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BANQUEIRO CONDENADO DANIEL DANTAS

E ainda insistem em beatificá-lo

Por Sergio Lirio, na Carta Capital

E ainda insistem em beatificá-lo

Trechos inéditos do relatório da PF reforçam as provas contra Dantas. Por Sergio Lirio. Foto:Marcos D’Paula/AE


Trechos inéditos do relatório da PF reforçam as provas contra Dantas

Inspirado no trabalho de Julian Assange, mas sem nenhum vínculo com a ONG comandada pelo australiano, um site anônimo autodenominado WikiLeaks Brasil publicou, na quinta-feira 3, partes inéditas do relatório final da Operação Satiagraha, que levou à condenação do banqueiro Daniel Dantas a dez anos de prisão por tentativa de suborno. Os documentos são verdadeiros, apurou CartaCapital, e fazem parte do memorial encaminhado ao juiz Fausto Martin De Sanctis em 23 de junho de 2008 e assinado pela delegada Karina Murakami, atualmente licenciada da Polícia Federal.

Os trechos inéditos comprovam a maioria das acusações feitas contra Dantas: a intenção de usar a mídia para destruir reputações de desafetos, a contratação do espião israelense Avner Shemesh, sempre negada pelo Opportunity, para bisbilhotar a vida alheia, evidências de que os vultosos honorários pagos a escritórios de advocacia serviam, na verdade, para ocultar repasses a terceiros (a PF acredita tratar-se de pagamentos de propina), e novas provas do cerco a integrantes do governo e, principalmente, à então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, para que a fusão entre a Brasil Telecom e a Oi fosse concretizada, como acabaria sendo. A maior parte do relatório baseia-se em ligações telefônicas e e-mails interceptados com autorização judicial.

Um dos alvos do grupo de Dantas era o juiz Ari Pargendler, presidente do Superior Tribunal de Justiça, onde repousam inúmeros processos de interesse do Opportunity. Em e-mails de fevereiro de 2008, Cristina Caetano, funcionária do banco, e o advogado Alberto Pavie discutem o momento de se iniciar o que eles mesmos chamam de “campanha difamatória” contra o magistrado.

Em 18 de fevereiro, escreve o advogado:

“Cristina,

Sobre o Pargendler não há data (…)

Sobre o dossiê Veja é claro que posso fazer (foi esse seu pedido expreso ([sic]).

Mas, sinceramente, não te parece que os criminalistas VÃO FECHAR A CARA PARA MIM???

Não seria melhor eles fazerem esse memorial e nos opinarmos.

Abç

Pavie

Minutos depois, responde a funcionária:

“Pavie,

Obrigada. Outro ponto: retomamos a conversa com o Moreira Alves? Nosso prazo para entrar com a campanha difamatória é no começo de março e se não formos fazer com ele, temos que achar outra pessoa”.

Não há registro, à época, de nenhuma acusação contra Pargendler publicada na revista Veja. Em outubro de 2010, o presidente do STJ virou notícia após um estagiário, que afirmou ter sido demitido sem motivo e de forma constrangedora, ingressar com um processo por assédio moral contra o ministro da corte.

Conhecido por pagar polpudos vencimentos a escritórios de advocacia, principalmente quando o dinheiro não é seu – uma auditoria na Brasil Telecom realizada após o afastamento do Opportunity do comando da operadora descobriu honorários anuais que variavam de 2 milhões a 20 milhões de reais sem a devida comprovação dos serviços prestados –, Dantas é atendido pelas maiores bancas do País. É possível que boa parte, a exemplo do senhor Pavie, preste-se a serviços, digamos, heterodoxos – e isso tem um preço fora da tabela, imagina-se. Mas o relatório da delegada Murakami deixa entrever que os pagamentos tinham outro destino. Diálogos entre Norberto Tomaz e Humberto Braz, o assecla de DD que tentou subornar agentes federais, mostram que o advogado Wilson Mirza servia de “laranja” na intermediação de pagamentos a terceiros. Mirza é um dos mais fiéis causídicos a serviço do Opportunity, a ponto de deixar um talonário de notas fiscais de seu escritório nas mãos de funcionários do banco.

Alguns trechos do diálogo:

Norberto: Agora tá melhor. Olha só: tem que pagar aqueles 350, que também vai ser com o Mirza. E… a Verônica colocou aqui 27,5, porque parece que são várias pessoas físicas.

Humberto: …O que é o seguinte: ele recebe, e paga a pessoa. A pessoa tem que ficar com 350 líquido.

Mais adiante:

Humberto: É… Como esse ele tem… Ele tem que fazer um pagamento… pra ficar… Ele tem que fazer um pagamento para um sub contratado (sic)…

Norberto: Olha só… E se eu fizer aqui… Ele me deu um talão de notas dele. E se eu fizer o talão aqui… Se eu fizer a nota… Pagar pelo que tá aqui, e depois se tiver algum acerto, a gente acerta em outra nota.

O trabalho de investigação da Satiagraha comprovou, mais uma vez, as relações do espião israelense Avner Shemesh com o Grupo Opportunity. Em 2004, na esteira da Operação Chacal, que investigou a contratação da Kroll por Dantas para espionar integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso e do futuro governo Lula, os federais fizeram busca e apreensão na casa de Shemesh em São Paulo. A PF descobrira que o israelense fazia um trabalho paralelo de espionagem ao da Kroll. A polícia encontrou durante a batida dossiês de desafetos do banqueiro, entres eles fotos e relatos sobre as atividades de parentes do jornalista Paulo Henrique Amorim. Shemesh e o Opportunity sempre negaram suas relações, apesar de todas as evidências. Agora, há novas, ainda mais incontestáveis. Em um diálogo interceptado pela polícia, a advogada Daniele Silbergleid e um funcionário do banco de nome Bernardo falam do israelense:

Daniele: Olá

Bernardo: Oi… o cara lá é Abner… da Kroll?

Daniele: Avner…

Bernardo: Tá bom… obrigado.

Em um e-mail de 6 de junho, Cristina Caetano pergunta a Camila Arruda, também do Opportunity, sobre um encontro com o espião:

Camila,

esta confirmado o Avner na terça?

beijos

Trechos do relatório reforçam ainda a atuação do petista Luiz Eduardo Greenhalgh- no lobby a favor da fusão da Brasil Telecom e da Oi. Ex-deputado federal e mais um das dezenas de advogados a serviço de Dantas, Greenhalgh afirmou considerar o orelhudo um “cara legal”. A frase foi dita mesmo depois de o banqueiro ter entregado à revista Veja, às vésperas das eleições de 2006, um dossiê com contas falsas do então presidente Lula no exterior. Em resumo: o ex-deputado admira o sujeito que tentou provocar o impeachment de um presidente que o partido dele, o PT, levou 20 anos para eleger. É um típico caso de firmeza ideológica, lealdade e compromisso partidário.

Greenhalgh, codinomes Gomes e LEG, atuou com diligência ao lado de outro personagem próximo aos barões petistas, Guilherme Sodré. Ora aflitos, ora otimistas, eles assediam integrantes do governo na tentativa de agilizar a fusão entre a Brasil Telecom e a Oi, concretizada no fim de 2008. Há muitas reclamações a respeito do comportamento de Dilma Rousseff, chamada de “Margaret Thatcher” pelo grupo, em referência à dura ex-premier do Reino Unido. A então ministra, tudo indica, tinha restrições ao negócio e não gostava das abordagens. “O governo já se meteu demais nesse assunto. Esse assunto é para morrer mesmo. Com a turma do Rio tem sabotagem, tem manipulação de imprensa”, teria dito a hoje presidenta, segundo relatos de Greenhalgh a Humberto Braz. Não foi a única vez que Dilma rechaçou os contatos da turma.

Parênteses: Greenhalgh não agia só em Brasília. Uma de suas missões era tentar convencer a então governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, a aliviar a fiscalização das fazendas de gado de Dantas no estado. Carepa, com altivez e sem meias-palavras, mandou o colega petista passear.

A documentação inédita comprova mais uma vez a correção da cobertura de CartaCapital do episódio. Mas há os ingênuos, que devem ser bem poucos. E há os que, por alguns trocados, trabalham pela beatificação do orelhudo.

Fonte: Carta Capital

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