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A SUPREMA [IN]COMPETÊNCIA DO TUCANATO
Metrô-SP: festa que não resolve o problema

Opção por tecnologia supostamente avançada ajuda a explicar longo atraso na operação da Linha 4

Por Tadeu Breda, Latitude Sul


O clima era de festa na novíssima estação de metrô Butantã. Muitos fotógrafos subiam e desciam as escadas rolantes, buscando o melhor ângulo para clicar e botar no jornal. Equipes de televisão filmavam nas plataformas de embarque e dentro dos trens, enquadrando o balanço sanfonado dos vagões contínuos e entrevistando os usuários felizes por, finalmente, poderem escapar do trânsito infernal que toda manhã atravanca a vida que quer fluir pela ponte Eusébio Matoso.

“É impressionante como o governo de São Paulo foi incompetente ao demorar tanto para inaugurar a linha Amarela”, disse eu a um microfone imaginário. “E o pior é que o problema no fechamento das portas continua.”

Pois é. Quando as estações Paulista e Faria Lima começaram a operar entre às 9 e às 15 horas, numa fase de testes que dura até hoje, eu me perguntei muitas vezes: Por que não liberam pra gente, de uma vez por todas, essa esmola subterrânea? Por que não colocam esses trens circulando das 5 às meia-noite, como todos os outros?

A resposta veio da namorada, que frequenta a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Uma de suas professoras trabalha para a Via Amarela (consórcio privado que construiu e, agora, administra a linha 4 do metrô paulistano) e disse numa aula que o problema era bem simples: as portas. Para entendê-lo, é necessário ter conhecimento de duas informações básicas.

Primeira: as novas estações do metrô contam com a inovadora tecnologia anti-suicídio, que nada mais são do que barreiras de vidro que separam os trilhos das plataformas. Quando o trem chega, suas portas devem alinhar-se às portas da barreira anti-suicídio. Ambas se abrem e, assim, os passageiros podem entrar e sair livremente. Deveriam, mas não é o que acontece.

Aqui entra a segunda informação: os trens da Linha 4 contam ainda com outra tecnologia inovadora, chamada pela Via Amarela como driverless – que, num anglicismo desnecessário, significa “sem condutor”. Os vagões são pilotados à distância por uma moderna central de operações cheia de telas e mapas digitais. Pura inovação.

Porém, mesmo com tanta tecnologia, os engenheiros da Via Amarela não estão conseguindo fazer com que seus programas de computador alinhem as portas do trem às portas da barreira anti-suicídio. E eu pude comprovar o defeito nesta manhã de segunda-feira, numa das primeiras viagens que partiram da estação Butantã. Aliás, alguns funcionários da Via Amarela que estavam no vagão comigo também constataram o mesmo problema: e se entreolharam, resmungando alguma coisa antes de sorrir uns aos outros.

É por causa das portas que a fase de testes está durando muito mais do que deveria, e continuará em vigor até que a empresa resolva a imprecisão acarretada por suas ânsias de modernidade. Por trás de tanta tecnologia, está a disposição de mecanizar os trens para reduzir o número de empregados e o pagamento de direitos e salários.

Se o sistema eletrônico funcionasse a contento, tudo bem. Mas não é o que acontece. O problema das portas poderia ser facilmente solucionado com uma peça de carne, osso e intelecto chamada condutor, que está há muito tempo no mercado e trabalha com sucesso garantido em quase todas as demais linhas do metrô do Brasil e do mundo.

Enquanto a Via Amarela insiste em seu capricho de oferecer trens computadorizados, milhões de paulistanos comem o pão que o diabo amassou no trânsito, presos em ônibus lotados que mal conseguem se locomover nos horários de pico, mesmo dentro dos corredores.

Nesta segunda-feira haverá festa, risadas, apertos de mão e discursos ufanistas na estação Butantã. Políticos darão as caras para provar que o governo está trabalhando para o povo. Mas o problema da Linha Amarela (e, nem se fala, do transporte público de São Paulo) permanece sem o menor rastro de solução para além das bicicletas.

Fonte: Outras Palavras / Latitude Sul

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