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MEU REINO POR UMA VASSOURA

por Lola Aronovich


Várias leitoras me pediram para comentar a entrevista que a psicóloga evolucionista Susan Pinker deu à Folha, na semana passada. Nem tenho muito o que comentar. O que acho da psicologia evolucionista eu já disse aqui. É um meio de justificar os piores comportamentos e jogar a culpa nos homens das cavernas. Susan faz isso: justifica salários maiores para homens porque, afinal, mulheres não se interessam por profissões “masculinas”. E ainda se vangloria de, após publicar O Paradoxo Sexual, ter recebido inúmeros agradecimentos de mulheres que tinham vergonha de reconhecer que não eram ambiciosas, não queriam dinheiro, queriam era cuidar da prole, e, como não se cansa de repetir minha leitora radical Aiaiai, fazer risoto (pessoalmente, acredito que mulheres – e homens – devem ter o direito de decidir se querem trabalhar ou cuidar da casa ou trabalhar e cuidar da casa. Claro, é pra quem pode. A maioria das mulheres no mundo não têm essa opção). Mas Susan é bem mais diplomática que alguns de seus colegas evolucionistas. Ela, ao menos, defende que “profissões femininas” tenham um aumento de salário (ué, mas pra quê? Mulher não liga pra dinheiro mesmo!).

Quando li o nome da psicóloga, ele me pareceu familiar. E aí descobri porquê. Sabe aquele palhaço que escreveu que “os homens preferem as loiras” é algo que pode ser provado cientificamente? Satoshi Kanazawa, aquele um que disse que a Barbie é um modelo pras mulheres? Então, Kanazawa, um psicólogo evolucionista, redigiu em agosto do ano passado um texto chamado “Por que o feminismo moderno é ilógico, desnecessário, e do mal” (sério!). E ele se baseia justamente em quem pra “provar” que homens e mulheres são diferentes, e portanto, devem ser tratados de forma diferente? Na Susan, claro.

Ele diz que não se deve comparar a situação da mulher com a do homem porque os dois querem coisas distintas. Logo, se uma mulher quer passar o dia inteiro varrendo a casa, por que impedi-la? O homem casado com essa mulher está é no fundo sendo um anjo por não fazer trabalho doméstico. Ele é tão generoso que está deixando tudinho pra ela. E ela gosta! É o que ela quer da vida! (e convenhamos, Kana tem razão: nada dá mais prazer na vida de uma mulher que passar roupa. Passar camisa do marido, então, nos leva à loucura).
O fato de mulheres receberem salários menores, segundo Kana (e Susan), não quer dizer que elas sejam discriminadas. Apenas que nós exercemos funções diferentes. Não porque a divisão do trabalho é responsável por manter o status quo, mas porque não queremos competir! Uma mulher quer ser empregada doméstica, entende? E ganhar menos é um mero detalhe. Afinal, a prova definitiva que nós mulheres estamos melhor que os homens não está no bolso, mas em vivermos mais.

E a minha asneira preferida deste ramo pop da psicologia: é uma mentira que homens tenham mais poder que mulheres, já que nós temos o poder de transformar os homens em geleia somente com os nossos atrativos sexuais. Os carinhas ficam tão bobos quando nos veem que fazem qualquer coisa! E isso, entenda, é poder. Ah, você queria outra espécie de poder, tipo poder governar empresas e países? Tolinha! Contente-se com o que deus lhe deu.

Kana tem até explicação para que os homens dominem o dinheiro, a política e o prestígio em praticamente todas as sociedades humanas. Ele não nega que isso aconteça, apenas não vê qualquer resquício de desigualdade. A razão que ele dá: o mundo é e sempre será assim porque os homens ganham dinheiro pra impressionar as mulheres. Homens querem dinheiro, mulheres querem ser impressionadas por homens com dinheiro. É assim que as coisas são desde que o mundo é mundo!

E por que o feminismo é do mal? (sim, ele diz isso). Porque faz homens e mulheres infelizes. As mulheres eram muito mais felizes quando não trabalhavam (Kana não leu A Mística Feminina). Dinheiro faz homens felizes, segundo o psicólogo evolucionista, mas não faz as mulheres felizes. Pois é. Nada como uma boa faxina pra levantar nosso astral. Substitui qualquer orgasmo.

Daí uma doutora americana, Gina Barreca, escreveu um artigo delicioso tirando sarro das besteiras do psicólogo. Do alto de seu bom humor, ela diz que, se as mulheres jovens e bonitas realmente tivessem tanto poder quanto os homens com dinheiro e armas, elas é que teriam o dinheiro e as armas. Seria um mundo diferente: “absorventes femininos, ao invés de Viagra, seriam cobertos por todos os planos de saúde”.

E Gina conta a sua história como feminista. Ela foi estudar numa universidade que havia acabado de admitir mulheres. A proporção era de cinco homens pra cada mulher, e ela imaginava que teria muitos namorados. Logo descobriu que os rapazes preferiam beber até vomitar todo final de semana. Era sinal de “bichice” gostar mais de mulher que de beber até cair com os amigos. Nas aulas, o professor, sempre que lhe fazia uma pergunta, começava a questão com a frase: “Como mulher, o que você acha de…?”. Até que ela percebeu que realmente tinha uma visão de mundo diferente da de muitos homens. E, no entanto, quando ela foi chamada de feminista pela primeira vez, ficou horrorizada. Ela associava feministas aos piores adjetivos, como não ter senso de humor e ser mal-amada. Adoro o que ela diz: “Isso era porque eu aceitava a versão masculina das coisas, que era como acreditar na versão do rato sobre o gato, uma visão que não vê nada além de dentes e garras”. Seus namorados, amigos e professores lhe diziam que só mulheres que não conseguiam sexo recorriam ao feminismo. Até que ela se rendeu e notou que “nós somos as mulheres contra as quais os homens nos advertiram”.

E, um belo dia, ela descobriu que feministas não querem ser homens. Pelo contrário, elas celebram o fato de serem mulheres. Só não aceitam que mulheres ganhem menos, sejam vítimas de violência, não sejam donas de seus próprios corpos. Mas olha, se tem uma coisinha que a psicologia dos homens das cavernas não consegue explicar é o feminismo. Como tantas mulheres podem querer direitos iguais apesar de serem tão diferentes dos homens? Devíamos mais é varrer chão com um sorriso no rosto.

fonte: Escreva Lola Escreva

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