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Heloisa Villela: Obama entrega os pontos para a direita histérica

por Heloisa Villela, em Washington


O que Obama não entendeu ainda é que ele se apaixonou por um modelo falido. Obama, o garoto propaganda do slogan da mudança, tem, no fundo, no fundinho, uma tremenda admiração por Ronald Reagan (enquanto ainda era candidato, em 2007 e 2008, Obama disse admirar o corte de impostos do Reagan e a capacidade dele de virar o jogo). Isso mesmo, o ator que virou presidente, passou oito anos na Casa Branca e implantou, no país, uma ideologia perniciosa que até hoje domina a economia americana.

A idéia é aparentemente simples e conhecida no Brasil como: “vamos aumentar o bolo prá depois dividir”. Aqui nos Estados Unidos, a história é um pouco diferente: vamos enriquecer ainda mais os milionários porque assim eles acabam deixando transbordar algo para os pobres. Essa é a argumentação dos republicanos, desde os anos Reagan e repetida agora, para estender o corte de impostos do governo Bush.

Obama, em princípio (na campanha e em setembro passado ele disse isso), queria limitar essa proposta. Manter o corte de impostos apenas para quem ganha menos de duzentos e cinquenta mil dólares por ano. Mas os republicanos ameaçaram bater o pé e ele recuou. Não deu um soco na mesa, um grito, não despachou nenhum assessor para fazer política no Congresso, não deu nem um telefonema para os adversários políticos rejeitando a proposta. Simplesmente, chamou os republicanos na Casa Branca (primeiro eles deram bolo dizendo que não tinham tempo na data sugerida, depois apareceram!) e fez um acordo: em troca de manter o corte de impostos para todo mundo, obteve dos republicanos a promessa de que eles vão estender o seguro desemprego já que um número cada vez maior de pessoas depende desse cheque prá comer. Não digo nem prá pagar o aluguel porque não dá.

Agora, Obama se vê em uma situação ridícula: fechou acordo com os Republicanos, mas não tem o apoio dos Democratas para o conchavo. E mandou o vice, Joe Biden, ao Congresso para tentar acalmar os correligionários e convencê-los de que esse acordo é o melhor resultado possível no momento. Mesmo discurso de quando entregou os pontos na reforma da saúde e descartou, de cara, a opção pública que seria a única maneira de forçar uma competição entre os seguros, puxando os preços para baixo.

Difícil é entender como Obama se fez refém do discurso histérico e radical de Sarah Palin e seus aliados do Tea Party. Eles são uma minoria barulhenta. Mas o Presidente-da-não-mudança Obama perdeu a voz. Quem domina o discurso são eles. Com a reforma da saúde, os radicais de direita repetiram tantas vezes o refrão de que a reforma do Obama era socialista que acabaram ganhando espaço. Agora, conseguiram distorcer tão completamente… espera aí! Não foi a direita que distorceu, foi o Obama que falou fino.

Acho simples e fácil explicar ao eleitorado que dar mais dinheiro aos ricos, e aumentar o déficit do país, não ajuda ninguém. Que o importante é dar um alívio para a classe média e para os mais pobres. Garantir empregos, comida e moradia. Deixar claro que, depois de mais de três décadas apostando no aumento do bolo, a maioria está passando fome. Qualquer trabalhador ou desempregado entende isso.

Para quem ainda tem dúvida, bastava pedir ao economista Robert Reich (ex-secretário do trabalho no governo Clinton, não exatamente um “esquerdista”) para explicar. Dados da última coluna dele no Huffington Post:

“Por três década, uma parcela cada vez maior dos benefícios do crescimento econômico foram parar nas mãos dos 1% mais ricos. Há trinta anos, eles tinham 9% da renda total. Agora, têm quase um quarto (25%). Enquanto isso, a renda média do trabalhador americano praticamente não mudou. A grande classe média já não tem mais o poder de compra para manter a economia girando. (Os ricos gastam uma porcentagem bem menor do que ganham). A crise foi evitada, antes, apenas porque as famílias de classe média encontraram meios de gastar mais do que ganhavam – mulheres foram trabalhar, a jornada de trabalho aumentou, e finalmente, as famílias usaram a casa própria como colateral para tomar dinheiro emprestado. Mas quando a bolha do mercado imobiliário explodiu, o jogo terminou”.

Qualquer trabalhador, empregado ou desempregado, pai de família, que tem uma casa, ou perdeu o teto durante a crise, entende essa história direitinho. Bastava o Presidente repetir a ladainha. Por que será que ele entregou os pontos tão rápido?Não sei, mas na ala mais progressista do partido democrata já começa o burburinho… A idéia de que talvez seja melhor escolher um candidato para concorrer com Obama pela indicação do partido à presidência em 2012. Seria uma humilhação porque o presidente em exercício é sempre o candidato para um segundo mandato. Até colunistas afro-americanos já lamentam, mas dizem: talvez seja melhor ter um branco mais combativo na Casa Branca do que um afro-americano tão preocupado em agradar a todos.

Fonte: Viomundo

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