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Baile de Dilma no primeiro dia de TV; Serra inventa a favela de plástico

por Idelber Avelar


Já se esperava que os programas de TV de Dilma Rousseff e José Serra mostrariam um tremendo contraste de competência. Essa lavada tende a acontecer há tempos na política brasileira: o PT (e sua coalizão de esquerda: PSB, PC do B, PDT) tem feito programas de TV superiores aos dos outros partidos, e isso é simplesmente da ordem do fato. O Brasil chegou a proibir cenas externas numa campanha presidencial por puro medo de que o povo visse Lula nos lugares reais em que o povo vive (isso numa época em que Lula tinha 35, 40% de popularidade; hoje ele anda na casa dos 85%). Agora imagine: um país faz rede de televisão nacional para dar a conhecer seus candidatos, mas proíbe a exibição de imagens do próprio país. Hoje, sem essa proibição, depois de sete anos e meio de presidência Lula, mostrar o Brasil, mostrar o Brasil de antes e o de hoje é tudo o que governo terá que fazer na televisão para eleger sua candidata. Fez, no primeiro dia, muito mais: Dilma deu uma homérica surra televisiva em Serra, num contraste de qualidade (e autenticidade e verdade) de programas de TV que permanecerá como marco na história das campanhas eleitorais no Brasil.

Ex-prefeito da cidade e ex-governador do estado que têm o mais alto número absoluto de favelados no país, Serra conseguiu inventar o programa com a favela de plástico, numa constrangedora montagem de estúdio que lembrou as chanchadas da Atlântida. Atenção, estudantes e pesquisadores das áreas de ciências humanas e sociais! Quando aparecerem aqueles frankfurtianos-adornianos dizendo que tudo o que a indústria cultural e a TV produzem é manipulado e mentiroso, não se esqueça de dar mais uma volta na dialética deles e contraargumentar que até mesmo a mais deslavada mentira (a favela de plástico de Serra) não deixa de trazer em si profunda verdade (a verdade sobre o que é a candidatura Serra, ou seja, a sua impossibilidade de realmente visitar e estar numa favela brasileira). Poucas vezes na história dos programas político-eleitorais uma falsificação foi tão reveladora da verdade. Decupado pelo Brizola Neto, aí vai o clipe desse imortal momento de chanchada mágico-fantástica:


Mas o programa de Serra não mentia apenas na construção da favela de estúdio. Neste mesmo clipe de 20 segundos, você encontra duas outras escabrosas mentiras, uma política e uma pessoal. Mentira número 1: o jingle dedica mais tempo ao nome do presidente ao qual o candidato fez oposição, ou seja, de má fé ele tenta associar o candidato a uma figura política que não é da turma dele, e à qual ele se opõe desde 1982. 2: o jingle mente sobre o nome do próprio candidato, que é José Serra, jamais encurtado para “Zé” na política, e sim para “Serra”. Sobrenome até se muda, mas o nome? Como assim, depois de 50 anos de vida pública ele vira “Zé”?

Muito poderia se escrever sobre a imensa superioridade técnica do programa de Dilma: trabalho de câmera, qualidade das imagens externas, edição do filme, multiplicidade de ângulos e tomadas, trabalho com a luz—essa lista não está nem próxima de ser exaustiva. Aconteceu um baile de dramaturgia e cinematografia, sras. e srs. Mas ele não chega nem perto do baile político que ocorreu:

Como notou o Marco Aurélio Weissheimer, o programa de Dilma destacou o significado histórico de uma candidatura. De cara, aniquilou a possibilidade de qualquer outro factoide com a militância anti-ditatorial de Dilma. Encarou o tema de frente, falou dele com orgulho, trouxe o testemunho de ex-companheiras de cela e alinhavou pela primeira vez, na história pós-1989, a ditadura militar e a memória como temas legítimos numa eleição presidencial. Foi histórico, porque ao falar de si Dilma falou também do coletivo, contou aos mais jovens um passado que eles não viveram. Foi, ao mesmo tempo, um ato verdadeiro e um golpe preventivo: tente agora, Revista Veja, inventar um factoide do tipo Grupo de Dilma discutiu assalto a banco em 1969; tente agora, Folha de São Paulo, desenterrar outra ficha policial falsa enviada como spam. Querem falar de 1969? A campanha respondeu: assistam a esse programa, esse pronunciamento, e aí a gente fala de 1969, e de 1971 também. O jogo agora é outro, baby.

(Ao colunismo da grande imprensa, partidário mas que não se assume como tal, apresentando-se sempre como pretensamente neutro, restou torcer para que o povo não tenha dois documentos para votar, ou torcer que um milagre em Minas Gerais leve a eleição ao segundo turno–Minas, aquela “república independente das Alterosas”, cuja “lingua”, o mineirês, Serra já declarou não entender muito bem.)

No programa da noite, estabelecida a candidata, comoventemente contada sua história, apresentada como mineira-gaúcha que é (temperada de ampla experiência de Brasília), foi o momento da entrada de Lula. Sua entrada estabelece o contraste que interessa a Dilma, entre o que foi o Brasil de FHC, com Serra ministro, e o que tem sido o Brasil de Lula:

Logo depois que as primeiras reações ao contraste televisivo se espalhavam pela internet, saíram os números da pesquisa Vox Populi, dando Dilma com 16 pontos na frente, por 45 x 29. Nas goleadas do futebol, há sempre um momento em que o jogo “sai do controle”, e qualquer tentativa de empate vai virando tentativa de manter em derrota em números aceitáveis. 17 de agosto bem pode ter marcado esse momento da partida para a candidatura de José Serra, tão equivocada desde o começo, tanto em sua estratégia como em sua concepção de Brasil. Seus programas de TV só confirmaram essa verdade, mesmo quando mentiam.

Fonte: O Biscoito Fino e a Massa

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