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Obama não leu Roosevelt

por Luiz Gonzaga Belluzzo, na CartaCapital

Só se deve ter “medo do próprio medo”, ensinava o presidente do New Deal

Eleito sob a esperança de mudança (chance, change), Barack Obama governa sob o signo do medo e da omissão. Imobilizado diante da fúria conservadora, o presidente dobrou os joelhos e aceitou ignorar o discurso inaugural de Franklin D. Roosevelt, em 1933, que conclamou o povo americano, então atormentado por um desemprego de 23%, a só “ter medo do próprio medo”.

Os medos de Obama o aconselharam a propor soluções de pé quebrado para as questões que afligem a maioria da sociedade americana. Entre tantos problemas, na linha de frente figuram a regulamentação dos mercados financeiros, o tratamento dos 11 milhões de mutuários afogados em dívidas hipotecárias que ultrapassam o valor dos imóveis adquiridos, os métodos violentos utilizados pelos credores para recuperar as casas e, finalmente, a batata quente do déficit fiscal e da dívida pública do governo federal, dos estados e dos municípios.

Em entrevista concedida ao jornal inglês The Independent, o ator Matt Damon disparou contra o presidente: “Acho que ele está completamente submetido a Wall Street. A economia tem problemas enormes. Ainda temos os bancos que são grandes demais para falir. Eles estão ainda maiores e fazendo mais dinheiro do que nunca. Desemprego a 10%? É terrível”.

Damon, vencedor do Oscar de 2011 e ativista liberal, empenhou seu prestígio hollywoodiano na campanha presidencial de Obama. Não foram poucas as personalidades que entraram de corpo e alma no movimento que alçou o senador por Michigan à Presidência dos Estados Unidos da América. Estão quase todos tão decepcionados quanto os devedores desempregados, expulsos de suas casas, e obrigados a dormir, comer e sobreviver nos automóveis que escaparam à sanha recuperadora dos banqueiros.

É ingênuo imaginar que as omissões e recuos de Obama são apenas produto de uma personalidade frágil. A explicação é fácil demais para ser verdadeira. As vacilações do presidente exprimem, na verdade, o enfraquecimento das bases sociais do Partido Democrata. A desindustrialização promovida pela “deslocalização” da grande empresa suscitou não só a destruição em massa dos empregos nas fábricas, como também reduziu as oportunidades de ocupação nos serviços ligados ao dinamismo industrial. Aumentou o número de empregados precários em serviços de baixa remuneração. A queda dos rendimentos dos 90% inferiores da escala de distribuição de renda nos últimos 30 anos – o que inclui o declínio da classe média americana – não é novidade para ninguém. A desorientação do Partido Democrata não é um fenômeno recente. Há que lembrar o papel de Bill Clinton e de seus colaboradores, Lawrence Summers e Thimoty Geithner, na “batalha” pela desregulamentação financeira que culminou, em 1999, com a promulgação da Lei Gramm-Leach-Bliley. A lei abriu as porteiras para as façanhas dos espertalhões e sabidos do mercado financeiro, legitimados pelo esoterismo de modelos pseudocientíficos de precificação de riscos, sob o manto protetor das agências de avaliação da qualidade dos ativos.

A perda de substância programática do Partido Democrata deu azo à crescente agressividade dos conservadores, que, entre outras peripécias, se sentiram encorajados a aumentar os decibéis da gritaria contra os déficits e a dívida pública. Déficits e dívida gerados em grande medida, diga-se, pelo socorro do governo aos financiadores das campanhas eleitorais de muitos congressistas.

Enquanto clama contra os gastos do governo, a bancada republicana, majoritária, enfiou goela abaixo do presidente a manutenção do presente tributário aos ricos, prorrogando o mimo concedido por George W. Bush aos endinheirados. Mas, na sociedade encantada pelos mitos da “utopia realizada” e “da terra das oportunidades”, o aumento indecente da desigualdade e a prática desavergonhada do favorecimento aos ricos e às grandes empresas e bancos explodem na cara dos descarados.

Os movimentos de reação ao tratamento desigual e à supressão de direitos, que começaram com as manifestações dos funcionários públicos de Wisconsin, estão a se disseminar por outros estados. A eles se juntam os protestos dos cidadãos americanos expulsos de suas casas pela truculência dos credores, amparados numa lei de falência que os favorece. Multiplicam-se os grupos dispostos a defender os prejudicados, o que ensejou uma proclamação de promotores (Attorneys Generals) que exigem condições mais equânimes na negociação entre credores e devedores.

O cineasta Michael Moore arengou no dia 5 de março para os revoltosos de Wisconsin: “Os Estados Unidos não estão quebrados. O país- está inundado de dinheiro. O problema é que a grana não está no bolso de vocês. Ela foi transferida, no maior assalto da história, dos bolsos dos trabalhadores e consumidores para os bancos e para os portfólios dos super-ricos. Hoje, apenas 400 americanos possuem mais riqueza do que a soma do que é possuído por metade da população”. Strike!

PS do Viomundo: O professor cometeu um pequeno engano. Obama é de Illinois, não de Michigan, mas é tudo ali pertinho.

Paul Krugman diz que os Estados Unidos estão produzindo outro Inside Job. Leia aqui

Fonte: Viomundo / Carta Capital

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Paul Krugman: Outro Inside Job

Another Inside Job

By PAUL KRUGMAN, no New York Times

Published: March 13, 2011

Contem-me entre aqueles que estão felizes em ver o documentário “Inside Job” ganhar um Oscar. O filme nos lembrou que a crise financeira de 2008, cujos efeitos ainda estão contaminando as vidas de milhões de americanos, não apenas aconteceu — se tornou possível pelo mau comportamento de banqueiros, reguladores e, sim, economistas.

O que o filme não apontou, no entanto, é que a crise gerou uma série completamente nova de abusos, muitos dos quais tão ilegais quanto imorais. E figuras políticas importantes estão, finalmente, mostrando seu ultraje. Infelizmente, este ultraje é dirigido não contra os abusos dos bancos, mas contra aqueles que estão tentando cobrar os bancos pelos abusos.

O ponto imediato de conflito é um acordo proposto entre os procuradores-gerais estaduais e a indústria dos financiamentos imobiliários. Aquele acordo é “extorsão”, diz o senador Richard Shelby do Alabama. O dinheiro que os bancos seriam forçados a separar para o refinanciamento das hipotecas seria “extorquido”, declara o The Wall Street Journal. E os próprios banqueiros dizem que qualquer ação contra eles colocaria a recuperação econômica em risco.

O que vai na direção de confirmar que os ricos são diferentes de você e de mim: quando eles violam a lei, são os promotores de Justiça que acabam em julgamento.

Para ter uma ideia sobre do que estamos falando, olhe a denúncia feita pelo procurador-geral de Nevada contra o Bank of America. A denúncia acusa o banco de atrair famílias para seu programa de refinanciamento [de hipotecas] — supostamente para ajudá-las a manter suas casas — sob falsas promessas; de dar informações falsas sobre as condições do programa (por exemplo, ao dizer às famílias que elas deveriam parar de pagar as prestações antes do refinanciamento); de segurar as famílias com promessas de ação, para em seguida “mandar notícias de despejo, marcar a data da venda das casas e mesmo vender casas de pessoas que esperavam pelo refinanciamento”; e, em geral, de explorar o programa com o objetivo de enriquecer às custas das famílias.

O resultado final, de acordo com a denúncia, é que “muitos consumidores de Nevada continuaram a pagar as prestações de hipotecas com as quais não podiam arcar, arruinando suas poupanças, seus fundos de aposentadoria ou a reserva que cuidaria da educação dos filhos. Adicionalmente, devido às garantias enganosas do Bank of America, os consumidores perderam oportunidades de venda ou outras chances de mitigar suas perdas. E esperaram ansiosamente, mês após mês, ligando para o Bank of America e submetendo documentos várias vezes, sem saber se e quando perderiam suas casas”.

Ainda assim, essas coisas só aconteceram para os “losers” que não conseguiram pagar as prestações da hipoteca, certo? Errado. Recentemente, Dana Milbank, colunista do Washington Post, escreveu sobre sua experiência: um refinanciamento rotineiro com o Citibank se tornou um pesadelo, com oferta de taxas [de juros] enganosas, cobrança imprópria e contas bancárias congeladas. E todas os indícios sugerem que a experiência do sr. Milbank não foi incomum.

Notem, aliás, que não estamos falando das práticas de operadores improvisados; estamos falando de duas das três maiores companhias financeiras, com cerca de 2 trilhões de dólares cada em bens. Ainda assim, políticos gostariam que você acreditasse que qualquer tentativa de fazer com que estes gigantes façam uma modesta restituição é “extorsão”. A única questão real é se o acordo proposto deixa os bancos escaparem com punição muito leve.

E quanto ao argumento de que fazer demandas ao bancos colocaria em risco a recuperação econômica? Há muito a ser dito sobre este argumento, mas nada de bom. Mas deixem-me enfatizar dois pontos.

Primeiro, o acordo proposto apenas prevê que sejam aprovados refinanciamentos que produzam “valor atual” maior que o que resultaria do despejo e leilão [dos imóveis] — ou seja, que resultem em acordo que seja do interesse tanto dos donos de imóveis quanto dos bancos. A verdade ultrajante é que em muitos casos os bancos estão bloqueando acordo mutuamente benéficos, para que possam continuar extraindo taxas [dos compradores]. Como acabar com este assalto pode ser ruim para a economia?

Segundo, o grande obstáculo para a recuperação não é a condição financeira dos grandes bancos, que foram salvos uma vez e estão agora lucrando com a percepção ampla de que serão salvos novamente se alguma coisa der errado. O grande obstáculo, em vez disso, é a grande dívida dos domicílios combinada com a paralisia do mercado imobiliário. Forçar os bancos a acabar com as dívidas de hipotecas — em vez de amarrar as famílias para extrair delas mais alguns dólares — ajudaria, não prejudicaria a economia.

Nos dias e semanas que vem aí, veremos políticos pró-banqueiros denunciar o acordo proposto, alegando que estão apenas defendendo o cumprimento das leis. Mas o que eles estão defendendo na verdade é exatamente o oposto — um sistema no qual apenas os pequenos devem obedecer a lei, enquanto os ricos, especialmente os banqueiros, podem enganar e fraudar sem consequências.

PS do Viomundo: Para o Krugman, sempre cauteloso, escrever isso, é sinal de que as coisas ainda vão ferver nos Estados Unidos, como identificou muito bem o Michael Moore neste discurso feito em Wisconsin. O ataque dos de cima agora é claramente contra a classe média americana, enquanto Obama, perdido, assiste a tudo, buscando algum tipo de acordo com os republicanos. Moore, sem citar Obama no discurso, se diverte com a falta de espinha dos democratas (aliás, o humor e o sarcasmo tem sido poderosas ferramentas de mobilização por lá).

Fonte: Viomundo

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