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desenho de Carlos Latuff

O Magreb e os mercados financeiros

Tunísia, Egito, Jordânia, Iêmen, Barein, Líbia… Submetidas desde décadas a brutais regimes súditos do Ocidente e do neoliberalismo, pensadas nos discursos e narrativas hegemônicas como ‘atrasadas’ e com tendências ‘islamistas’, são muitas as lições para os movimentos transformadores de base

Por Christian Marazzi

Aqueles que seguem o que está acontecendo no Norte da África e no Oriente Médio com um olho nos mercados financeiros não podem deixar de ficar chocados com algumas similaridades, bem como diferenças fundamentais. Assim, por exemplo, se destaca a lógica do contágio, isto é, a imitação que supera toda a expectativa racional. Nos mercados financeiros, o déficit de informação conduz os agentes econômicos a imitar aos demais para definir – selecionar ou escolher – o representante da riqueza universal historicamente determinada: a moeda como “equivalente geral”, ou as ações tecnológicas, ou os títulos de alto risco, ou as matérias primas etc.; em poucas palavras, as convenções coletivas da memória keynesiana. Este déficit de informação provoca um movimento contagioso dentro da comunidade de investidores que, por sua vez, produz bolhas financeiras que explodem quando o processo se torna tão auto-referenciado que perde toda a relação com a realidade. Esta é a “racionalidade da irracionalidade”, ou a “racionalidade coletiva” do mercado.

Os processos revolucionários na era do capitalismo financeiro mundial parecem funcionar segundo a mesma lógica, ainda que só de maneira superficial. De fato, a infecção, a prática mimética que caracteriza os levantes das massas do Norte da África e do Oriente Médio, não surge de um déficit de informação, mas sim de seu contrário, um excesso de informação. O quê dá margem a manifestações em outra regiões, contíguas ou não, ainda que difiram em composição social, PIB per capita, taxa de inflação e taxa de desemprego dos jovens, como ressalta a empresa de intermediação financeira UBS (Wealth Magement Research, “Os Mercados financeiros globais”, 24 de fevereiro). Neste caso, os veículos da infecção são muitas vezes, ou com frequência, as tecnologias da comunicação, mas a direção é oposta: se nos mercados financeiros a auto-referenciação não tem materialidade, nos movimentos insurgentes o referente material é o corpo social. A mesma informação, seu conceito e seu modo de difusão não se prestam a uma fácil interpretação. Se forem lidas as crônicas de Maurizio Matteuzzi, jornalista do Il Manifesto enviado à região, parece prevalecer a desinformação, a opacidade dos feitos e das notícias. A informação e seu ‘excesso’ não afetam aqui a imitação do outro, como nos mercados financeiros, mas sim a imitação de si mesmo, de sua própria singularidade. Uma singularidade plena de desejos de liberdade e de autodeterminação. De desejos de viver.

Da sua parte, no que se refere ao futuro do mercado petroleiro, a confusão é maior. De um lado, todos os analistas acreditam que a Líbia não é o problema. Mas é certo que 60% de sua produção foi paralisada, o que equivale à perda de 1,1% do abastecimento mundial de petróleo, e também é certo que a Arábia Saudita pode facilmente cobrir uma perda desta magnitude. Por outro lado, tal e como diz o The Economist, desde os anos 1970 até agora, o petróleo se globalizou significativamente. Por exemplo, a Rússia superou a Arábia Saudita como maior produtora de petróleo bruto. A quota da Opep na produção mundial caiu de 51% em meados dos 1970 a pouco mais de 40% atualmente.

O problema é político devido ao fato de que, no que se refere à capacidade adicional, as reservas são essencialmente sauditas, isto é, estão determinadas pela Arábia Saudita. De forma similar, o Bahrein, que faz fronteira com a Arábia Saudita, onde a produção petroleira é mínima, vê passar por sua costa 18% do petróleo bruto mundial. Não é por acaso que na semana passada o rei saudita se apressou em anunciar o lançamento de 36 bilhões de dólares para distribuir entre seus cidadãos. É por isso que aqui as previsões são muito arriscadas. Pode-se passar de 120 dólares a 220 dólares por barril de petróleo bruto, ainda que se espere em médio prazo que volte a cem dólares. Deve-se levar em conta que, de acordo com uma estimativa “ajustada” que circula entre os economistas, uma elevação sustentada – para os próximos dois anos – de 10% no preço do petróleo significaria, em média, uma redução de meio ponto percentual do PIB mundial.

Nos EUA, onde o avanço da terceirização na economia, quer dizer, a subcontratação, conduziu uma sensível diminuição do consumo de petróleo por unidade de produto, em comparação com os anos do fordismo, os mesmos 10% do aumento de preços provocariam na prática uma redução de 0,2% do PIB e 0,1% do aumento no desemprego (Financial Times, “O aumento do preço do petróleo põe em risco a frágil recuperação dos EUA”, 25 de fevereiro).

Choque

De qualquer modo, parece claro que os modelos de previsão econômica são de pouca utilidade: não funcionam em tempos de crise política. É muito provável que um choque nos mercados petroleiros tenha o mesmo efeito que a crise da dívida soberana europeia do ano passado, isto é: uma perda de confiança nos mercados financeiros, queda de preços das ações e o retorno da recessão. E como aconteceu no ano passado, a tentativa de relançar o quantitative easing, a criação de dinheiro por parte do Fed, o Banco Federal norte-americano.

Só que agora se corre risco de inflação. Ou, melhor dizendo: de um aumento nos preços do petróleo. Aumento que diminui o consumo de outros bens, cria uma situação esquizofrênica: por um lado, o aumento do preço da gasolina – e ninguém sabe por quanto tempo. Por outro lado, a cesta de produtos com a qual se mede a inflação – a inflação de base – permanece imóvel, ao menos até que as expectativas de inflação desencadeiem o processo de profecia auto-cumprida, obrigando o Fed a intervir com um aumento nas taxas de juros. A gestão da inflação é, definitivamente, um verdadeiro dilema para as autoridades monetárias, também devido ao fato de que as demandas salariais serão difíceis de conter apesar das altas taxas de desemprego.

A situação é ainda pior na Europa. Ainda que não seja melhor nos países emergentes, onde se consome mais energia por unidade de produto. É de se esperar que se gere uma dinâmica como a que segue: lutas salariais e luta por benefícios sociais contra a renda petroleira. Será o momento de reclamar e recordar a virtude dos bens comuns, os commons!

Tradução de Cainã Vidor. Publicado por http://www.diagonalperiodico.net/. Foto por http://www.flickr.com/photos/89031137@N00/.

Fonte: Revista Fórum

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