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O Ódio de Classe

por César Kiraly

Há tempos que os franceses falam em uma neurose de classe. Aparentemente ela se manifesta sob as condições sociais de mudança ascendente de classe, na qual o sujeito sofre, justamente, porque não se sente parte do universo ao qual passa a pertencer. Nesses contextos o que existe é uma personalidade que por questões de mérito e austeridade deixa de pertencer a sua antiga classe social, que passa a não mais vê-lo como um igual, e passa a ser incorporado por uma outra à qual ele não se sente pertencente. Esta neurose pouco comum – porque é muita mais fácil que as pessoas desçam de classe do que subam de classe, se podemos dizer assim, além do que, as mobilidades de classe costumam se dar em blocos populacionais, então, toda uma população muda em conjunto o seu modo de vida e seus vínculos de afetos – é percebida em circunstâncias sociais que permitem ascendência meritória pela educação. O fenômeno, pois bem, não nos interessa muito, pelo menos não no que concerne a um dos grandes problemas brasileiros, a pobreza, mas nos permite ver uma das faces escondidas da resistência aos pobres. Porque a neurose de classe se manifesta como sofrimento, mas como em toda neurose existem repressões, que, no caso, se mostram como ódio de classe.

Não é segredo para ninguém que a política brasileira migra para a bipolaridade. De um lado o PSDB e do outro o PT como centros orbitais de uma série de corpos menores, na galáxia do PMDB . Assim, aquele partido que consegue encantar as migrações cósmicas da galáxia acaba por arregimentar possibilidade de governo. Mas o embate político brasileiro também possui um elemento de resquícios sociais. O primeiro elemento que incrementa este efeito colateral da neurose de classe, que é o ódio de classe, é a destruição da tradição criminosa e partidária brasileira, que se expunha como representação conservadora. A redução de partidos assemelhados a quadrilhas à condição de pequenos partidos se deveu ao desmonte dos currais eleitorais promovido pelo programa Bolsa Família.

Não é demais compreender que frente à falta de garantia do mínino de subsistência, comina na mesa, de ninguém possa ser cobrada a postura de fazer o certo, não se pode contar, em política, com ações heróicas, e, de um modo geral, nem é desejável que as pessoas se comportem como heróis da classe, mas o programa bolsa família abriu espaço para a existência de virtudes públicas. Frente à tentativa de cooptação por partidos-quadrilha o homem comum pode dizer não ao benefício maior que obteria preferindo fazer o que considera certo para o seu futuro e o de seus filhos. A idéia de mínino de subsistência permite ao homem comum pensar de modo moral e levar, ainda que de modo simples, a sua inflexão diante do certo para a vida pública. O modo mais imediato de fazê-lo é pelo voto livre.

Esta liberdade do homem simples aguça o sentimento do ódio de classe. De alguma forma este correlato da neurose de classe que é o ódio de classe, possui uma irritação profunda com o fato de que existem homens que ainda que escravizados por relação de emprego ruins, ou por falta de estrutura social ou educacional possam, nas matérias mais importantes, dizer o que julgam melhor. Se não há mais um partido político capaz de recurralizar, de modo imediato, as relações sociais no Brasil, a esperança, dos que sentem ódio, está ligada à campanha de oposição ao governo.

Não há que se lembrar que a pessoa do presidente é vítima de uma série de comentários e chacotas típicas do ódio de classe. A idéia de que um homem pode mudar o seu destino pelo princípio do melhor e que atrela a sua existência ao “viver por alguma coisa” é insuportável para aqueles que precisam acreditar que a existência não tem qualquer sentido e que “viver é viver por e para si”. A autonomia do homem simples é o motor do ódio de classe. Cabe ao homem simples resistir. Por agora, resistir pelo voto.

*Cesar Kiraly é doutor em ciência política pelo IUPERJ, no qual coordena o Laboratório de Estudos Hum(e)anos.

Fonte: Carta Maior

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