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Vitória. Vitória?

por Luiz Carlos Azenha

Antecipar o resultado das eleições de 2010 não custa um centavo sequer. É temerário uma pessoa fazer como o homem do ibope, o sr. Montenegro, que disse que o PT acabou e que Lula não fará o sucessor. Primeiro, por ele representar um instituto de pesquisas cuja credibilidade depende do acerto das pesquisas; depois, por colocar sob suspeita as próprias pesquisas do instituto, que — é razoável supor — vão tentar “confirmar” o que diz o dono; e também pelo gigantesco mico de prever um resultado que não seja confirmado nas urnas.

Eu, que não sou dono de instituto de opinião, não me arriscaria a tanto. E, francamente, é muito cedo para fazer previsões. A não se que você não esteja certo de sua candidatura e que sua incerteza deixe incertos, também, seus aliados, parceiros e financiadores. Nesse caso, você precisa criar na opinião pública a impressão de um “já ganhou”, ainda que artificial. Isso pode ser “providenciado” por pesquisas ligeiramente distorcidas por institutos de opinião “amigáveis”, por artigos na imprensa nacional e internacional que demonstrem a viabilidade de sua candidatura e pelo wishful thinking de seus amigos e aliados.

Mas ninguém ganha eleição batendo no peito ou com manchetes unânimes produzidas na mídia. A alguns fatos, pois.

O governador Serra tem a favor dele o reconhecimento do nome junto ao eleitorado e sua experiência administrativa, gostem ou não vocês do que ele fez como ministro, prefeito ou governador. Eu, como eleitor de São Paulo, acho que é muito pouco. Acho que o governador foi muito pouco criativo na administração do estado. Quando sair do governo, poderá apontar para uma grande obra viária, a ampliação da marginal do rio Tietê, integrada ao Rodoanel. No mais, a atuação de Serra ficou entre o regular e o medíocre: ele não cuidou da grande obra de seu antecessor, Geraldo Alckmin, que foi a ampliação da calha do rio Tietê, com resultados óbvios para paulistas e paulistanos; não se pode dizer que na segurança pública, na educação ou na saúde São Paulo tenha tido grandes avanços, se não teve claros retrocessos.

Eu, francamente, esperaria de um governador de São Paulo candidato ao Planalto — governador de um estado que tem dinheiro, talento e energia –soluções criativas e ousadas, especialmente para os problemas da grande metrópole brasileira, que Serra administrou em parceria com Gilberto Kassab. Mas, francamente, não vejo isso. Nem mesmo no gerenciamento das questões do dia-a-dia, supostamente o ponto forte do PSDB, vimos isso.

Um exemplo prosaico: São Paulo tem alguns pontos que alagam com frequência, sempre que chove muito. Ainda que a cidade tenha sido pega de surpresa pelas chuvas deste ano, agora sabemos que está chovendo muito em 2010. A prefeitura de São Paulo poderia dar um tratamento especial aos pontos de alagamento: varrição especial, coleta continuada de lixo, esquema de emergência com os bombeiros e funcionários públicos para resgatar alagados… Porém, nada disso se vê. Nenhuma satisfação é dada ao público. O atendimento é tardio, quando existe. É como se as autoridades estivessem torcendo para o período de chuvas acabar logo como forma de enfrentar o problema. Ou rezando. Ou pedindo à Globo reportagens denunciando a população como culpada por jogar lixo nos bueiros.

O fato é que Serra precisa de 70% dos votos em São Paulo para ter alguma chance de ganhar a eleição no Brasil. E é atrás destes 70% que ele está correndo, com sua “fama” de bom administrador. Duvido que ele consiga mas, vá lá. Além de muitos votos em São Paulo, Serra precisa de muitos votos em Minas Gerais e no sul do Brasil. Mas isso está longe de garantido. Há dúvidas sobre o apoio que Aécio Neves dará ao candidato de seu partido, se o governador paulista confirmar sua candidatura. No sul a governadora Yeda Crusius, aliada de Serra, está morta. O palanque do PT, especialmente no Rio Grande do Sul, terá o potencial de atrair um bom número de votos.

Para além disso, ao contrário do que diz o sr. Montenegro, do ibope, o PT não está morto. É só analisar os números da votação do partido nas eleições mais recentes (alguém pode me ajudar com isso?). O PT tem um grande número de vereadores, prefeitos, deputados, senadores e governadores que estarão empenhados na campanha presidencial. E está coligado ao maior partido do Brasil, o PMDB, que é um grande “produtor” de votos. Não é por acaso que o presidente Lula defendeu o senador José Sarney nos escândalos do Senado e não é por acaso que a mídia amiga de Serra mirou em Sarney: foi uma tentativa de desconstruir a aliança eleitoral.

Sabemos que a coligação PT-PMDB terá mais tempo de propaganda eleitoral que a coligação PSDB-DEM, o que é crucial numa eleição em um país tão grande quanto o Brasil.

Para mais além disso, todas as pesquisas tem mostrado um grande apoio ao governo Lula e altas taxas de aprovação pessoal do presidente da República. Podemos questionar se Lula terá ou não capacidade de transferir votos, mas não podemos dizer que o apoio de Lula é descartável. Só desdenha desse apoio quem não pode contar com ele.

Para além disso, muito mais, temos a situação da economia brasileira: estável, em crescimento acelerado para os padrões do país, criando empregos, permitindo a alguns milhões realizar o sonho da casa própria e a outros milhões o acesso à universidade.

Essa combinação de fatores, enfim, “conspira” em favor da candidatura que mantiver o status quo. Todos os prefeitos que se reelegeram recentemente tiraram proveito dessa maré “governista”, pelo simples motivo de que as pessoas não gostam de mexer em time que está ganhando.

Portanto, a tarefa do governador Serra é convencer os eleitores de que ele vai mudar muito pouco. Mas, para mudar pouco ninguém vota em candidato da oposição, já que a lógica de votar na oposição é votar por mudanças. Serra precisa convencer o eleitorado brasileiro de que ele é o herdeiro de Lula e de que Dilma é anti-Lula, como tentou nos convencer o correspondente do jornal espanhol El Pais no Rio de Janeiro, Juan Arias, em artigo que ele parece ter “psicografado” diretamente do forninho do PSDB, talvez diretamente ali das redondezas do Jardim Botânico.

Ora, como fazer para convencer o eleitor de que sou herdeiro do Lula? Corro o risco do Lula aparecer na TV e dizer: “Não, meu caro, eu sou o Lula, posso afirmar que você não me representa, nem minha herança”.

(Isso me faz lembrar de Dan Quayle, candidato a vice na chapa de George Bush pai, que dizia ser o herdeiro político de John Kennedy. Ao que o vice da chapa adversária, Lloyd Bentsen, um matuto do Texas, replicou, num debate eleitoral: “Conheci Kennedy. Fui amigo de Kennedy. Convivi com a família Kennedy. Posso dizer que o sr. não é o John Kennedy)

Finalmente, não é desprezível o fato de que o PSDB perdeu, pelo envolvimento de aliados de Serra com situações no mínimo constrangedoras — Yeda Crucius no Rio Grande do Sul e José Roberto Arruda no Distrito Federal — a capacidade de se apresentar aos eleitores como o partido das mãos limpas.

O governador Serra fez até agora quase tudo o que poderia ter feito para garantir o lançamento de sua candidatura. Pelas razões que expus acima, os fatos conspiram contra ele: o presidente é popular, a economia vai bem, a adversária terá mais tempo que ele na campanha de TV, tem dois partidos sólidos atrás dela e palanques fortes na maior parte do Brasil.

Se sair candidato, Serra terá vencido a briga interna. Estamos longe de saber o que ele vai ganhar com isso. Pode ser o Planalto, mas pode muito bem ser o fim de sua carreira política. Vitória. Vitória?

Fonte: Viomundo

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