casas de compradores com pagamento atrasado.

“Era prática rotineira nos últimos três anos”, contou na TV um especialista familiarizado com os procedimentos. Tribunais foram inundados pelos papéis fraudulentos criados a serviço dos bancos. Algumas vezes sequer constava o nome de quem perdera a casa. Era irrelevante. Mas nos textos, motivo de chacotas, faziam-se piadas, substituiam-se nomes por zombarias, etc.

Penley contou que sua remuneração era US$ 10 por hora de trabalho. Bem humorado e minucioso no relato franco da sua atividade, contou ainda como certa vez fizera um comentário jocoso com os colegas ao lado: “Um dia todos nós ainda vamos aparecer em reportagem do ‘60 Minutes’”.

Milhares de famílias que perderam as casas devido a tais fraudes não acham graça. Elas se organizam hoje em associações espalhadas pelos EUA. Nos dias atuais, toda pessoa que recebe notificação de “foreclosure” (retomada da casa) exige imediatamente do banco que mostre a prova de propriedade. Muitos ainda continuam nas casas por isso.

Para a presidente da SDIC, Shirley Bair, a enxurrada de ações judiciais dos compradores contra os bancos pode tornar o processo mais difícil, ao invés de melhorar a situação. E o presidente do FED, Ben Bernanke, acha que os documentos das hipotecas são tão ameaçadores para a economia americana que o governo devia forçar os bancos a pagar com um fundo especial.

O mercado de imóveis continua desestabilizado e os preços cairam nos últimos cinco meses. Sheila Bair, do SDIC, também defende um fundo de bilhões de dólares para fazer uma “limpeza”. Na proposta dela o fundo pagaria aos compradores para aceitarem a alegação de propriedade dos bancos, desistindo de novas ações judiciais. Seria menos oneroso para os bancos do que tentar recriar documentos legítimos, o que levaria mais tempo e ainda teria custo maior.

Nenhum dos grandes bancos envolvidos nas fraudes concordou em falar à CBS. Nem a American Bankers Association. Para Scott Pelley eles estão na defensiva. Procuradores Gerais dos 50 estados planejam puní-los. E os estados obstinam-se em exigir deles US$ 50 bilhões pelos danos que causaram.

Não se sabe quantas firmas faziam para os bancos o mesmo trabalho sujo da DOCX. O FBI e vários estados investigam e esperam descobrir. No último ano houve um milhão de retomadas de casas. Espera-se mais um milhão em 2011. E na Justiça tramitam incontáveis ações na tentativa de reverter os efeitos das “mortgage-backed securities” que Wall Street manipulou e fraudou na década de 2000.

“Estou muito preocupada, temendo que as coisas fiquem fora de controle, devido ao impacto trazido por esses fatos”, disse Sheila Bair. Ela se referiu ainda às ações judiciais dos compradores que se acham prejudicados pelas fraudes. “Ao invés de melhorar a situação, todo o processo pode tornar-se muito difícil”, advertiu.

Fonte: Luis Nassif Online

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