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Defensores da energia nuclear esqueceram Chernobil

Formadores de opinião que desprezam os riscos da radiação estão ignorando os mortos de acidentes passados. Fukushima não é Chernobil, mas é potencialmente pior. Uma catástrofe de múltiplos reatores acontecendo a 240 quilômetros de uma metrópole de 30 milhões de habitantes. Se acontecesse em Sellafield (uma das principais usinas nucleares inglesas, a 400 quilômetros de Londres), haveria pânico nas principais cidades britânicas. Ainda não sabemos o resultado final mas ouvir de especialistas que a radioatividade não é nada sério, ou que esse acidente prova que precisamos de energia nuclear, não é nada menos de trágico. O artigo é de John Vidal.

Todos os dias mais problemas surgem na crise nuclear japonesa e fica claro que a indústria e os governos estão nos contando muito pouco; não têm ideia de quanto tempo irá levar retomar o controle; ou qual o risco real da contaminação cumulativa.

As autoridades tentam nos acalmar dizendo que não há perigo imediato e uns poucos ambientalistas obcecados com as emissões de carbono repetem o mantra da indústria de que apenas uns poucos morreram em Chernobil – o pior acidente nuclear da história. Aqueles que não concordam são desqualificados e colocados no mesmo grupo dos que negam as mudanças climáticas.

Eu prefiro as palavras de Alexey Yablokov, membro da academia russa de ciências, e conselheiro do presidente Gorbachev à época de Chernobil: “quando você ouvir ‘não há perigo imediato’ [de radiação nuclear] então é hora de correr para o mais longe e o mais rápido que você puder”.

Cinco anos atrás eu visitei áreas ainda altamente contaminadas da Ucrânia e da fronteira da Bielorrússia, onde a maior parte da radioatividade de Chernobil se concentrou. Eu desafio o chefe cientista John Beddington e ambientalistas como George Monbiot ou qualquer um dos que agora desqualificam os riscos da radiação a conversar com médicos, cientistas, mães, crianças e moradores dos vilarejos onde as consequências do acidente nuclear se concentraram.

É assustador. Fomos de hospital em hospital e de uma vila contaminada para outra. Encontramos bebês deformados e com mutações genéticas; crianças doentes; adolescentes com crescimento anormal e corpo deformado; fetos sem pernas ou dedos e pessoas dizendo que todos os membros de suas famílias estavam doentes.

Isso foi 20 anos depois do acidente mas nós ficamos sabendo de muitas pessoas com tipos raros de câncer nos ossos. Um médica nos disse, chorando, que em alguns lugares uma em três gestações tem má-formação e que ela estava sobrecarregada de pessoas com desordens nos sistemas imunológicos e endócrinos. Outros disseram que eles ainda detectavam césio e estrôncio no leite de mães vivendo em áreas distantes das mais afetadas, e significativa radiação ainda estava presente na cadeia alimentar. Pessoas das vilas confirmam que o “colar de Chernobil” – câncer de tireoide – é tão comum quanto chama atenção; e muitos mostram sinais de envelhecimento acelerado.

Médicos e cientistas que têm lidado diretamente com a catástrofe dizem que o número de vítimas oficialmente reconhecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica da ONU – 50 mortos diretos e talvez 4 mil que vieram a morrer depois – é um insulto e de um simplismo grosseiro. O Centro Científico de Radiação da Ucrânia, que estima que a mortalidade infantil aumentou entre 20 e 30% depois do acidente, diz que seus dados não são reconhecidos pela ONU pois não foram publicados em um grande jornal científico.

Konstantin Tatuyan, um dos “liquidadores” que ajudou a limpar a usina, nos disse que praticamente todos os seus colegas morreram ou desenvolveram algum câncer, de um tipo ou outro, mas que nunca ninguém entrou em contato com ele para evidências.

Existe um candente ressentimento com a forma com que a ONU, a indústria e formadores de opinião mal informados tem desconsiderado os efeitos da catástrofe. Enquanto há milhares de estudos na Europa oriental sobre os efeitos da radiação de Chernobil na saúde, apenas uns poucos são aceitos pela ONU, e há apenas uns poucos estudos internacionais tentando agrupar números totais. Eles vão do estudo do Comitês Científicos dos Efeitos da Radiação Atômica da ONU (57 mortes diretas e 4 mil casos de câncer) ao dos Físicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear, que estima que mais de 10 mil pessoas foram afetadas por câncer de tireoide apenas e que outros 50 mil casos podem ser esperados.

Subindo a escala, um estudo de 2006 de parlamentares europeus do Partido Verde sugerem até 60 mil mortes: o Greenpeace pegou evidências de 52 cientistas e estimou as mortes e as doenças em 93 mil cânceres terminais até agora e talvez outros 140 mil mais no futuro. Usando outros números, a Academia Russa de Ciências Médicas declarou em 2006 que 212 mil pessoas haviam morrido em consequência de Chernobil.

No fim de 2006, Yablokov e dois colegas, calculando pela queda global em nascimentos e aumento de cânceres verificado depois do acidente, estimaram em um estudo publicado nos anais da Academia de Ciências de Nova York que 985 mil pessoas haviam morrido até agora e que o ambiente havia sido devastado. Os resultados foram recebidos com quase completo silêncio pela Organização Mundial da Saúde e pela indústria.

Em quem podemos confiar quando as estimativas mudam tão drasticamente? Devemos acreditar nas evidências empíricas dos médicos; ou nos governos e membros da indústria apoiados por campanhas de relações públicas? Tão politico se tornou o campo da energia nuclear que agora você pode pegar os números que quiser, desacreditar os oponentes, e ignorar qualquer coisa que você não goste. A verdade é que talvez nunca saibamos a verdade sobre Chernobil pois os dados foram perdidos, milhares de pessoas de 24 países que ajudaram na limpeza do local se dispersaram através da gigante ex-União Soviética, e muitos morreram.

Fukushima não é Chernobil, mas é potencialmente pior. Uma catástrofe de múltiplos reatores acontecendo a 240 quilômetros de uma metrópole de 30 milhões de habitantes. Se acontecesse em Sellafield (nota do tradutor – uma das principais usinas nucleares inglesas, a 400 quilômetros a noroeste de Londres), haveria pânico nas principais cidades britânicas. Ainda não sabemos o resultado final mas ouvir de especialistas que a radioatividade não é nada sério, ou que esse acidente prova que precisamos de energia nuclear, não é nada menos de trágico.

Tradução: Wilson Sobrinho

Fonte: Carta Maior

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