A Santa Sé

por Marco Aurélio Mello
O furo de reportagem do The New York Times, que trouxe a notícia de que o então prefeito da Congregação para a Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, teria acobertado, nos anos 90, denúncias de abusos sexuais por um padre a mais de duzentas crianças surdas, durante 20 anos, em Wisconsin, nos Estados Unidos, caiu como uma bomba sobre a já combalida Igreja Católica, às voltas com centenas de denúncias de prática de pedofilia e abusos de toda sorte, cometidos por clérigos ao longo de anos e anos, em todo mundo. Minha família é um exemplo. O patriarca, capitão São Roque, era filho de um padre com uma escrava. Mas a notícia, na minha opinião, não deveria causar tanto escândalo. Quando a Igreja decidiu impor o celibato, do ponto de vista doutrinário, justificava o gesto como uma manifestação de fé, à altura do Cristo. No entanto, foi na Idade Média que o celibato associado ao sacerdócio passou a ter finalidade econômica, evitar que o patrimônio da Igreja fosse dilapidado com disputas entre herdeiros do clero. Além disso, segundo a história, o celibato evitava ainda que os padres tivessem que se dividir entre o ofício sagrado e a família. Desde então, todos sabemos que, para por em prática tal dogma com o devido rigor, foi necessário tolerar certos desvios, sobretudo os de caráter sexual. E foi graças a esse padrão que a sociedade foi se acostumando com padres que enfiavam a mão sob as saias das mulheres, beijavam os vãos de seus seios pelos decotes, atraiam crianças para figurar de assistentes e coroinhas e corrompiam outras tantas de temperamento mais vulnerável, na sacristia. Oras, por tudo isso, a notícia não me causa espanto. Afinal, o maior mal que o poder impõe é a tentação. Onde há poder, há corrupção, arbítrio, cumplicidade, submissão e silêncio. Por que seria diferente na Santa Sé?
fonte: DoLadoDeLá
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