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Doações de campanha devem mirar a Copa de 2014

Por Leonardo Sakamoto


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Há coisas que são tão certas quanto a morte. Uma delas: que haverá desvio de recursos para a construção dos estádios da Copa de 2014. No máximo, esbórnia em praça pública com roubo descarado ou superfaturamento, no mínimo obras inúteis feitas para tornar alguém mais rico ou reunir recursos para campanhas futuras.

Não vou discutir política esportiva – deixo isso na mão de outros blogueiros que entendem do assunto como o Juca Kfouri – mas é impossível não pensar na montanha de dinheiro (público, não se engane) que será torrado irregularmente sob a justificativa de fazer a festa do maior esporte do mundo.

Neste ano, serão eleitos os parlamentares e governantes que tocarão as obras do próximo mundial. Ou seja, as empresas interessadas em serem escolhidas para assumir a infra-estrutura da Copa, de estádios a melhorias urbanas, vão doar pesadas quantias para candidatos com chances de chegar lá. E, quando houver dois no páreo, ambos receberão dindim. A meta é garantir facilidades no futuro, brechas, enfim, colocar o diabo na rua, no meio do redemunho.

O problema é que houve um processo de banalização a tal ponto que dispor as duas palavras na mesma sentença – empreiteiras e corrupção – já não surpreende ninguém. E não é de hoje, mas um mal que já virou sistêmico.

“Nesse período, os empreiteiros procuraram, com sucesso, consolidar e ampliar seus vínculos como o governo. Passaram, por exemplo, a patrocinar comícios – o famoso comício das reformas (…), por exemplo, teve suas despesas pagas por um grupo de empreiteiros. Às vésperas da votação de alguma lei cuja rejeição ou aprovação interessava aos empreiteiros, pequenas fortunas influenciavam o comportamento de deputados e senadores ligados ao governo.”

O texto acima poderia ter sido publicado em qualquer jornal dos últimos tempos, recheado por escândalos de corrupção que envolveram parlamentares e empreiteiras, como o processo detonado pela Operação Navalha, da Polícia Federal. Mas não. O trecho foi extraído do livro “Minha Razão de Viver” (17ª edição, página 238), do jornalista Samuel Wainer, fundador do Última Hora, e se refere à ditadura militar.

Para não dizer que nada mudou nos últimos 40 anos com relação a essa orgia de cal e cimento, pontes e barragens, financiamentos de campanhas e os carpetes de tons frios dos corredores do Congresso e dos palácios de governo (e estádios de futebol) não temos mais o povo de farda verde no poder e o país é pentacampeão no futebol. Mas, por outro lado, essas empresas engordaram com o tempo e hoje o apetite delas pelo erário público é bem maior.

Anos atrás, a Folha de S. Paulo fez um levantamento junto ao Tribunal Superior Eleitoral apontando que 54,7% dos parlamentares do Congresso Nacional havia recebido dinheiro de construtoras para suas campanhas nas eleições de 2006. Receber doação não é ilegal, mas quem acredita que tamanho investimento foi feito à toa por essas empresas?

Sugestão idiota: caso uma empresa doe para um candidato, ela terá que ser declarada impedida de participar da licitação de um estádio da Copa se o candidato se tornar governante de um Estado escolhido como uma das sedes. No caso de presidente da República, o impedimento seria estendido para todo o país.

Por que idiota? Por que além de ser praticamente impossível acrescentar uma cláusula assim na lei federal de licitações e contratos públicos (número 8666/93), poucos no Congresso topariam dar um tiro no próprio pé. Ou na mão que os alimenta.

Fonte: Blog do Sakamoto

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