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cisternas no semi-árido do Brasil

Uma rede que transforma a educação e o país

Encontro reúne 50 professores finalistas do Concurso Aprender e Ensinar – Tecnologias Sociais, que fazem parte de uma rede que começa a ganhar corpo no Brasil

Por Adriana Delorenzo

“Já te chamaram de louco? Você está no caminho certo.” Foi esse o recado de um dos 50 professores no Encontro de Finalistas do Concurso Aprender e Ensinar – Tecnologias Sociais. Durante dois dias, todos estiveram em Brasília, onde o relato das experiências revelou o esforço de cada um para colocar em prática alternativas simples, mas capazes de transformar a realidade local. No encerramento, os educadores avaliavam que saíam da capital federal e voltavam para seus municípios fortalecidos e com a esperança de que outro mundo é possível. E, claro, todos torcendo para serem premiados pelo concurso que levará cinco professores a Dakar, no Senegal, para participar do Fórum Social Mundial de 2011.

“Ser um dos 50 já é motivo de honra para cada participante”, disse Jorge Streit, presidente da Fundação Banco do Brasil, que junto com a revista Fórum promove o concurso pela segunda vez. “A avaliação é muito positiva nessas duas edições. O tema tecnologia social começa a entrar nas escolas e tem um potencial muito grande”, acredita. O crescimento no número de inscrições do 1º Concurso em 2008 para o de 2010 mostra que o conceito de tecnologia social na educação está se fortalecendo e se afirmando como uma alternativa positiva. No primeiro, foram 2600 inscrições e, neste ano, 3075.

Mas, apesar de não ser um conceito novo, há quem esteja colocando a tecnologia social em prática, mas sem estar ciente disso. “Entrei no concurso sem saber o que era”, contou Doreni Tasso, de Campo Grande (MS), uma das ganhadoras do 1º Concurso, que participou do Encontro. “Recebi um e-mail que me mandaram porque acharam que tinha a ver com o meu trabalho.” E tinha mesmo. Doreni realiza um trabalho com educação inclusiva, ministrando aulas de arte para crianças surdas, um projeto que envolve as mães dos alunos.

De acordo com Streit, as iniciativas de tecnologia social interagem com a comunidade, ajudam a resolver seus problemas e podem ser reaplicáveis em outras localidades. Ricardo Neder, coordenador do Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina e professor da UnB, resumiu os três pontos-chave da tecnologia social: a interação entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais, a autogestão e a inovação (cultura tecnológica).

A tecnologia social se diferencia da convencional, já que esta “não tem conseguido resolver, podendo mesmo agravar os problemas sociais e ambientais”. É o que explica o artigo de Renato Dagnino, Flávio Cruvinel Brandão e Henrique Tahan Novaes, publicado no livro Tecnologia Social – Uma Estratégia para o Desenvolvimento, distribuído aos finalistas, já que o encontro buscou ser também um momento de formação. “A tecnologia convencional, aquela que a empresa privada desenvolve e utiliza, não é adequada à realidade dos países periféricos”, diz outro trecho do artigo.

Com o objetivo de fortalecer essa alternativa, Neder defende o intercâmbio entre universidades e a escola. “Em vez de adotar uma solução pré-fabricada, pronta, podemos inventar.” Para ele, o conhecimento gerado pela comunidade científica não deve se resumir ao sentido empresarial com a função de gerar patentes. O objetivo da TS é justamente o contrário: é fruto de um conhecimento criado pelos próprios atores envolvidos para resolver problemas que eles enfrentam.

Soluções na escola

“As crianças pediam para voltar para casa, pois estavam com dor de barriga, enxaqueca”, lembra a professora Ednalva Oliveira. Mas voltar para casa não era tão simples assim. A escola onde Ednalva é professora fica em uma zona rural de Arapiraca, no interior de Alagoas, a cerca de 125 km de Maceió. Lá a água chegava de caminhão-pipa e não havia uma ponte para facilitar o trajeto. Foi quando surgiu a ideia do projeto “Saúde que vem da Terra – Farmácia Viva”. As crianças tinham que pesquisar com pais, avôs e familiares quais plantas eram usadas para determinado sintoma. “Resgatamos a cultura milenar das plantas medicinais a partir do conhecimento popular das famílias”, diz Ednalva.

O projeto envolveu a comunidade, começou com uma horta e foi crescendo: hoje são produzidos xarope, sabonete, pomada. “As crianças da escola não têm mais piolho.” Ednalva lembra ainda que, com o projeto, as crianças aprendem ciências, história, matemática e outras disciplinas. Ednalva foi uma das vencedoras da primeira edição do concurso. Depois do prêmio, a experiência da Farmácia Viva se disseminou, foi levada para mais de 30 escolas rurais e urbanas da região e chegou ao SUS.

Outra vencedora da primeira edição do concurso, Rozenilda de Souza, de Boa Vista (RR), conta como uma alternativa pode dar sentido ao aprendizado. Ela iniciou seu projeto “Arte e Reciclagem – Parceria que dá certo”, na escola na periferia da cidade, onde era professora, para promover a educação ambiental. Os alunos começaram a produzir artesanato a partir do lixo. Segundo ela, a escola recebia alunos em conflito com a lei, que eram marginalizados pela comunidade e passaram a ser vistos com outros olhos. “Tivemos grandes resultados, o aluno se conhecer como participante de um projeto vencedor é de grande valia”, disse.

Para a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda, essas experiências fazem diferença na sala de aula e realmente transformam a educação. “É muito difícil ganhar a atenção dos adolescentes, essas técnicas fazem com que realmente aprendam”, disse ela. De acordo com Pilar, hoje vivemos um desafio de encontrar um formato contemporâneo para a escola, que seria “analógica, enquanto os alunos são digitais”. No entanto, ela destacou que antes de mais nada é preciso garantir o direito de toda criança ir à escola. “Há 650 mil crianças ainda fora da escola. Trata-se de um direito e o poder público tem que garanti-lo. Não podemos começar nenhum debate sobre educação sem sair desse patamar.” Apesar do número ainda alto, a secretária avalia que houve avanços nas últimas décadas em relação ao acesso a esse direito.

Ladislau Dowbor, economista e professor da PUC/SP, vai mais longe. No encontro ele afirmou que “há uma rede construindo outro planeta”. Os professores que se inscreveram no Concurso Aprender e Ensinar fazem parte dela. “Temos que espalhar essas coisas boas que estão acontecendo, são sementes para outras pessoas”, defende. Disseminar essas alternativas que se diferenciam das tecnologias de uso intensivo de capital, que muitas vezes agravam problemas sociais e ambientais, na opinião de Dowbor, têm um sentido vital. “A água doce já é chamada de ouro azul. Hoje, 1,4 milhão de crianças morrem por não ter água potável. A vida nos mares, a principal base de vida do planeta, está sendo liquidada com grande rapidez”, alerta. Para o professor, tem ocorrido um movimento crescente no país, pela base, pois, pela primeira vez “estão chegando recursos no andar de baixo”. “Há uma outra lógica de organização, de mobilização comunitária na base da sociedade.”

Para expandir a rede

Investir em iniciativas em que a comunidade seja protagonista na caminhada para um desenvolvimento integral tem sido o trabalho da Fundação Banco do Brasil. “Nosso mérito é reconhecer o mérito dos outros”, define Jefferson de Oliveira, gerente de Parcerias, Articulações e Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil. A FBB, segundo ele, por volta do ano 2000, elegeu a tecnologia social como visão estratégica e a partir daí passou a debater o tema e a financiar milhares de projetos. Somente entre 2003 e 2008, a FBB investiu cerca de R$440 milhões em 5.581 projetos de educação e geração de trabalho e renda em comunidades de todo o país. A fundação também é uma das mantenedoras da Rede de Tecnologia Social (RTS), que promove a difusão da TS e, em seu site, disponibiliza um espaço aberto de conhecimento, no qual é possível cadastrar experiências desenvolvidas.

http://www.rts.org.br/

Fonte: Revista Fórum

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