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A falência do neoliberalismo aponta novos caminhos que o Brasil precisa construir

por Carlos Lessa*


Euforia não é um bom precedente

A mídia batizou o final dos anos 1960 e início dos 70 de Milagre Brasileiro. Na ocasião, após uma retomada da construção civil e da produção de veículos automotores e eletrodomésticos, o Brasil parecia que iria dar seu salto final para o centro do mundo.

O juro real era baixo; o fluxo de empréstimos do exterior, crescente; o investimento privado, firme e a formação de infraestrutura pelo setor público ativa, planejada e continuada. Nesse cenário, a dívida externa crescia e as reservas internacionais absorviam o excesso de dólares. Nossos bancos contratavam operações no exterior e repassavam no varejo empréstimos com cláusula cambial.

Os países produtores de petróleo elevaram os preços, dando origem ao que se chamou Primeira Crise do Petróleo. Neoenriquecidos, os países produtores, superavitários, acumularam excedentes financeiros que reorganizaram o circuito financeiro internacional e produziram uma elevação do juro internacional e uma momentânea crise de liquidez.

Um ministro do regime autoritário lembrou que o Brasil respondia às crises “sacudindo a poeira e dando a volta por cima” e afirmou: “bendita crise!”. O regime autoritário lançou o II PND e afirmou que “no ano 2000, o Brasil seria grande potência”.

O restante da história é conhecido: o Brasil seguiu se endividando a taxas de juros crescentes em condições mais duras, mas tocou para frente projetos de infraestrutura, inclusive alguns de prioridade duvidosa. Com a segunda crise do petróleo e, com o México em 1982, o mundo entrou na chamada Crise da Dívida Externa.

No Brasil, a inflação acelerou e mergulhamos na mediocridade macroeconômica. Com os Fernandos, assumimos o neoliberalismo. FHC falou em “acabar com a Era Vargas”; Collor chamou o carro brasileiro de carroça; e os cronistas eliminaram da retórica as palavras como industrialização, desenvolvimento econômico e social, investimento como ampliação de capacidade produtiva e política industrial.

Alguém defendeu a “integração competitiva” (como um mergulho sem salvaguardas) na globalização. Houve a desmontagem acelerada do setor público sem, explicitamente, nenhum projeto institucional maduro e aceito pela população. A Constituição de 1988 foi esquartejada e o país viveu a febre das emendas constitucionais; combinou uma profusão de Medidas Provisórias de um regime parlamentarista com um presidencialismo que tudo justificava em nome da prioritária “luta contra a inflação”.

Destruímos cadeias industriais, desnacionalizamos a indústria, o comércio e os serviços, atrofiamos o aparelho produtivo estatal, forjamos anéis de interesses particularizados nas “agências de regulação”. Às custas da mediocridade macroeconômica e da insuficiência de geração de renda e emprego, a inflação foi controlada.

De paraíso da hidreletricidade, involuímos para uma tarifa energética proibitiva. O Brasil virou exportador de mão de obra: estão no exterior mais de 3 milhões de brasileiros. Chegamos à senilidade econômica sem viver a maturidade civilizatória.

O Brasil enfrentou, de forma razoável, a crise de 2009. O ponto-chave de nossa resistência foi a utilização dos grandes bancos públicos federais que escaparam da privatização. A moderada redução da taxa de juro real, a contínua elevação do poder de compra do salário mínimo e o ensaio ainda vacilante de retomada de alguns projetos de infraestrutura permitiram ao Brasil, em 2010, uma modesta recuperação.

Foi reinstaurada a euforia. Pela mídia, tudo se passa como se o Brasil fosse uma ilha de felicidade no oceano da Crise Mundial. Os EUA não se recuperaram e estão em adiantado estado de indigestão patrimonial e financeira.

Na Europa, o euro vacila: Grécia, Portugal, Espanha e, agora, a recém-chegada Hungria prometem um possível jogo de dominó com queda encadeada.

A Alemanha coloca as barbas de molho e as agências financeiras internacionais falam de perda de classificação para importantes bancos europeus.

A Inglaterra está estagnada e sem perspectivas. Na Ásia, o Japão se arrasta na mediocridade sem, ainda hoje, ter digerido sua precedente bolha imobiliária.

A China é a estrela e, a partir de um Estado forte, de uma soberania nacional intacta, do estrito controle da movimentação financeira e de um pragmatismo político-econômico sem inibições ideológicas, mantém o yuan alinhado com o dólar, pratica um neocolonialismo no Terceiro Mundo e realiza um enorme esforço de investimento público em infraestrutura.

Entretanto, mais da metade de sua população permanece no campo. Na cidade, a bicicleta vai sendo abandonada pela lambreta e sindicatos começam a endurecer negociações. Os analistas internacionais começam a ver sombras chinesas reduzindo seu papel de neopolo mundial. Aliás, a enorme riqueza financeira chinesa é apenas uma parcela da enorme dívida do Tesouro Americano.

Os sinais do planeta estão visíveis. Estiveram visíveis na segunda metade dos 70, no apagar do autoritarismo. A euforia foi o prenúncio da estagnação, mas levou a classe média a prender o slogan “Brasil ame-o ou deixe-o” no fusca pago em prestações, e a cantar “Pra frente, Brasil..”. A história pode se repetir, porém como farsa.

A euforia desconhece os riscos e não previne a possibilidade do erro. O Brasil, em 2010, deveria estar construindo salvaguardas a partir do raio de manobra ideológico criado pela crise que atingiu o baixo ventre da globalização e anunciou a falência dos postulados neoliberais.

*Carlos Lessa é economista , professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ, ex-presidente do BNDES, no governo Lula. Publicado hoje no jornal Valor Econômico.

Fonte: Diário Gauche / Valor Econômico

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