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Londres luta pelos serviços públicos


Uma multidão nas ruas contra cortes de verbas e medidas de “austeridade” do governo conservador


Por Alan Jones, The Independent, UK (26/3/2011) | Tradução Coletivo Vila Vudu


Um protesto de massas agitou, no sábado (26/3), as ruas de Londres contra “os cortes de austeridade” que o governo planeja impor nos gastos públicos, no que todos estimam que já seja o maior movimento de massas há anos, e que traz dura mensagem ao governo do primeiro-ministro David Cameron.

Estimava-se que cerca de 100 mil ativistas — sindicalistas e outros grupos viessem à rua –, mas já está claro que esse número foi largamente ultrapassado: centenas de milhares de manifestantes, de todo o país, vieram a Londres. As primeiras estimativas falam de pelo menos 250 mil manifestantes, mesmo antes do início da marcha.

Um primeiro grupo de centenas de sindicalistas interrompeu o tráfego no centro comercial da cidade. A marcha começou com fogos de artifício e rojões, quando a multidão começou a deslocar-se de Piccadilly Circus para Oxford Street e Regent Street.

Na Bond Street, houve confronto entre um grupo de manifestantes e a polícia. Uma agência do Royal Bank of Scotland foi atacada com garrafas de vidro e restos de comida. Muitos manifestantes cobriam o rosto com lenços e levavam bandeiras vermelho-pretas. Gritavam “a rua é nossa” e carregavam cartazes com “não aos cortes!” Uma linha de 50 policiais foi obrigada a recuar e dispersou, sobrepujada pela massa de manifestantes.

Muitas lojas fecharam, tentando resistir ao avanço de manifestantes vestidos de negro dos pés à cabeça, que forçavam as vitrines e portas. O grupo desceu por Topshop até a Oxford Street, quebrando janelas e lançando bexigas carregadas de tinta. Muitos cantavam “paguem os impostos que nos faltam”, enquanto a polícia tentava proteger lojas de roupa e vitrines.

Dave Prentis, secretário-geral da Unison, disse à Press Association que o número de manifestantes “é absolutamente gigantesco e mostra o estado de espírito dos trabalhadores, furiosamente contra os cortes que o governo deseja nos impor”.


Enquanto esperava que a marcha chegasse ao ponto onde estava, para inserir-se na linha de frente dos manifestantes, acrescentou: “Esperávamos muita gente, porque só a Unison organizou 500 ônibus e vários trens especiais para trazer gente que se inscreveu. Mas o que se vê aqui é simplesmente inacreditável”.

“São famílias inteiras, trabalhadores comuns, muitos trouxeram os filhos, para dizer alto e claro a David Cameron que suspenda esses cortes inadmissíveis que estão provocando o fim de dezenas de milhares de empregos e o fechamento de serviços públicos essenciais, entre os quais bibliotecas, hospitais e postos de saúde.”

Os manifestantes começaram a chegar a Londres horas antes da marcha, o que converteu o Embankment num mar de bandeiras e cartazes, muitos balões e discursos, que encheram completamente as margens do Tâmisa.

Bandas, músicos, coros, artistas e bailarinos tocavam, cantavam e dançavam à frente da marcha, e dezenas de milhares de pessoas, muitos trazendo crianças sobre os ombros ou no colo, crianças pequenas e crianças maiores, que tocavam cornetas e apitos, enquanto, pacientemente, andavam pelo centro de Londres em direção ao Hyde Park.

O líder do partido Labour, Ed Miliband, ainda dava retoques no discurso que faria, instantes antes de começar a falar.

Ed Balls, ‘Shadow chancellor’, foi vaiado por alguns manifestantes, quando se apresentou para falar com os líderes sindicalistas que abriam a marcha, logo pela manhã.

Disse que o partido Labour está decidido a continuar a trabalhar contra os cortes nos gastos públicos e a favor de que se criem mais empregos e construam-se mais casas, se voltar ao poder.

A multidão respondeu: “E o que você fará por nós, Ed?”

Len McCluskey, secretário-geral de Unite, estimou em meio milhão de pessoas o número de manifestantes.

“É incrível. Nunca antes se viu tanta gente em manifestação contra o governo. Dessa vez, o governo não conseguirá fingir que não nos viu.”


Centenas de policiais postaram-se à frente do Parlamento, por trás de uma barreira de placas de metal, quando a marcha passou por ali e seguiu para Whitehall, onde, ano passados ocorreram cenas de violência em manifestações estudantis.

Peter Keats, 54, de Lowestoft, Suffolk, já festejava o sucesso da manifestação, quando ainda estava chegando gente, às 11h30. Erguendo uma taça de vinho branco, disse: “Brindo ao sucesso da manifestação e brindo às pessoas que saíram às ruas”.

“A imprensa estã falando de 100 mil pessoas, mas há muito mais. Espero que chegue a meio milhão. Espero que o governo comece a ouvir o que tanta gente tem a dizer”.

Mr Keats, que trabalha para Jobcentre Plus, acrescentou: “Pessoalmente, acho errado o modo como os pobres estão sendo sacrificados. Nem me preocupo muito comigo, mas meus clientes estão cada dia mais vulneráveis e preocupo-me com eles e com os filhos desse país.”

Alan Dowling, 40, trabalha para a UK Border Agency em Sheffield. Disse que os cortes o levaram a sair de casa para participar da marcha. Disse que teve de sair de casa às 4h40 da madrugada, para chegar a Londres a tempo.

“Outro dia, o ministro da imigração disse, pela TV, que temos de fazer mais. Como podemos fazer mais, se nos tiram pessoal, se cortam verbas, se cortam empregos?”, perguntou. (…)

Keith Williamson, 55, professor no Shelley College, Huddersfield, disse: “O governo diz que não há cortes na educação, mas é mentira. Estamos ameaçados de perder vários alunos, porque eles perderão as bolsas de manutenção, sem as quais não poderão continuar os estudos.”

Cerca de 50 gurkhas uniram-se à manifestação, em apoio às subvenções.

Ragprasad Purja, 44, gurkha do Nepal, que vive em Morden, sul de Londres, disse: “Os gurkhas lutam por esse país há 200 anos. Os cortes nos benefícios afetarão muitos de nós. Os cortes têm de parar.”

Mais de uma hora depois do início da marcha, ainda estava chegando gente. Richard Evans, 46, andou 166 milhas, de Cardiff, para unir-se à manifestação. “Queria encorajar as pessoas a tomar um ônibus e vir. Acho que o melhor modo de fazer isso, é dar o primeiro passo.” Mr. Evans partiu de Cardiff sábado passado, e chegou a Londres na noite de 6ª-feira, em torno das 20h. Mr Evans, que lamentou apenas que “meus pés estão muito doloridos”, agradeceu as pessoas que o acompanharam por trechos da caminhada e os muitos que o estimularam pelo Facebook.

Fonte: Outras Palavras

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