>::

E se eu não quiser me depilar, algum problema?

por Maíra Kubík Mano

Abri a Folha de S. Paulo só no fim do dia hoje, movida pelo comentário de dois amigos que me impeliram a ler a coluna de Luiz Felipe Pondé no caderno Ilustrada. “É um texto absurdo”, disseram.

Pois bem, lá fui eu, averiguar a denúncia. A princípio, achei que era brincadeira. “Não é possível que ele fosse escrever isso, gente! Com certeza vai publicar outro texto dizendo que se trata apenas de uma provocação para pensarmos o quanto o mundo ainda continua machista, estimulando a reflexão!”

“Acho que não”, responderam os amigos. “Ele realmente acredita nisso.”

Bem, se for sério, o artigo é um desfile tenebroso de acusações e preconceitos. De dizer que a mulher atual é fácil – “nem um ‘jantar’ é preciso pagar para levá-las à cama – até quase chamar de macacas aquelas que não se depilam” – “cuidado ao passar a mão nas pernas delas porque será como mexer nas suas próprias pernas” –, Pondé traça um retrato do que há de mais retrógrado e conservador na sociedade. Critica aquelas que não priorizam a maternidade e conclui que as feministas são um bando de recalcadas que têm medo de mulheres bonitas e arrumadas. Nada mais clichê.

Ontem a ombudsman da Folha, Suzana Singer, produziu um belo texto sobre a necessidade de o jornal ponderar melhor a cobertura eleitoral. Mas, pelo jeito, isso não se resume às matérias de política. Escreverei a ela perguntando o que aconteceu com o bom senso da redação, que permitiu a veiculação de um texto ofensivo e grosseiro como esse.

Publico o artigo abaixo, para que vocês tirem as próprias conclusões:

Restos à janela

Quais seriam os “direitos” em questão da mulher? De ser feia? De disputar o Prestobarba de manhã?

POR LUIZ FELIPE PONDÉ, na #FolhaFede

[aqui o email do indivíduo pra gente mandar email : ponde.folha@uol.com.br ]


“Sou um tanto maníaco por detalhes. Às vezes, me pego pensando em Walter Benjamin, o grande pensador judeu alemão que se suicidou durante a Segunda Guerra Mundial, e entendo sua obsessão pelos detalhes do mundo.

A matéria de que é feita a consciência muitas vezes se encontra nos detalhes, principalmente nos restos do mundo, restos ridículos de um mundo em clara agonia. Hoje vou dar um exemplo de como uma migalha do mundo pode ser representativa do nosso ridículo.
O detalhe ridículo de hoje se refere a um novo movimento de conscientização que nasce. Vejamos.

O que haveria de errado em mulheres que querem atrair os homens e por isso se fazem bonitas? Macacas atraem macacos, aves fêmeas atraem aves machos.

Mas parece haver umas pessoas por aí que acham que legal é ser feia. É, caro leitor, se prepare para a nova onda feminista: mulheres peludas. Para essas neopeludas que não se depilam ter pelos significa ser consciente dos seus direitos.

Quais seriam esses “direitos”? De ser feia? De parecer com homens e disputar o Prestobarba de manhã? Antes, um reparo: “direitos” hoje é uma expressão que serve para tudo. Piolhos terão direitos, rúculas terão direitos, ratos já têm direitos. Temo que apenas os machos brancos heterossexuais não tenham direitos.

Pensou? Machista! Desejou? Machista! Deu um presente? Machista! Se você aceitar ser eunuco, obediente, desdentado e, antes de tudo, temer a fúria das mal-amadas, aí você será superlegal. De repente, elas exigirão uma sociedade onde todos terão seu Prestobarba. Cuidado ao passar a mão nas pernas delas porque será como mexer nas suas próprias pernas.

Estou numa fase preocupado em ajudar o leitor a formar um repertório que escape do blá-blá-blá mais frequente por aí. Por isso, nas últimas semanas, tenho indicado leituras. Proponho hoje a leitura de “Feminist Fantasies” (fantasias feministas), de Phyllis Schlafly, cujo prefácio é assinado por Ann Coulter, a loira antifeminista que irrita a esquerdinha obamista, antes de tudo, porque é linda, com certeza.

Para piorar, Ann Coulter é inteligente e articulada. Mas, em se tratando de mulher, é antes de tudo a inveja pela beleza da outra que move o mundo a sua volta.

Dirão as ideólogas do “eunuco como modelo de homem” que a culpa é nossa (masculina) porque as mulheres querem nos seduzir e, aí, elas se batem na arena da sedução. Mas, se elas não quiserem nos seduzir, qual seria o destino de nossa espécie? Para que elas “serviriam”? Deveriam elas (as que querem ser bonitas para nós homens) ser condenadas porque são normais?

O primeiro artigo deste livro é já uma pérola de provocação: “All I Want Is a Husband” (tudo o que quero é um marido).

Contra a “política do ódio ao macho”, nossa polemista afirma que a maioria das mulheres, sim, quer, antes de tudo, amor e lar.

Quando elas se lançam na busca do amor e sucesso profissional em “quantidades iguais”, mergulham numa escolha infernal (a autora desenvolve a questão nos ensaios seguintes) que marca a desorientação contemporânea. O importante, antes de tudo, é não mentirmos sobre isso e iluminarmos a agonia da vida feminina quando submetida à “política do ódio ao macho”.

A vida amorosa nunca foi feliz. E nunca será. Mas a mentira da “emancipação feminina” é não reconhecer que ela criou novas formas de vida para a mulher em troca de novas formas de agonia.

Diz um amigo meu que, pouco a pouco, as mulheres se tornam obsoletas. Por que não haveria mais razão para investir nelas?

Conversando sobre esses medos com alunos e alunas entre 19 e 21 anos, percebi que muito da “obsolescência da mulher” é consequência de três queixas masculinas básicas: 1. Elas são carreiristas; 2. Não valorizam a maternidade; 3. Não cuidam da vida cotidiana da família. Associando-se a este “tripé”, o fato que elas começam a ganhar bem, nem um “jantar” é preciso pagar para levá-las à cama. Resultado: a facilidade no sexo de hoje é a solidão de amanhã.

Mergulhadas em suas exigências infinitas, morrem à janela, contabilizando as horas, contemplando o próprio reflexo.”

Ele só pode estar brincando, né?




QUANDO A GENTE ACHA QUE A FOLHA E SEUS ARTICULISTAS CHEGARAM AO FUNDO DO POÇO, VEM UM MACHISTA DESSES E MANDA UMA DESSAS, PRA AFUNDAR MAIS AINDA A CREDIBILIDADE DE UM JORNAL EM VIAS DE SE EXTINGUIR…

Fonte: Blog Viva Mulher

::

Resposta a Pondé

De tempos em tempos nós as mulheres feministas nos deparamos com expressões de puro preconceito e machismo. O texto do filósofo e articulista da FSP é mais um deles. Também não é o primeiro de sua autoria a discorrer sobre as mulheres contemporâneas e seu papel na sociedade. E infelizmente não será o último.

Resposta a Pondé – A obsolescência das Agonias Contemporâneas

Uma mulher sem um homem
é como um peixe sem bicicleta, tenha ela pelos ou não!

Notícia ruim chega rápido. Chega mesmo. Ontem fui conduzida pelos clamores de companheiras feministas indignadas – hoje em dia é coisa rara, indignar-se – ao texto de Luis Felipe Pondé, publicado no caderno Ilustrada da FSP, em 13/09/210, cujo título é Restos à Janela.

Primeira reação. Horror. Não pode ser outra vez. A velha história sobre “O lugar das mulheres no mundo de hoje”. E uma vez mais frases de impactos tão irresponsáveis quanto superficiais sobre a relação Emancipação da Mulherqualquer semelhança com a história de Pandora, Eva ou outras não é mera coincidência! – com a Desorientação Contemporânea.

Segunda reação. Não merece resposta. As minhas companheiras feministas propositivas discordaram. Desconstruir tamanho elogio ao senso comum – e ao machismo – é nossa tarefa. Fico feliz em não ser a única, nem a última.

Pois bem. Em nada exaustivo, esse texto é claramente um texto feminista. Talvez dessa onda a que Pondé alude (neopeludas?). Mas certamente mais profundo que suas reflexões sobre nossas “exigências infinitas”, sobre nossa relação com os pelos, com aparelhos de barbear e com a obsolescência.

O texto de Ponde reúne e sintetiza séculos de pensamento branco, heterossexual e de pura misogenia, que obcecado em justificar e manter a desigualdade entre mulheres e homens, faz uso das explicações naturais, que mais linha menos linha, desembocam no o controle da sexualidade das mulheres pelos HOMENS.

Vejamos. Para ele o destino da mulher é reproduzir a espécie. Incompleta e frágil que é não o faz sozinha, ela precisa do macho. E para conseguir o seu, as mulheres devem seduzi-lo, devem embelezar-se para ele, e claro disputa-lo, umas com as outras. Devem moldar-se pois – a sua consciência, subjetividade e desejos – ao tamanho do lar, que é tudo o que podem desejar e é aquilo que os homens podem dar para elas, junto com proteção, segurança e conforto. Para dela sugerem a beleza, o carinho, o amor, a compreensão, as roupas lavadas…a lista é imensa! São as mulheres do lar, são as mulheres de alguém. Assim, não estão sós. E certas de que, como fazem as macacas e as aves fêmeas, cumprem o desígnio da natureza (ou de Deus!) na reprodução das espécies.

Tudo isso ia muito bem até que aparecem algumas mulheres com certas ideias subversivas que colocam essas verdades à prova. Problematizam a construção do ser mulher, trazendo a baila os detalhes – que são as formas como o poder se manifesta, os quais Pondé intencionalmente esconde – questionando assim o destino aparentemente fatal ao qual as mulheres estariam sujeitas: o amor incondicional de mãe e de amantes, a sexualidade passiva que nunca transcende, que tornada puro objeto é intencionalmente dada – na caso de uma virgem que entrega sua pureza ao seu verdadeiro amor, ou no caso sacrossanta fidelidade feminina – ou que pode ser arrancada, tomada a força – no caso da violência sexual, ou o estupro. Em resumo uma vida resumida a agradar os OUTROS.

Essa natural predileção pelo lar, essa fragilidade tantas vezes cantada e a cada vez mistificada, que faz de nós seres dependentes e vazios, voltados a seduzir e manter seu macho determina inclusive os dilemas de nossa existência, que como atadas à história e a sociedade em que vivemos variam: acabar com os pelos, casar e ter filho antes dos 30, aumentar os seios, o bumbum, estar sempre magra, ser sempre bela e jovem, para citar algumas das agonias contemporâneas (das mulheres) que Pondé intencionalmente não menciona. E tudo isso sob a inegável (?) e inquestionável fundamentação natural de que é da substância das mulheres.

Evidente que o questionamento das próprias mulheres produziu mudanças nas sociedades e que essas não podem ser vistas apartadas dos processos sociais, econômicos e políticos nos quais estamos todas e todos. E que muitas vezes não significam o completo rompimento com o passado. Na verdade, à uma afirmação das mulheres como sujeitas de si corresponde um sem-número de reações em contrário de representantes das mais diferentes instituições – todas elas ligadas à nossa história de opressão – como a igreja, a ciência, para ficar na dimensão macro.

O texto de Pondé, portanto, não traz nada de novo ao “bla-bla-blá mais frequente por aí”. A crescente participação das mulheres no mercado de trabalho não significou uma necessária – e almejada pelas mulheres – reestruturação da família e dos “papéis” de cada um dentro dela. Ou seja, temos o sinal verde para trabalhar, mas a casa, os filhos, a família continuam sendo nossas responsabilidades.

Certamente que Pondé não imagina que tenhamos todas que abandonar nossos trabalhos, mas incomoda a ele – e a um montão de machos por aí – que em dado momento da vida as mulheres escolham o trabalho e não a família, que coloquem mais energia em suas carreiras do que num homem. O que, de fato, causa a indignação dos machos é que essa dura batalha que enfrentamos, nós as mulheres, pela construção de nossa autonomia – econômica e também da consciência – signifique necessariamente a OBSOLESCÊNCIA dos homens, tal como eles se entendem há séculos, e por conseqüência a maneira como eles se relacionam com o mundo e os seres que habitam o mesmo.
Mas e os homens? O que farão então os homens sem aquela mulher para cortejar, humilhar, para levar pra cama depois de pagar um jantar, casar, trair, voltar, falar mal, ou para passar suas roupas e cuidar dos seus filhos? Há uma clara alteração na forma de ver o problema, certo? As agonias por fim não são só nossas, não é mesmo?

O amigo de Pondé tem razão quando diz que não há mais razão para se investir nas mulheres. Quer seja porque elas passam a ganhar mais do que os homens, afinal elas estudam mais mesmo, quer seja porque, mesmo que bem devagarzinho e sempre enfrentando reações conservadoras como as de Pondé, a gente esteja conseguindo atacar o paradigma que determina as relações entre homens e mulheres, o que para nós significa abrir caminhos para a construção de novas mulheres e homens. Há uma evidente diferença com a alegoria sobre disputar a lâmina de barbear pela manhã. Não se trata de virarmos homens para termos mais direitos, mas de construirmos um mundo com IGUALDADE para mulheres e homens.

Para Pondé, as agonias contemporâneas – o medo, a solidão e a insegurança (repito, só das mulheres?) – são percebidas como resultado direto da inversão dos valores propostas pelas primeiras feministas. Mas preso aos detalhes, Pondé não consegue identificar que esses males não são exclusivos da mulher moderna, muito menos podem ser lidos como resultado indesejado de nossas conquistas. Eles dizem respeito à adoração desmedida ao consumo nessa sociedade guiada pela lógica da oferta e da procura e totalmente atomizada na crença do individualismo, como único caminho para a felicidade constante e ininterrupta (ela mesma um mito, tal como Pondé explicitou sobre a falibilidade da vida afetiva), através da lógica avassaladora da mercantilização de casa dimensão de nossa vida (objetiva e subjetiva), a mercantilização da vida em si.

Há muito que fazer, há muito que derrubar e um mundo inteiro para reconstruir. E esteja certo, Pondé e todos que suas ideias representam, de que nós e as outras que virão depois de nós, continuarão a movimentar-se a se organizarem as passeatas, os debates etc. Continuaremos a denunciar e a lutar contra todos os canais de opressão, para que chegue um momento em que as mulheres não precisarão mais dos assobios nas ruas para se sentirem bonitas, que não precisarão de um macho para se sentirem completas, em que elas experimentarão a autonomia plena sobre seus corpos e vidas. E assim, diante de novas mulheres e novos homens, o desejo, o amor ou qualquer coisa que o valha serão apenas, e tão somente, expressões da vontade pura e desinteressada, sem significar o exercício de poder sobre a OUTRA.

Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres!

Camila Furchi
Militante da Marcha Mundial das Mulheres

::

a clara agonia de um homem senil

“a clara agonia de um homem senil”, esse foi o que eu escrevi na caixa “assunto” do e-mail revoltado contra a ofensa que foi pra mim individualmente, e pro que imagino ser a luta das mulheres como um todo, do “texto” que o “professor” luiz pondé (colunista da xexelenta folha maldita de sp, professor da não menos xexelenta faculdade de comunicação da malígna faap).
gente, sério, eu achei q ia explodir de tanto sentimento de injustiça e crueldade que transborda do textículo dele.
tal foi a sensação que se instalou em mim, de onde eu vociferei em e-mail a ele (e-mail que recebi de uma fonte protegida):

Misógino, ignorante, retrógrado, burro e imbecil!
morre logo aí!

pesado, né? como que uma pessoa pode falar assim com alguém que não conhece, um professor doutor blabla em FILOSOFIA (gente, sério!). mandar morrer ainda, q falta de educação, né. tá bem. só que o doutorzinho lá resolveu escrever sobre como as feministas (não, o doutorado dele não foi sobre feminismo) são peludas, feias bobas e chatas, e como todo o resto do gênero feminino da sagrada espécie de homo sapiens sapiens (os homens que sabem sabem) que deus colocou na terra (o moço é religioso, deve pensar isso, eu não) quer se livrar desse encargo que o feminismo do mal, peludo, mal amado e mal-comido, causou, que é trabalhar e ter uma vida própria. imagina só. o luizinho acha que as mulheres querem mesmo é ficar em casa, cuidar do marido e dos filhos, e que isso de trabalhar fora só fudeu a vida plena que as bonequinhas ali (que nunca existiram) tinham antes dessa chatice de “igualdade” pregada pelas macacas que odeiam os homens (as feministas, claro).
enfim, dentre as mil idiotices que o sujeito falou, ignorantão mesmo que ele é, estão coisas piores, que eu não vou falar agora, pq, que preguiça, né. e muitos blogs já divulgaram essa baboseira do podézinho, e o que me traz alguma felicidade é que tem muita gente q não faz idéia do que é feminismo disparando contra as erratas do cara. siga o link: bocas no trombone ou digite “pondé restos à janela” e escolha onde vc vai ler esse troço.

aí que eu esperava uma reação com igual força do sujeito, me xingando, trazendo pro nível que ele começou no textículo dele. mas não! pasmem! ele foi educadinho, me mandou até abraço!
ó só:

Luiz Felipe Pondé para mim
(17 horas atrás)

voce foi muito radical Clarisse…
veja a questao num contexto sobre agonias contemporaneas, ai vc verá q a questão alem de retorica, é de fato real: insegurança, medo, solidao, obrigado por seu email. Abraço, Pondé

fofo. acho que ele tava sofrendo as tais agonias contemporâneas. ou era só mesmo dor de barriga, vai saber.
enfim, resolvi dar uma colher de chá pro cara e tentar explicar algumas coisinhas, com um pouco mais de educação, já que ele agora subiu o nível um tico, (aliás, que anti-feminino de mim, engrossar a voz, né! ficar xingando o “doutor”! devem ser os meus pelos que cresceram demais, peraí q já vou raspar).
aham, pronto. aqui vai a resposta da resposta da resposta:

Clarisse Alo para Luiz
mostrar detalhes 10:21 (1 hora atrás)

imagino que a idéia de que as mulheres sejam seres humanos e queiram igualdade é mesmo por demais radical pra você. de que possam ser felizes além da maternidade compulsória, além da heteronormalidade, além da projeção dos homens que crescem achando que beleza feminina é de plástico, seja uma noção por demais amedrontadora para quem está vendo seu mundo ruir.

na verdade eu acho que você está muito enganado na sua leitura sobre mulheres e homens, em generalizar de forma grosseira esses grupos, além da sua noção de feministas estar pra lá de estereotipada e superficial. se você queria fazer uma análise de como se sente perdido em um mundo em que a sexualidade é vivida de formas variadas, e onde as mulheres, feministas ou não, não tem que se obrigar a cumprir todos os serviços domésticos, sexuais e ainda servirem de bonequinhas “para” seus maridos, você deveria ter deixado mais claro que essa é uma dificuldade sua.

a agonia feminina, de que você tentou falar, não é fruto da conquista de direitos da pauta feminista, como o voto, o trabalho, ou ainda o divórcio, mas sim de não ter se livrado do modelo aprisionador de feminilidade e da quase total falta de empatia de muitos homens, que ainda acham que deve cair sobre a mulher todos os afazeres domésticos. ou você já se perguntou se essas mulheres que reclamam de ter de trabalhar dobrado e dizem, por se sentirem sobrecarregadas, que preferiam ter apenas um trabalho (o do lar), que se a situação não fosse tão desigual, se o trabalho fosse realmente dividido, elas não seriam felizes? ou você acha mesmo que todas as mulheres só querem mesmo é se dedicar ao espaço privado e isso faria com que sua existência fosse mais comlpeta? esas é sua leitura histórica?

e problematizar as tais “exigencias infinitas”, onde estão mergulhadas as mulheres, não passou pela sua cabeça? de que essas exigências não são apenas internas, de que a imposição de uma certa beleza seja um fardo (para o qual muitas morrem em cirurgias plásticas), de que o espaço privado para o qual nos queriam escravas seja sufocante? e que isso somado ao trabalho, certamente sobrecarrega. mas o erro está em querer independência? essa foi a leitura que você fez. só essa.

essa inversão, de que o movimento social que propõe mudança e liberdade é o real perigo, o causador da maior desigualdade, não é novo, isso é backlash antiiigo. pesquise. já que está disposto a ler sobre o feminismo, leia susan faludi “backlash”. (aqui um resuminho pra facilitar: http://www.h-net.org/~hst203/documents/faludi.html )

pra você, ser feminista é ser apenas uma “neopeluda” (como se a questão dos pelos fosse nova), é ter ódio dos homens, é ser feia e burra, certo? é ter inveja das “belas”? fico imaginando o que pensa uma pessoa com essa visão sobre a liberdade, sobre a construção social dos sexos e dos comportamentos, da sexualidade humana…

se o sexo não precisa mais ser comprado com jantares, o que será da humanidade, não é mesmo?
só pode ser o apocalipse! as mulheres querendo viver sua sexualidade livremente, ó céus!

não é novidade alguma que as mulheres estão sobrecarregadas. mas as tais “neopeludas” (eu, aliás, me depilo) são aquelas que buscam mostrar que a luta por igualdade está longe de acabar. e que isso passa por, também, poder decidir individualmente se depilar é algo que se queira fazer com seu próprio corpo.

the end

é isso ae, minhas amigas. desopilei e agora respiro melhor. faz bem, sabe.
o que vocês acham? vamos encher as caixas de emails desses caras até eles verem que não podem mais sair falando absurdos sem serem respondidos à altura?

em solidariedade feminista e em revolta fuzarqueira!!
clarisse

fonte: Ofensiva contra o machismo – MMM

::

Sobre pelos e nojos

por Tica Moreno

Eu não tenho nojo de pelos. Tenho nojo do machismo, do pensamento e da escrita machista. Imagina uma conversa com esse tal de Pondé… nojo.

Tô sendo despolitizada? Talvez.

Mas por que é mesmo que a gente tem que saber a opinião desse cara? Ah, porque ele escreve na Folha… (Caguei pra Folha)

***

O que ele escreveu um monte de revista feminina escreve, de outro jeito. E o mercado, em quase toda esquina, oferece pra gente de tantos outros jeitos: com cera, creme, gilete, laser, que mais? Um monte de namorado pede pra namorada.

***

Esse assunto da depilação faz parte de uma categoria de desclassificações do feminismo que sempre temos que ouvir: “As feministas não depilam”, “As feministas não são femininas”, “As feministas precisam é de um pau” (e que venha acompanhado de um saco peludão).

Ser ou não ser “feminina”. O que é ou não “feminino”. Quem quiser que se aventure nessas definições. Pra mim, basta dizer que tudo aquilo associado ao feminino que significa de alguma forma submissão, não nos serve.

Estamos aí com um monte de salto alto, que deixam nossas pernas (depiladas, claro) lindas, super femininas. Nossas unhas pintadas de vermelho ou outra cor marcante – nada mais feminino (mas tome cuidado pra não ser “vulgar”). Nossas axilas, pernas, virilhas (e tudo o mais) super depiladas, super femininas. O espartilho que molda nosso corpo conforme manda o figurino feminino… ah não, esse a gente já superou e agora já podemos respirar. Mas não podemos comer muito, porque pneuzinho não é feminino. Nossa voz calma e doce, nossa paciencia e sensibilidade… são mais algumas características do nosso feminino.

Se estas características e apetrechos do “feminino” em alguma medida nos impedem de:

  • correr, pular, dançar
  • abrir a latinha de cerveja
  • usar regata no calor
  • comer aquela panqueca de doce de leite depois do almoço
  • responder a altura frente a uma grosseria qualquer
  • gritar quando a gente acha que tem que gritar
  • levar a sério o que virou brincadeira só depois que a gente levou a sério,
  • etc.

—-> enfim, se de alguma maneira o que é feminino restringe nossa autonomia, independência e liberdade: Esse feminino não nos serve.

***

E sobre a depilação: o feminismo reivindica que temos o direito de controlar nosso corpo e nossa vida.A gente critica, portanto, todas as formas de imposição de padrões de beleza e magreza, de comportamento, de sexualidade, de corpo.

Qualquer pessoa que conhece uma menina que se depila sabe que ou ela se acostumou com a dor e incômodo da depilação, ou ainda sofre todas as vezes que passa por esse procedimento. E não faz mal perguntar por que a gente continua se depilando. Por que mesmo??

A gente introjeta um monte de coisa, a gente se acostuma com o costume, muitas de nós afirmamos que é feio ficar sem depilar. Um dos problema é que muitas de nós já passou por uma ou mais situações como essas: ficou com calor porque o tempo virou e de repente tava aquele calor dos infernos e você não tinha depilado: foi de calça; conheceu um carinha do nada e tava bem a fim de transar mas não foi adiante porque tinha uns pelos a mais e bateu uma insegurança; perdeu a piscina ou o mar porque não deu tempo de depilar; etc.

“Ah, mas hoje tem outras formas mais rápidas e indolores” – e mais uma vez, o mercado te oferece uma parafernália de produtos pra você se sentir mais livre, e ainda assim, feminina. TÓIM!!

***

Se a gente deixa de fazer alguma coisa que a gente quer muito porque não está nos trinques conforme manda o padrão, é imposição, é opressor, e a gente tem sim que discutir, questionar, inventar um jeito de fazer diferente. Esse é o feminismo de muitas que vieram antes da gente e começaram o questionamento às formas de controle sobre o nosso corpo e comportamento, e é o nosso feminismo, que o artigo nojento do Pondé comprova que segue sendo super necessário e atual.

Fonte: Roupas no varal Feminismo e otras cositas más

::

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

4 respostas para

  1. BlogMuié disse:

    >Esse texto é nojento!Com certeza o machistão aí não sabe nem o que é feminismo muito menos porque o mundo precisa dele, ou seja, como ele pode escrever sobre isso sem mesmo saber do que tá falando, mas se ele sabe, ele é um idiota completo e tem orgulho de ser machista desse jeito; o que eu também não duvido nada. Mas o importante mesmo, é que nós, feministas nos coloquemos diante dessa afronta nos fortalecendo enquanto mulheres que querem um mondo diferente onde essas idéias neoliberais, machistas e preconceituosas não tenham espaço pra diminuir uma luta que é tão importante pra mudar esse sistema, capitalista, patriarcado, machista, conservador e etc.

  2. Luiz Correia disse:

    >Acho que o cara não gosta…..desculpem….deve estar acostumado a pegar em peludos!rsrsrsrs

  3. Clarisse disse:

    >gente, bóra escrever pro cara! eu mandei e-mail e ele respondeu (dizendo que eu sou radical, óbvio).mas aí, vamo lotar a caixa de email dele com respostas a esse texto misógino nojento! escrevam para: lfponde@pucsp.brem solidariedade feminista!

  4. Maria disse:

    >Esse artigo aí é assustador!! Não tenho outra definição a não ser essa da "clara agonia de um homem senil" que não consegue mais botar o pau na mesa. Misógino e arcaico é pouco. O que aconteceu com ele hein?! Pra se sentir um homem branco heterossexual indefeso?!?! Que agora nos nos fazemos escutar?! Sentiu a potencia das mulheres que combatem?! E mais ridiculo ainda é que essa livre expressão de sua pessoal agonia senil tenha sido publicada. Infelizes ele e a Folha hoje, quando as mulheres se fazem escutar.Um abraço enorme e apertado a todas companheiras de luta!!!!!!Maria Carolina Caleffi

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s