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Ser gerente a gente aprende. Ser humano, não!

por Luiz Carlos Azenha


Outro dia escrevi que esperava encontrar na candidata Dilma uma sensibilidade social de mulher e mãe que fosse mais marcante que o saber tecnocrático ou a famosa “capacidade de gerenciamento”. Essa capacidade, aliás, é a principal característica que nos pretendem vender os marqueteiros tucanos. Depois de Alckmin, o gerentão, teremos o engenheiro e economista José Serra, “brilhante”. Ou “brilhante” é o Daniel Dantas? Já não sei direito.

São Paulo como cidade e, dentro dela, a marginal do rio Tietê, são modelos de fracasso da ocupação urbana. A culpa, obviamente, não é de José Serra, embora você possa debater se ele lidou com os problemas de São Paulo de forma inepta ou não, como prefeito e governador eleito pela maioria dos paulistas.

Esse modelo de ocupação urbana é do século 20. Obedece às ideias da engenharia do século 20, que podia tudo. Obedece à invencibilidade humana do século em que as Ciências se impuseram, na prática, à Fé. Fomos todos rezar no altar do consumo, desfizemos nossas raízes com a Natureza, optamos por soluções individuais sobre as coletivas.

Quem matou o rio Tietê? Todos nós. Quem endossou a ocupação das várzeas do Tietê por gente e por automóveis? Fomos, de certa forma, todos nós. Todos nós que aplaudimos quando os bondes — sou velho, mas ainda não tinha nascido nessa época — deram lugar ao trânsito de automóveis, quando o transporte coletivo foi inapelavemente derrotado pelo transporte individual.

Na sociedade capitalista em que vivemos, os interesses econômicos representados pela especulação imobiliária, pela indústria automobilística e pelas grandes empreiteiras apitam muito mais do que nossa vontade coletiva. As empreiteiras querem gerar grandes obras, soluções milagrosas; as construtoras querem mais e mais espaço para seus empreendimentos “nobres”, ainda que esse “nobre” inclua um rio podre e morfético no horizonte (afinal, vamos ficar todos trancados em nossos condomínios, cada um em um quarto da casa vendo TV ou diante do computador); a indústria do automóvel quer espaço para crescer, sempre mais espaço, a qualquer custo.

Esse é o modelo “casado” com toda uma geração de políticos que está no poder, hoje, através das contribuições de campanha por dentro e por fora. Estão em todos os partidos. Em todos os níveis do governo. Romper com esse modelo — o das grandes hidrelétricas, das grandes obras, das soluções milagrosas de engenharia — requer uma tremenda força de pressão social, que por sua vez exige um movimento suprapartidário independente da mídia corporativa. Essa mídia é irrigada pelos mesmos interesses que financiam os políticos: as empreiteiras, a indústria automobilística e a especulação imobiliária.

Quando um homem — ou mulher — fica congestionado três horas ao lado de um rio morto, dentro de um automóvel que pesa 1.500 quilos mas carrega um único passageiro que pesa menos de 100 kg, é sinal de que há alguma coisa errada com esse modelo. Ele serve a muitos interesses, menos aos humanos. É por isso que espero que em 2010 tenhamos candidatos humanos ao Planalto. Ser gerente a gente aprende no poder. Ser humano, não.

Fonte: Vi o Mundo

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