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O livro que relata as raízes do golpismo da nossa mídia


“Minha razão de viver”, de Samuel Wainer, está sendo violentado

Recentemente eu reli o ótimo livro do jornalista Samuel Wainer, “Minha razão de viver”. Há semanas que estava para recomendá-lo aos estudantes de Comunicação, para que conheçam um grande sujeito, um profissional exemplar e um jornalista autodidata que foi protagonista de acontecimentos cruciais da história brasuca. Resolvi fazê-lo no dia do lançamento do jornal web Sul21. Vejo que o S21 tem alguma semelhança com o jornalismo praticado pela Última Hora, já disse isso aqui, outro dia, guardadas as distâncias de tempo, veículo e tamanho do País.

Hoje, entretanto, quando comecei esse texto, fui levado por alguma intuição para uma pesquisa breve ao Google com o objetivo de verificar a quantas edições anda o livro de Wainer (a minha é a 15ª edição, 1993, editora Record). Resultado: “Minha razão de viver” está sendo vendido na primeira edição da Editora Planeta Brasil, segundo o portal da Livraria Cultura.

Vejam que há um corte epistemológico aí, como diriam os althusserianos, um gap. Para piorar, a sinopse que a Cultura estampa na página de oferta do livro de Wainer informa o seguinte:

O relançamento de ‘Minha razão de viver’ traz um clássico enriquecido por requintes gráficos, documentos inéditos e imagens que virtualmente falam. As informações complementares invadem labirintos e porões do esquema de arrecadação de dinheiro destinado a financiar o contragolpe preventivo rascunhado entre meados de 1963 e abril de 1964 por partidários do presidente João Goulart. Wainer foi testemunha privilegiada e, com freqüência, protagonista dos preparativos para a ação abortada por inimigos mais ágeis.

Observem a expressão “contragolpe preventivo rascunhado […] em abril de 1964”. Quer dizer, a obra do combativo jornalista – leal a vida toda a Getúlio Vargas – Samuel Wainer está sendo vendida com o sinal trocado. Confesso que não li essa edição bastarda. Mas, é possível sentir o cheiro da traição à obra original do criador de Última Hora – o único jornal diário popular, de esquerda, que o Brasil já teve. UH que foi objeto de todo o ódio destilado pelo golpista em tempo integral, Carlos Lacerda. Quem usa a expressão “contragolpe” para designar o golpe civil-militar de 1964 são os próprios golpistas de abril de 1964. É um eufemismo. Eles não admitem que deram um golpe, deram, segundo eles próprios, um “contragolpe contra Jango”. Mas estão devendo até hoje as provas que havia de fato um golpe em marcha a ser perpetrado pelos arremedos de partidos que eram o velho PTB e o então PCB. Tanto havia golpe de esquerda no Brasil em 1964, quanto havia armas de destruição em massa no Iraque de Sadam Hussein. Álibis para rasgar a Constituição, eufemismos para isentar golpistas da alcunha de “golpistas”.

Fica, pois, o registro da violência que estão fazendo com a memória de Samuel Wainer, e sobretudo com um documento importante para entender parte da história do Brasil, para saber sobre a canalha que dirigia os grandes jornais brasileiros, como se formaram fortunas em nome da consigna “imprensa livre”. Um documento inestimável para conhecer o entreguismo e a baixa estatura moral de sujeitos como Carlos Lacerda, Assis Chateaubriand, David Nasser e muitos outros, chamados por Wainer de “barões da imprensa brasileira”.

Quem lê “Minha razão de viver” – além de se deliciar com a prosa fácil, bem escrita e fluida – vai entender melhor os motivos de o PIG ser o que é, hoje. Todos irão conhecer o verdadeiro significado do vocábulo “golpista” – uma tradição da imprensa oligárquica brasileira.

Mas, atenção: compre o livro em um sebo, edição antiga, da Record. A atual é suspeita e muito cara.

Dica: procurar livro em sebos é melhor na “Estante Virtual”.

Fonte: Diário Gauche

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