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A Violência e a Manipulação da Mídia: Uma ‘Guerra’ Carioca

charge do Latuff

por Allan Mahet

Muito providencial um dos itens das 10 Estratégias de Manipulação através da mídia por Noam Chomsky. Criar problemas e depois oferecer soluções

Esse método também é denominado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam que sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

De modo algum pretendo aqui expor que as ações violentas dos últimos dias tratam-se apenas de ampla manipulação midiática. Elas são reais, graves e inaceitáveis, mas não podemos deixar que os fatos ceguem nossa criticidade.

O problema reside nas falácias do discurso governamental e reproduzidas por toda a grande mídia, que são acatadas sem qualquer parcimônia pela população bestificada diante dos carros e ônibus incendiados diariamente e maravilhada com o avanço de tanques e caveirões. População esta que há pouco pode conferir nos cinemas uma verdade sem muitas maquiagem sobre a questão da violência no Rio.

A primeira mentira é a de querer nos fazer crer na total organização e coordenação das ações criminosas. Existem milhares de escutas telefônicas, algumas centenas de X-9 e profissionais infiltrados no tráfico que conseguiriam identificar tamanha mobilização. Se considerarmos essa possibilidade como viável, das duas uma. Ou o governo realmente mente ou nossa inteligência policial não é tão inteligente assim. E para mim é inadmissível uma inteligência policial menos inteligente do que eu.

Posteriormente, em todo o discurso faz-se uma defesa da ideia de desarticulação do tráfico de drogas. MENTIRA !! Se fosse o Padre Quevedo iria falar: “é charlatanisse, isso non ecxiste”. É impossível acabar com o tráfico. Existindo consumidores existirá demanda, existindo demanda haverá venda. Havendo venda… é trafico. Existindo o playboy do condomínio de luxo que faz passeata pela paz abraçando a Lagoa, o Leblon, o Cristo Redentor, que dá sua cheiradinha dominical, existirá tráfico. Existindo o juiz que aprova o habeas corpus dos realmente grandes traficantes, existindo a policia corrupta arregada do tráfico, existindo a criminalização da pobreza, existindo a vista grossa de nossa ‘polícia de fronteiras’, existindo o mega empresário que negocia com os narcotraficantes internacionais e existindo vossas excelências políticos fichas podres, existirá o tráfico de drogas. Chega a ser indecente as manchetes intitulando as ações à Vila Cruzeiro, como o Dia D da guerra ao tráfico (O Globo de 26/11/2010) e chamá-las de ataque decisivo. O tráfico, como dito, continuará existindo, invadindo a Vila Cruzeiro, o Alemão ou a Rocinha. Esta simplicidade que a mídia tentar nos empurrar é inverídica.

A emissoras de rádio e televisão durante toda essa semana perpetuaram o clima de medo reprisando imagens e mais imagens de ônibus e carros pegando fogo. Nos inundaram com mapas, videos, fotos e infográficos detalhando cada movimento dos bandidos, aparavorando-nos. Mesmo tendo dito que essas ações não são uma farsa, paremos para refletir… as únicas mortes que ocorreram até agora foram provocadas por quem? A polícia. Então, será que o clima de pavor é tão justificável assim? Claro que não sou louco de falar que aqueles que moram próximos a essas áreas devem passear tranquilamente como se nada estivesse acontecendo ou que não devemos nos manter atentos nos coletivos ou carros. Mas acredito ser injustificável por exemplo moradores da Zona Sul demonstrarem pânico igual ao maior número de moradores da Penha ou de algumas áreas da Zona Norte carioca. Nesta área nobre da cidade foram ‘apenas’ 2 incidentes sem vítimas dos cerca de 100 em todo o estado, ou seja, 2% do total. A mídia, contraditoriamente, diz que devemos manter a calma mas nos inflama à esquizofrenia e à fobia.

Também me chama muita atenção o fato de as ações policiais se concentrarem em favelas nas quais o Comando Vermelho tem o domínio em detrimento às demais comandadas por outras facções ou pelas milícias com as quais (ambas) o poder público tem adotado uma clara permissividade nos últimos tempos. Será acaso as UPPs serem instaladas em 90% dos casos em regiões antes controladas por essa mesma facção?

A massificação e obsessividade pela violência acaba assim por nos contaminar e chega ao nível máximo quando, ao vivo, foram mostradas imagens de traficantes fugindo da Vila Cruzeiro em direção Alemão. O mais leve dos discursos que pude ouvir foi o de jogar várias bombas e exterminá-los. É obvio que no intimo de todos essa é uma vontade latente. Anos e mais anos sofrendo e convivendo com tiroteios, arrastões, roubos e etc, esse seria um desejo mais que aceitável. Porém chamo mais uma vez à racionalidade. O Estado não pode ser regido por emoção. Como em uma frase de Fraga em ‘Tropa de Elite 2′, não podemos permitir que o Estado seja tão ou mais violento quanto os que são considerados violentos. Para os bandidos não existe regra mas para o Estado sim. A concordância com tal ato poderia nos custar caro mais tarde. Não é papo de ‘direitos humanos’, mas a aprovação de métodos semelhantes podem nos levar a perda de direitos nossos, cidadãos de bem, futuramente. Sob o signo do medo no Governo Bush, vários direitos individuais da população foram violados, sob argumentos, muitas vezes fabricados, atropelaram preceitos básicos e conseguiram apoio quase irrestrito para bombardear uma país que não possuia um artefato sequer de destruição em massa. Como em parte da citação de Noam, que iniciou este post, são em momentos assim que o povo acaba por demandar leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Mas nada me deixa mas estupefato do que o coro em que uníssono clama pela pena de morte sumária e ao vivo, mas que demonstra uma complacência franciscana com relação a políticos corruptos, latifundiários grileiros e empresários inescrupulosos. Uma verba desviada da saúde ou da previdência pode matar mais em um mês do que todos os bandidos do Rio de Janeiro em um ano. Um latifundiário condena a morte milhares de famílias assim como o empresário espolia outros milhares de cidadãos. Mas à estes impera um desejo de justiça legal. Cadeia aos corruptos que matam milhares ao dia e aos financiadores da violência e morte ao ‘pé de chinelo’ sem camisa que ateia fogo aos ônibus.

E mais uma vez recorrendo ao didático ‘Tropa de Elite 2′ cabe-nos a pergunta: porque caveirão não entra em condomínio de luxo? Por que ‘policia’ não dá tapa na cara de político? Por que as investidas são sempre em áreas pobres de favela? Por que existe favela? As respostas cabem a cada um de nós procurar.

Uma análise bem interessante proposta por minha esposa, a também assistente social, Cristiane Maciel Mahet, chega a ser mais instigante. Diante da popularidade do filme de José Padilha e a discussão que o mesmo trouxe é muito providencial tudo que está ocorrendo justamente agora. Como em um passe de mágica toda a criticidade trazida pelo filme em relação a atuação do Estado e seus interesses escusos parecem diluídas à pó (sem trocadilhos) na aprovação e contemplação vinda desses mesmos espectadores à mobilização do poder estatal em suas ações de força. Os mesmos que no começo do mês compreendiam a lógica nefasta da violência, hoje aplaudem os soldados de preto, de azul e os camuflados com suas armas em punho marchando em nossas ruas. Parece meio teoria da conspiração, mas diante de nossa realidade fantástica, nada é tão impossível assim.

Queria eu estar errado e tudo que escrevi não passar de balela.

Queria eu que com a ‘tomada’ da Vila Cruzeiro e do Alemão, tudo se resolvesse.

Queria eu que as UPPs fossem realmente a presença de um estado de direito nas comunidades pobres.

Queria eu que o problema da violência se resolvesse em uma semana apenas.

Queria eu que a real intenção de toda essa zona fosse a nossa segurança e não a publicidade, os votos e a garantia do poder.

Mas tenho a convicção de que não é!

Fonte: Carta Capital

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2 respostas para

  1. >Allan, fica tranquilo. Eu mesma dei uma de editora e dei umas corrigidinhas, mas o que importa é que o texto tá muito muito bom! =)Grande abraço,Ale

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