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Essa criadagem está ficando cada vez mais atrevida…



…E ainda por cima, fazem ruídos ao escovar os dentes


Trecho da página dominical da veterana jornalista Célia Ribeiro, publicado em Zero Hora de ontem:

[…] Dia desses, entrei no banheiro de um shopping, por volta das três horas da tarde. Todas as pias da bancada de mármore estavam ocupadas por funcionárias das lojas que escovavam os dentes com o maior esmero, diante do espelho, formando espuma da pasta dental na boca. Havia mais duas senhoras à espera para lavar as mãos, mas nada levou aquelas vendedoras a acelerar sua higiene bucal (bom senso seria os shoppings oferecerem aos seus funcionários banheiros privativos para deixá-los mais à vontade).


Se isso não ocorre, que elas escovem os dentes no banheiro comum, rápida e discretamente, sem ruído, deixando os detalhes para aprimorar na pia de casa, no final do dia. E, cá para nós, não é nada favorecedora a imagem de um rosto no espelho, com as bochechas infladas pelo vaivém da escova. […]

…………………………….

por Cristóvão Feil

Dias desses, afirmei a um amigo que o clima social no Brasil está muito parecido com aquele que se encontra na literatura argentina do período Perón-Evita. O ascenso das massas a bens de consumo, de higiene pessoal, de escolaridade, enfim, de voz e não dos sussurros e gemidos das dores da senzala, está provocando uma ira surda, mas incontida, das classes privilegiadas. Meu amigo concordou.

Paira uma nuvem de animosidade de classe no ar, para bem além da velha luta de classes. É um elemento novo no Brasil. A luta de classes agora também no plano da subjetividade: os olhares, os odores, a estética, os ruídos orgânicos dos pobres e não-brancos, e sobretudo, no vasto leque do que é classificado como “bom gosto” e como “bom senso”. Dona Célia, por exemplo, se acha no direito de ditar o que é bom senso para a massa ignara.

O pobre não pode escovar os dentes, se o fizer, não pode fazer ruídos. Não deve inflar as bochechas e ficar no vaivém da escova dental, isso pode desfavorecer a imagem de um rosto no espelho. Essa imagem está aterrorizando as senhoras bem nascidas, em locais públicos, shoppings e quetais. Isso precisa ser interditado, já. Aonde vamos parar com essas liberdades todas… em bancadas de mármore?

É uma questão de “bom senso”, como lembra a decana jornalista da RBS.

O ambiente é um prato cheio para a literatura e o cinema. Os argentinos tem uma ótima (e vasta) narrativa, em diferentes linguagens e suportes, para este fenômeno dos conflitos de classes (e étnico-raciais) no plano da subjetividade dos atores sociais.

Fac-símile parcial da página 15, caderno Donna ZH, encarte do jornal Zero Hora, edição de 22/ago/2010.

Fonte: Diário Gauche

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Uma resposta para

  1. Nay disse:

    >"havia entre eles um laço de compreensão mais importante do que o afeto ou a ideologia" (1984)estava relendo ontem esse livro, e lembrei desse trecho… que é o que os que-se-acham-superiores esquecem. a elite tapada não vê que pra compreender o outro como ser-humano não é preciso ter a mesma ideologia que ele, ou gostar dele afetuosamente… é só compreender. merda, is it this hard?

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