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Por que mesmo a nossa mídia desconheceu o Bicentenário da Argentina?

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A volta do elemento político nacional-popular inominado numa belíssima festa de multidões

A mídia brasileira desconheceu as comemorações da semana do Bicentenário da Independência da Argentina. O silêncio foi gritante.

Ouvi uma socióloga conhecida, figurinha carimbada em rádios e tevês do PIG, onde não raro comparece a meio-pau, afirmar candidamente que é muito difícil comentar sobre a independência da Argentina. “Eles têm duas datas, que se conflitam, e a gente nunca sabe qual a correta” – completou a sedenta. Essa senhora que, apesar de tudo, é inteligente e bem informada, deveria saber que houve um longo e complexo processo de independência formal do vice-reinado do Rio da Prata da coroa espanhola. A semana de 18 de maio a 25 de maio de 1810, marcou o início do desligamento da Espanha, porque o vice-reinado deixou de reconhecer o novo governo espanhol, então ocupado militarmente pelas tropas de Napoleão. Essa tensão – com revoltas e guerras civis localizadas – durou até a sanção da Constituição de 1853. Sendo que a declaração formal de independência ocorreu em 9 de julho de 1816.

A rigor, a Argentina moldou o seu Estado nacional a partir de 1806, com as invasões inglesas, e até a promulgação da Constituição de 1853. As datas, neste caso, tem menos importância que os processos políticos e de identidade nacional e territorial que estavam se gestando na primeira metade do século 19. Só os idiotas da objetividade – como dizia Nelson Rodrigues – adoram cultuar as datas pelas datas. A própria instauração da República no Brasil não foi exatamente em 15 de novembro de 1889. Em 15 de novembro foi o golpe militar contra a família imperial dos Bragança. A República se consolida mesmo somente com o duro Floriano Peixoto (que combateu os conservadores) e graças à força política do governo de Júlio de Castilhos, desde o Rio Grande do Sul.

De qualquer forma, os festejos nacionais argentinos ocorridos durante essa semana, mas que tiveram início ainda na semana passada, foram bonitos, unitários, de multidões, despartidarizados e ao mesmo tempo politizados. Talvez esse forte simbolismo da identidade nacional argentina, agora revigorado, tenha incomodado a nossa mídia oligárquica. A sua plena divulgação poderia se constituir em mau exemplo para os brasileiros – eis o temor tácito dos editores de jornais e demais meios de comunicação brasileiros.

Os atos comemorativos argentinos foram atos de massa, alegres, festivos e com a marca nacionalista, que aos poucos retorna às manifestações de rua no país vizinho. Um elemento nacional-popular, para bem além das desmoralizadas siglas partidárias e bem distantes, também, do movimento sindical pelego, corrupto e viciado dos velhos tempos, que nem vale a pena mencionar.

A Argentina mais uma vez ressurge das cinzas, agora, para um destino talvez diferente do que aquele reservado pelas suas oligarquias sanguinárias e vende-pátria, um destino forjado sim na têmpera do passado, mas agora projetado na ânsia de liberdade e emancipação das novíssimas gerações.

Foto 1: Multidão festeja o bicentenário na avenida 9 de Julio, em Buenos Aires, na noite de 25 de maio, terça-feira passada.

Foto 2: Há muitas semanas iniciou-se uma grande marcha de pessoas do interior do país para reivindicar o respeito e o reconhecimento de direitos às etnias autóctones argentinas e pelo estabelecimento de um Estado multicultural e multiétnico no país.

Fotos de Daniel Garcia/AFP

Clique nas belas imagens para ampliá-las.


Fonte: http://diariogauche.blogspot.com/

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