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Um cenário de Armagedon no Japão

Por todo o Japão, os níveis de radiação estão exorbitantes. Relatórios oficiais os minimizam. O Russia Today disse que uma cidade a norte de Tóquio tem níveis 300 vezes acima do normal. Em Tóquio, o nível está 11 a 20 vezes mais alto em diferentes partes da cidade, e continua subindo.

Por Stephen Lendman*

A situação que se aprofunda no Japão afeta todos. Radiação atmosférica se espalhará globalmente, especialmente afetando o hemisfério norte. Todos em certa medida serão afetados, aqueles no Japão e nas proximidades, mais ainda.

Uma catástrofe sem precedentes está se desdobrando. Dificilmente você saberia disso através das reportagens da mídia, incluindo a TV a cabo ou satélite, as rádios, a TV aberta, a BBC, a Al Jazeera, que falham ao explicar a catástrofe que se aprofunda, colocando milhões de vidas em risco.

Em 16 de março, no entanto, o Russia Today disse que o Japão “pode estar perdendo o controle” em Fukushima, depois que um aumento na radiação demonstrou que os esforços para conter o desastre não estão funcionando. O engenheiro nuclear Arnie Gunderson disse ao Washington Post que evacuar a maioria dos trabalhadores “é um sinal para mim de que eles desistiram de tentar prevenir um desastre e passaram para a fase de tentar limpar a bagunça depois”.

A Unidade 1 explodiu em 12 de março, a Unidade 3 em 14 de março. Em 15 de março, outras explosões ocorreram nas Unidades 2 e 4. Incêndios irromperam, o último deles na Unidade 4. Relatórios dizem que foram contidos. Inexplicado está se milhares de depósitos de combustível estão derretendo.

Todas as seis usinas quebraram. Quatro até agora experienciaram explosões. Outras podem acontecer a qualquer momento. Quatro estão com problemas sérios. Todas enfrentam possíveis fusões, que talvez até mesmo já estejam acontecendo em um ou mais reatores, mas o governo e as reportagens da mídia não dizem nada.

Em 16 de março, a Al Jazeera disse que as operações Fukushima foram suspensas devido aos perigosamente altos níveis de radiação. Outras reportagens sugeriram um recomeço parcial. Trabalhadores corajosos o suficiente para continuar estão enfrentando a morte sem hesitar. Centenas de milhares de operários de Chernobyl sofrem doenças graves ou morreram.

Em 15 de março, os escritores Keith Bradsher e Hiroko Tabuchi, do New York Times, lançaram a manchete: “Última Defesa contra Reatores Danificados: 50 Trabalhadores Japoneses”, num artigo que dizia algo como: Enfrentando a morte certa por intoxicação por radiação, eles “representam a última chance do Japão de prevenir uma catástrofe nuclear maior”, que, de fato, provavelmente está em andamento ainda que não se fale sobre isso.

Os “50 anônimos se voluntariaram (ou foram), designados para bombear água do mar em perigosamente exposto combustível nuclear,” já em parcial ou completa fusão no que pode ser um esforço fútil para prevenir um desastre. Cerca de 750 outros trabalhadores foram evacuados por causa de níveis altamente perigosos de radiação.

“Os poucos detalhes que a Tokyo Electric (revelou) pintam um quadro terrível”, incluindo cinco trabalhadores mortos, 22 outros feridos (talvez seriamente expostos à radiação), dois desaparecidos, e outro hospitalizado por razões não explicadas.

Em 16 de março, a manchete dos mesmos escritores do NY Times era “Japão Diz Que O 2º Reator Pode Ter Rompido Com Vazamento Radioativo”, dizendo: Na quarta-feira, “a crise nuclear do Japão se intensifica dramaticamente” após o reator da Unidade 3 ter tido uma ruptura e começado a soltar vapor radioativo. Devido aos altos níveis, um plano de jogar água por helicópteros foi abandonado. No entanto, correndo contra o Tempo, a Tokyo Electric (Tepco) dobrou os “50 anônimos” para 100, num rodízio de turnos curtos por causa dos extremos níveis de radiação.

O reator rompido era “visto como a última totalmente intacta linha de defesa contra os vazamentos de material radioativo em larga escala”, mas a gravidade da situação ainda permanece incerta. De qualquer modo, a situação do superaquecimento da piscina que contém os depósitos de combustível das Unidades 3 e 4 parece péssima, e o resfriamento e outros esforços para contenção até agora não funcionaram.

Reatores têm três camadas de proteção – o edifício externo, o reservatório de contenção e o revestimento de metal em volta dos depósitos de combustível dentro do reator. “O governo diz que esses depósitos nos reatores do nº 3 provavelmente já estariam danificados”. A Agência de Segurança Nuclear e Industrial (NISA) do Japão disse que 70% dos depósitos da Unidade 1 estão danificados, adicionando que não se tem ideia de quão danificados ou se até mesmo já estariam em processo de fusão.

Mais provavelmente, um ou mais reatores estão seriamente violados, vazando radiação, e talvez até em total fusão. Ninguém sabe ao certo, ou de fato ninguém diz. Claramente um desastre maior e não relatado está em andamento, minimizado pelos relatórios oficiais.

Em 16 de março, os articulistas David Sanger, Matthew Wald e Hiroko Tabuchi, do NY Times, colocaram outra manchete, “EUA dizem que radiação é “Extremamente Alta” e vê a crise nuclear japonesa piorando”, em outro artigo, dizendo: Em depoimento ao Congresso, o Presidente da NRC (Comissão Reguladora Nuclear dos EUA), Gregory Jaczko, “fez, na quarta-feira, uma avaliação muito mais pessimista da ameaça oferecida pela crise nuclear do Japão, muito pior do que a avaliação oferecida pelo governo japonês”.

Dizer que pouca ou nenhuma água restou no depósito de combustível nuclear significa que a fusão nuclear está ocorrendo, expelindo radiação atmosférica tóxica.

Mais tarde no mesmo dia, Jaczko disse que representantes da NRC em Tóquio “confirmaram que a piscina de resfriamento da unidade nº4 estava vazia”. Como resultado disso, quantidades enormes de radiação atmosférica estão se espalhando. Isso tudo cria um potencial cenário apocalíptico, provando que ou acabamos com a energia nuclear em todas as suas formas ou a vida no planeta irá enfrentar uma potencial extinção.

Em 5 de março, um artigo da Reuters, intitulado “Rússia diz que Japão enfrenta fusão em seis reatores”, dizia

“O chefe nuclear da Rússia (Sergei Kiriyenko) alertou na terça-feira que todos os seis reatores” estão ameaçados. Ele disse ao Primeiro-Ministro Putin:

“Todos os seis oferecem ameaças, infelizmente. Mas mesmo se (todos) fundirem, (isso) ainda não acarretará numa explosão nuclear,” uma conclusão baseada em esperança, não realidade, após quatro explosões. Outras podem acontecer a qualquer momento.

Kiriyenko disse que gás irradiado está escapando. Além disso, a água de refrigeração pode contaminar o lençol freático. Muito provavelmente já o fez.

No mesmo dia, outro artigo com a manchete “Incêndio em reator nuclear do Japão aumenta ameaças da radiação”, dizia:

“O Japão se apressou para evitar uma (maior) catástrofe depois que (na Unidade 4) um incêndio começou na quarta-feira”, mandando baixa radiação em direção a Tóquio, “fazendo com que algumas pessoas fugissem da capital e desencadeando um crescente alarme sobre a ascendente crise”.

Níveis de radiação

Por todo o Japão, os níveis de radiação estão exorbitantes. Relatórios oficiais os minimizam. O Russia Today disse que uma cidade a norte de Tóquio tem níveis 300 vezes acima do normal. Em Tóquio, o nível está 11 a 20 vezes mais alto em diferentes partes da cidade, e continua subindo. O país inteiro não é seguro. Milhões de vidas são ameaçadas além de muitas mais na margem do Pacífico e além.

O toxicologista Lee Tin-lap, da Universidade Chinesa, alertou sobre o potencial dos efeitos a longo prazo, dizendo:“Você está inalando a radiação para os seus pulmões, e há a absorção passiva pela pele, olhos e boca…”. Radiação em qualquer quantidade é cumulativa, danosa, e para sempre.

A maioria dos japoneses não acredita em nada que venha das fontes de informação do governo e da Tepco. O prefeito de Fukushima, Yukei Sato, disse ao primeiro-ministro Naoto Kan que “a população está furiosa e prestes a atingir o ponto limite”. Outras pessoas Japão a fora acusam os oficiais de obstrução. Eles sabem que uma conspiração de indústria/governo tem um longo registro de acobertamento e negação, reforçado por falsos ou duvidáveis reportagens da mídia.

Durante anos, de fato, funcionários do governo, incluindo da Agência de Energia Atômica do Japão, acobertaram ou minimizaram acidentes no passado, os seus custos e seus efeitos na saúde humana.

A Tepco está notavelmente arruinada, exposta por ter ocultado ou minimizado os acidentes passados, falsificando registros de segurança 200 ou mais vezes, e forçada a admitir que outra de suas usinas não foi projetada para suportar uma magnitude bem menor que 9.0.

Além disso, em Fukushima, centenas tubos de combustível armazenado oferecem riscos especiais. Eles são guardados em grandes tanques de água sem um revestimento de proteção. As altas temperaturas podem ter causado evaporação, tornando-as vulneráveis ao superaquecimento e à combustão, talvez em poucos dias, espalhando vastas quantidades de radiação.

David Lochbaum da União de Cientistas Preocupados disse ser “pior que uma simples fusão”, talvez até o próximo ponto preocupante desta catástrofe. O especialista nuclear do Greenpeace, Jim Riccio, disse:

“Os tubos de combustível usado que estão na unidade 4 agora começaram a entrar em ebulição, e uma vez que isso começa, não dá para pará-lo. A ameaça é de que, se toda a água do tanque evaporar, o revestimento de metal dos tubos que está exposto ao ar, e é volátil, pegará fogo. Isto irá propelir a radiação ainda mais longe”.

Em 2005, um relatório da Academia Nacional de Ciências alterou sobre o perigo, dizem que os tubos de combustível usado colocavam a América e outras nações em risco por contaminação da radiação generalizada em caso de um acidente ou ataque terrorista. O relatório exigia uma ação imediata para reforço da segurança dos tanques.

No começo dos anos de 1990, especialistas em energia nuclear como David Lochbaum alertavam sobre o manejo do combustível usado, nas usinas dos EUA, usando o design de Fukushima. Como resultado, eles recomendavam que ele fosse armazenado em barris secos longe dos reatores, como precaução. A revista Time fez uma reportagem em 4 de março de 1996, na capa, intitulada “Assoprando o Apito na Segurança Nuclear: Como uma avaliação em uma usina expôs a falha do governo federal em aplicar suas próprias regras” sem sucesso. Ter deixado o erro no projeto incorreto traz sérias ameaças para o Japão, a costa do Pacífico e mais.

Sobretudo, a Tepco notadamente sacrificou a segurança pública em troca de lucro, especialmente em Fukushima. Todos os seis reatores são precários. Mais além, desde o começo dos anos 1970, os especialistas em segurança nuclear condenaram os recipientes de contenção Mark 1 projetados pela General Electric por oferecerem riscos inaceitáveis, segundo uma reportagem do New York Times. Não obstante, eles ainda são usados em duas dúzias de reatores japoneses, inclusive em Fukushima.

Vinte três usinas nucleares dos EUA em 16 localidades também usam o mesmo projeto, mesmo com a NRC avaliando-o como suscetível a explosões e falha de contenção por ser um projeto precário e de baixo custo.

Em 1972, o Dr. Stephen Hanuaer, um funcionário de segurança da Comissão de Energia Atômica (AEC por seu nome em inglês), precursora da NRC, recomendou que o sistema de pressurização do projeto Mark 1 fosse descontinuado e proibido. Ele alertou que, se o sistema de resfriamento falhasse, os tubos de combustível superaquecidos fariam com que o reator explodisse.

Em conseqüência, três engenheiros nucleares da GE renunciaram publicamente, alegando perigosas falhas nos projetos. Somando-se a isso, um relatório da NRC de 1985 concluiu que a probabilidade do Mark 1 falhar nas primeiras horas depois de uma fusão no núcleo era bastante alta.

Em 1986, o Oficial de Segurança da NRC, Harold Denton, disse a um grupo de industriais que o recipiente Mark 1 tinha 90% de probabilidade de falhar se um acidente causasse superaquecimento e fusão. Quando o resfriamento do reator é comprometido, o recipiente de contenção é a última linha de defesa.

Funcinários da GE disseram que o produto era seguro, alegando “seu design industrial de ponta com um registro comprovado de segurança e confiabilidade há mais de 40 anos”. Apesar das modificações feitas no projeto original dos anos 60, era mentira. Atualmente, 32 unidades do Mark 1 operam no mundo. Todos são perigosos como mostrou Fukushima.

Chernobyl em 1986 matou cerca de um milhão de pessoas e o número ainda cresce. Largas áreas foram afetadas por contaminação permanente. Os trabalhadores da limpeza ainda estão sob risco de envenenamento por radiação. Trabalhadores mais antigos sofreram doenças medonhas ou morreram, a maioria deles por cânceres dolorosos. Em áreas contaminadas, os efeitos continuados incluem:

– aumento de 100% dos casos de tumores agressivos na tireóide;

– aumento de 50% dos casos de leucemia e tumores de ossos, cérebro, entre outros;

– aumento de 30% de “más-formações”, causando mutações genéticas e outras patologias afetando funções cardio-vasculares, ósseas, sistemas musculares e tecidos conectivos, bem como doenças no sistema nervoso e disfunções psíquicas; e

– aumento de 20% em nascimentos prematuros, além de um número desconhecido de abortos espontâneos e partos natimortos.

Mais do que isso, a contaminação por radiação permanece um risco durante milhares de anos. Assim permanecerá o Japão contaminado.

Um comentário final

Em 11 de março, o especialista nuclear Harvey Wasserman lançou a manchete “O abalo no Japão poderia ter irradiado os EUA inteiros”, dizendo:

Um desastre similar poderia mandar “uma nuvem letal de radiação sobre os Estados Unidos”. Localizados em perigosas áreas sismicamente ativas, “dois reatores enormes, um em San Onofre, Califórnia e o outro no Diablo Canyone não foram projetados para suportar choques desta magnitude”.

Eles estão também próximos à costa, “vulneráveis a tsunamis como” outros afetados pelos tremores no Japão. Localizada entre San Diego e Los Angeles, “uma nuvem radioativa expelida por um ou os dois reatores de San Onofre” seria catastrófica para o sul e o centro da Califórnia.

Localizado em Avila Beach, o Diablo Canyon fica a oeste de San Luis Obispo, entre Los Angeles e San Francisco. “Uma erupção radioativa ali se espalharia pela Califórnia central e, dependendo dos ventos, ir até Bay Area ou para o sudeste de Santa Barbara e então para Los Angeles”. Minimamente, isto iria “destruir permanentemente grande parte da região…”.

O acidente de Chernobyl em 1986 “cobriu toda a Europa numa questão de dias,” cobrindo uma área muito maior que a América. Os fluxos de ventos dos jatos carregaram a nuvem para a Califórnia 10 dias depois. Ela se espalhou “através da região norte dos Estados Unidos”.

Fora San Onofre e Diablo Canyon, “inúmeros outros reatores americanos se assentam diretamente ou próximos a falhas tectônicas”. Não obstante, a proposta de Obama de empréstimo de 36 bilhões de dólares para a indústria nuclear garante (mais dinheiro) sua existência ao invés de garantir o fechamento, desativação e o desmantelamento de todas as usinas existentes porque elas são perigosas demais para operar. Um artigo anterior chamou-as de bombas-relógio.

Em consequência, futuros Chernobyls e Fukushimas são inevitáveis. Eles são potencialmente destrutíveis o suficiente para matar milhões, contaminar permanentemente largas áreas e, no pior cenário possível, o planeta inteiro com radiação letal suficiente para destruir a vida.

*Stephen Lendman vive em Chicago e pode ser contatado em lendmanstepehn@sbcglobal.net. Seu blog é o http://sjlendman.blogspot.com. Foto por http://www.flickr.com/photos/vizpix/. Tradução de Cainã Vidor.

Fonte: Revista Fórum

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