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Em defesa da dignidade na hora da morte

por Leonardo Sakamoto

Trago novamente esta discussão ao blog para que uma pessoa leia sobre isso (peço desculpas a quem já acompanhou esse debate antes). Espero que a reflexão lhe seja útil ou, ao menos, agradável neste momento difícil. Como ela, imagino que outros leitores do Uol também possam estar na mesma situação. Para todos, desejo, com sinceridade, um bom domingo.

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1942. Sol. Contrariando a previsão do tempo, aquele seria mais um dia seguido de calor na capital do país. Casais de namorados andavam despreocupados pela orla de Copacabana e, no Catete, Getúlio posicionava as forças tupiniquins na grande guerra. Enquanto isso, além da linha do bonde, em uma casinha humilde no subúrbio, dava-se à luz uma menina. Pele negra, olhos puxados, quase três quilos e meio, Maria.

Têm sido frequentes os pedidos à Justiça na Europa e Estados Unidos para que doentes terminais com dores insuportáveis cometam eutanásia. Querem ter o direito de partir lúcidos e ao lado dos familiares, mas muitos apelos vêm sendo solenemente ignorados. Acabam cometendo suicídio sozinhos, outros ajudados na clandestinidade. Na verdade, pouco importa, porque em ambos os casos significa que o Estado lhe deu as costas.

Exemplos como esses fazem sentir o quão mesquinha é a humanidade. Afinal, isso não é uma discussão sobre a morte, mas sobre a vida e sua dignidade, ou seja, de como as pessoas querem terminar os seus dias.

Maria, como tantas outras Marias, cresceu em um lugar pobre. E como tantas outras Marias ficou órfã muito cedo. Seu pai morreu quando ela ainda não havia desmamado e a mãe seguiu o marido não muito tempo depois. Caçula de quatro irmãos, foi ser criada pela tia. Aos 14, deu o seu grito de independência. Apesar de inteligente, a monotonia da escola não era para ela. Seria considerada apenas mais uma criança problemática pela psicologia moderna. Deixou sua casa e saiu pelo mundo em busca da vida.

O Estado deve proteger a vida. Mas que tipo de vida? Aquela sem qualidade nenhuma, de dor e sofrimento, apenas para cumprir uma exigência legal, filosófica ou religiosa?

Histórias de médicos que cometem eutanásia (para além da ortotanásia, que é deixar a vida e a morte seguirem seu curso e se encontrarem) diariamente nas UTIs não são raridade no Brasil. Pessoas com sensibilidade para entender quando o seu semelhante quer dar cabo de sua existência devido a um sofrimento extremo e não tratável. Normalmente, aumentam a dose de medicação até o ponto de falência do organismo. Mas, da mesma forma, há os que atendem os apelos de familiares que não querem deixar seus entes queridos partirem e os mantém em uma não-vida por meses. Ou aqueles que acreditam que podem controlar a vida alheia sob o nome de Deus.

De acordo com o historiador Phillippe Ariès, no seu livro O homem diante da morte, a partir do século 12, entre os ricos, os letrados e os poderosos cresceu a idéia de que cada um possui uma biografia pessoal. No início, essas biografias era constituídas apenas dos atos bons e maus de cada um, unidos em torno de um só julgamento: o de ser. Com o passar do tempo, a biografia foi se constituindo também de coisas, animais, posses, pessoas apaixonadamente amadas e de uma reputação: a de possuir.

Ao final da Idade Média, a consciência de si mesmo e da sua biografia confundiu-se com o amor pela vida. A morte começou a ser encarada não mais como a conclusão “do ser”, mas uma separação “do possuir”: morrer é deixar casas, plantações, cavalos e jardins. Em plena saúde, a alegria de aproveitar “as coisas” ficou alterada pela visão de que um dia o fim chegaria. O contexto histórico também não ajudou muito: no continente europeu, a peste negra exterminou boa parte da população. Tudo isso fez com que a morte deixasse de ser balanço de contas ou sono (para os que acreditavam em vida após a morte) para se tornar carniça e podridão. Não mais o fim da vida, mas morte física, sofrimento, decomposição.

Desvincular a idéia de morte como prejuízo ou frustração, esse é o primeiro passo que deve ser dado para mudar nossa visão diante da eutanásia. Se por um lado o fim da vida pode representar culpa aos que estão indo, significa derrota para os que tentam curar.

Devido ao seu temperamento explosivo, Maria não ficou no seu primeiro emprego por muito tempo. Era desbocada. Quando tinha que dizer algo, não relutava e dizia. Depois tinha que arcar com as conseqüências. Não se tem muito conhecimento sobre sua juventude. O que se sabe vem da boca do povo. As boas línguas dizem que Maria deu sangue e suor para sobreviver. As más, que era boêmia, que dançava, que cantava, que era namoradeira, que bebia muito, que saía sozinha, que contava piadas cabeludas, que juntara os trapos sem passar pelos laços do sagrado matrimônio. Quando questionada sobre o que realmente aconteceu nessa época, Maria ficava em silêncio. E depois de um instante sorria, dizendo: eu era feliz.

A Medicina convencionou chamar de pacientes terminais as pessoas que se encontram no estágio final de moléstias fatais, como é o caso de um câncer avançado ou da Aids. Em muitos hospitais, laboratórios e centros de saúde trava-se uma verdadeira batalha contra essas doenças. No livro Aids e suas Metáforas, a escritora Susan Sontag diz mais: “é uma guerra na qual o inimigo precisa ser derrotado a qualquer custo”. Louvável o empenho dos doutores da ciência. Contudo, o problema é que diversas vezes essa guerra assume um valor muito alto, financiado às custas da dignidade do paciente.

Ninguém quer perder nunca. Muito tempo atrás, ouvi de Caio Rosenthal, um dos mais respeitados infectologistas brasileiros, disse que é necessário que o médico tenha a capacidade de compreender as suas limitações. “Ele é formado para salvar vidas e, quando se depara com uma situação de morte, a encara como uma derrota pessoal. Isto está errado. Quando o paciente está no fim da vida e o médico passa a estendê-la artificialmente, pensa que está em um jogo. Um jogo entre ele e a morte da pessoa. E como inexoravelmente é a morte que ganha nessas condições, ele acaba se julgando um perdedor”.

“A morte é apenas mais uma etapa da vida e como tal deve ser encarada”, me afirmou a psicóloga Ana Maria Barbosa. Aceitá-la como mais uma fase pela qual todos teremos que passar, conviver com a idéia de finitude da própria existência e tirar o máximo proveito disso.

Contudo, como disse o poeta, “pensar que a vida cessa é íngreme”. Saber que há um fim faz o homem evoluir enquanto indivíduo, enquanto sociedade. Leva o homem a se levantar, bater a poeira e ir atrás dos seus objetivos na Terra, uma vez que seu tempo aqui é escasso.

Qual o principal objetivo do homem? Essa pergunta sempre vem à tona quando se chega a esse ponto da discussão. Para que estamos aqui? Sem querer encerrar uma discussão relacionada ao sentido que damos à nossa própria existência, gosto de caminhar na mesma direção daqueles que acreditaram que a razão resida na busca da felicidade. Mas, se é assim, também é grande o número de pessoas que deixam escapar de suas mãos a chance de dar sentido às suas vidas. É comum ouvir frases do tipo: “bem que eu gostaria, mas tenho que deixar para depois”.

Boa parte das pessoas que sofrem de doenças fatais caem em uma angústia profunda e negam veementemente o fim de suas existências. Muitos pacientes não aceitam o fim como etapa do processo e sofrem muito negando a morte. Isto não significa que a notificação da proximidade do seu próprio óbito tenha que ser recebido com júbilo. Mas de onde vem esse sentimento de revolta, essa tristeza?

Há uns 35 anos, Maria conheceu Antônio. Definitivamente não foi amor à primeira vista. Maria era extrovertida, grandona, aloprada. Antônio era baixo, calado, trabalhador. Casaram-se e pouco tempo depois foram tentar a vida em São Paulo. Através da Caixa Econômica Federal financiaram um apartamento de dois quartos lá na Vila Maria. E Maria foi tentar realizar um velho sonho: ter uma criança. Porém, a sorte lhe fez abortar duas vezes antes de descobrir que era estéril. Não desanimou. Adotou José. E gostou tanto que seis anos depois, trouxe Carolina para fazer parte da família.

“Na verdade, não é a morte que está sendo negada e sim tudo o que deixou-se de fazer na vida. Ou seja, a angústia da morte é conseqüência da falta de importância que se deu à vida”, afirma Ana Maria Barbosa. Em sua dissertação de mestrado Viagem ao Vale da Morte – um estudo psicológico das mulheres que, por sofrerem de câncer de mama, tiveram o seio amputado – ela quebra as amarras sobre o tema:

“A questão não é a morte, mas a vida! Desta maneira cabe ao homem dar sentido à sua própria existência. A intensa dificuldade em lidar com o próprio ódio diante do engodo da vida. Talvez seja este o fator que impossibilita a aceitação do fim. Em contrapartida, a melancolia torna o sofrimento interminável. Perdido o objeto [a morte] e desconhecido o que se perdeu nele [a vida], instalado está o vazio, amputada está a fonte de alimento e aconchego.”

José já era homem e Carolina uma garotinha sapeca quando Maria descobriu um carocinho no seu seio direito. Exames mostraram que estava tudo bem, que o tumor era benigno. Seria feita apenas uma pequena cirurgia para extrair o nódulo. Porém, quando abriram, viram um tumor, maligno, dominando todo o seio. Para que a praga não atingisse outro lugar, foi consenso arrancar-lhe a mama. A partir daí, Maria teve que dividir os afazeres domésticos com sessões semanais de rádio e quimioterapia. Devido às doses cavalares de química, o seu pulmão direito foi queimado. Mas ninguém lhe contou. Maria pensava que a dificuldade de respirar fazia parte da debilidade causada pelo tratamento.

O tratamento psicológico que é dado aos chamados pacientes terminais não deveria ter como objetivo a cura ou o prolongamento de seus dias. “A ênfase está na qualidade e na ressignificação da vida. É preciso que não se ouça apenas as máquinas e as sondas. Dar abertura e espaço para o paciente dizer aquilo que tiver necessidade”, é o que ensina Maria Júlia Kovács, professora de psicologia da morte, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Começou a sentir dores na perna. Feito o raio-X, mais um carocinho apareceu. O médico, não se sabe porque, afirmou que aquilo não era câncer mas um machucado qualquer. E nada foi feito. Maria sabia que estava morrendo. E dizia que não podia ir embora enquanto não garantisse o futuro dos filhos. Antônio, apesar de bom homem, tinha pouca ou nenhuma iniciativa. Maria pediu, então, empréstimo e montou uma confecção. O empreendimento não durou muito pois não era muito boa para dar ordens. Fazia mais o tipo: se alguma coisa tem que ser bem feita, faça você mesmo. Vendeu a confecção e alugou um galpão abandonado que reformado virou uma avícola. Apesar do câncer e de um pulmão a menos, fez o negócio prosperar. A ponto de poderem mudar do velho apê para uma casa maior e melhor. A doença e as dificuldades não abalaram o jeito de Maria encarar o mundo. A teimosa continuava feliz.

Um tratamento psicológico que poderia ser receitado para qualquer momento da vida. Dar um significado, viver a vida, ter uma vida digna. Não deixar nenhuma página do livro da vida em branco e, ao virar a folha, ter a certeza de que esta foi única. Se assim for, no momento em que chegar à última, irá encará-la de uma maneira muito melhor. E ao fechá-lo, alguém poderá dizer que o livro valeu a pena. Não será guardado na estante, mas servirá de exemplo aos novos autores. Ora, é a qualidade de um livro medida pelo seu número de páginas ao invés de seu conteúdo?

Naquela noite, Maria foi internada às pressas no hospital. Estava enjoada, dolorida e com falta de ar. Apesar de seu histórico ser grave, não foi à UTI pois o plano de saúde não cobria este tipo de despesa. Ficou em um quarto, sozinha. Dia seguinte, Antônio ligou para saber qual o estado da esposa. “Bem, ela vai indo muito bem”, responderam as enfermeiras de plantão. Mas sentia alguma coisa errada. Insistiu para verificarem como estava Maria. Resmungando, as mulheres de branco acataram o pedido. Na volta, a notícia: “Infelizmente sua esposa faleceu”. Causa mortis: insuficiência respiratória.

A definição de “vida” do livro Ciência e Vida com o qual passei a 3º série do 1º grau é: “processo através do qual os seres nascem, crescem, reproduzem-se, envelhecem e morrem”. Mas a vida, em verdade, é muito mais do que isso. Pelo menos é o que os relatos de milhares de anos de história humana fazem crer. Há algo entre o nascer e o morrer que nos faz únicos. E não é o tempo que permanecemos no planeta e sim a forma como gastamos esse tempo. Maria gastou bem. Por isso, o relato que acaba aqui não tem o objetivo de fazer a cabeça de ninguém. É simplesmente a história de alguém que viveu a vida com dignidade até o fim. Como as coisas deveriam ser.

São Paulo, 30 de janeiro de 1996. Todos os que foram ao seu enterro – diga-se de passagem, não eram poucos – esperavam encontrar uma figura triste, debilitada e comida pelo câncer. Ficaram sem entender. Maria morreu sorrindo.

(*) Maria, que não se chamava Maria, era uma pessoa próxima a mim. Não queria viver para além de sua felicidade. Teve seu desejo atendido.

Fonte: Blog do Sakamoto

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