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O Higienópolis já não manda sozinho. Quais serão as consequências?

por Luiz Carlos Azenha


Fico à vontade para falar do Higienópolis, bairro da região central de São Paulo que é símbolo do tucanato de alta plumagem. Moro no bairro. Mais exatamente, na rua que já foi endereço do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Talvez eu tivesse motivos para me sentir um estranho no ninho por aqui. Mas nem tanto. Aqui moram muitos empresários que também fazem parte da turma do “nunca antes”. Eles nunca faturaram tanto quanto no governo do presidente Lula. Existe uma boa dose de preconceito de classe. Por isso, o discurso aberta ou disfarçadamente preconceituoso que viceja nos jornais e revistas encontra repercussão no bairro. Mas, poderia ser pior. Eu poderia morar no Leblon, por exemplo, esse bastião da resistência à invasão dos pobres, morenos e deselegantes.

Hoje, por telefone, tive duas conversas muito interessantes e que se complementam. Primeiro, com o publicitário Renato Meirelles, do Data Popular, que como eu é um entusiasta da ascensão social no Brasil. Ele tem sempre na ponta da língua dados muito interessantes. Por exemplo: dos jovens de 25 anos da classe A, só 10% estudaram mais que os pais; dos jovens de 25 anos da classe C, 68% estudaram mais que os pais. É a primeira geração de universitários em massa em nossa História contemporânea. Nos próximos 12 meses, 8,7 milhões de brasileiros das classes C e D vão viajar pela primeira vez de avião. É o caos!

Para quem quiser ouvir toda a entrevista, aqui:

Em seguida, também por telefone, conversei com Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, em Belo Horizonte. Ele é um dos analistas ouvidos em uma pesquisa patrocinada pela agência Reuters e, na mais recente, disse que a possibilidade de Dilma Rousseff vencer as eleições de outubro é de 75%. Guedes não acredita que as diferenças metodológicas entre os institutos de pesquisa explique as diferenças entre os resultados que temos visto: “Embora existam metodologias diferentes, os institutos deveriam ter resultados aproximados do ponto-de-vista acadêmico”, afirmou.

Ele vê um quadro eleitoral difícil para a oposição em Minas Gerais (na Sensus mais recente, Dilma aparece com 8,7% de vantagem sobre Serra no estado) e diz que o fato de que o PSDB desprezou a solução mineira — Aécio Neves — pesará contra a candidatura Serra entre os mineiros, assim como o brusco descarte de Álvaro Dias como vice de Serra no Paraná poderá prejudicar o tucano no estado. Haverá segundo turno? Essa parece ser a pergunta de 20 milhões de dólares no momento. Guedes acredita que, se houver, será no limite — e vai depender sobretudo do desempenho dos candidatos dos partidos menores, como o PSOL.

Para ouvir toda a entrevista, aqui:

Qual o ponto de convergência das duas entrevistas? O papel que a estabilidade econômica e a satisfação pessoal dos brasileiros terá na hora da escolha. Não é por acaso, disse Renato, que não há candidato abertamente de oposição na atual campanha eleitoral. A grande massa de brasileiros, diz ele, está otimista, tem acesso a bens de consumo que nunca teve antes “e não tem nenhuma disposição de abrir mão disso”. Prenúncio, em minha opinião, de um novo conservadorismo, que dessa vez pode beneficiar… justamente o PT.

Tenho a impressão de que o presidente Lula, por ter identidade de classe com esse “brasileiro médio”, compreendeu antes de muita gente a profunda transformação que a ascensão social de milhões provocaria no quadro político, da qual ele é o principal beneficiário. Mas… e o Higienópolis? Temo que teremos pela frente um crescente processo de guetização às avessas, na qual a minoria do Higienópolis produzirá um discurso crescentemente milenarista a refletir seu desconforto com a perda relativa de poder numa sociedade verdadeiramente de massas. Já existem exemplos abudantes disso na mídia tradicional, como na frase de um articulista do Estadão, segundo o qual o governo Lula provoca autocensura na imprensa:

“Os partidos da base aliada e o governo têm sabido explorar, por sua vez, os obstáculos que a Lei Eleitoral coloca ao debate livre das ideias, usando e abusando da ampla gama de recursos para impedir que ele ocorra. É tanto o melindre com o cipoal de disposições que uma espécie de censura prévia se instalou na mídia, como mecanismo autoimposto pelos comunicadores que não querem ter problemas com a Justiça. Apesar de tudo isso, jornais continuam a informar, corajosamente, à sociedade”.

Como justificar tamanho non-sense? É a perplexidade diante de transformações historicamente muito rápidas, que escapam ao controle de nossa minoria com complexo de maioria. Se Dilma Rousseff de fato ganhar a eleição, teremos tempos interessantes adiante.

Fonte: Viomundo

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