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Eles se foram: e agora, quem representa a direita na América Latina? Partidos conservadores estão à deriva


América Latina: esquerda, volver; direita, vai ver…

por Rodrigo Vianna

Evo Morales acaba de dar uma surra na oposição, na Bolívia. Isso nem chega a surpreender. O que surpreende é o fato de as siglas tradicionais da centro-direita boliviana estarem à beira do colapso: o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Víctor Paz Estensoro, e a Ação Democrática Nacionalista (ADN), de Hugo Bánzer, e o MIR (que deu apoio ao governo liberal de Sanchez de Lozada) já tinham entrado em decadência antes de Evo Morales chegar ao poder.

A direita “inventou” uma força opositora a Evo, o “Podemos” – que até recentemente dominava o Senado boliviano.

Pois bem, o “Podemos” também se desintegra. A oposição boliviana não tem partidos, não tem discurso – a não ser afirmar que a popularidade de Evo ameaça a democracia. Que piada. O que ameaça a democracia são os golpes que a direita sempre apoiou.

A direita, na Bolívia, sobrevive na mídia e em movimentos que pregam a secessão, a divisão territorial do país – como em Santa Cruz de la Sierra… Ou seja: a direita se aloja em movimentos regionais, sem força nacional.

Mas o desmanche dos partidos tradicionais não é um fenômeno só da Bolívia.

Na Venezuela, a AD e o COPEI (que dominaram a politica nacional durante a segunda metade do século XX) viraram partidos nanicos.

O PSUV de Chavez é majoritário, em aliança com o Partido Comunista da Venezuela (que preferiu não se dissolver no partido chavista).

A direita na venezuela precisa “inventar” novas siglas, porque as velhas ruíram quando o neo-liberalismo afundou.

Na Argentina, a UCR (que não é de direita, mas de centro; um partido liberal, com fortes raizes na classe média portenha, e que sob o governo de Alfonsin teve papel fundamental na redemocratização do país pós ditadura) chegou à beira do colapso, depois do governo de De la Rúa (que fugiu do palácio de helicóptero) e quebrou a Argentina.

Os setores mais à direita no peronismo também naufragaram depois que Menem (um peronista que adotou a agenda neo-liberal) acabou com o que restava do Estado argentino.

A direita argentina já “inventou” uma nova sigla: o PRO. É comandado por Macri, uma espécie de Berlusconi local – homem rico, dirigente do Boca Juniors, tenta cooptar o eleitorado de direita nas grandes cidades (especialmente na grande Buenos Aires.

No Uruguai, o último pleito mostrou a decadência do velho Partido Colorado. Rival histórico do Partido Nacional, aceitou apoiar Lacalle (candidato do Partido Nacional) no segundo turno, para evitar a vitória da esquerda. Os dois apanharam juntos, e terão que se reinventar para fazer frente ao governo de Pepe Mujica, da Frente Ampla.

O Chile talvez seja exceção nesse processo.

No país andino, o centro (desde o fim da ditadura de Pinochet) mantém uma aliança firme com a centro-esquerda do Partido Socialista. A direita, isolada, perdeu todas as eleições, mas não perdeu a direção. Até porque, no Chile, a direita não renega a ditadura de Pinochet. Defende Pinochet, defende o programa liberal (na economia) que ele implantou.

No Chile, a direita é mais “orgânica”, e tem chance real de ganhar a próxima eleição – sob o comando de Sebastián Pinera, um milionário local.

E o Brasil?

Aqui, o quadro é mais confuso, mais matizado…

O colapso da economia, nos anos 80, não provocou o enterro das duas velhas legendas: PMDB e PFL. Eles perderam o centro do poder, mas sobreviveram nas beiradas, costurando alianças com tucanos e petistas.

O PMDB mantém-se no poder com Lula. Cada vez mais fragmentado.

Já o velho PFL passa por um processo semelhante ao da direita na Venezuela e na Bolívia. Mudou de nome (DEM) em 2007. Adotou um tom “liberal” no discurso, e preparou-se para ser o partido das classes médias conservadoras e liberais: contra os impostos, contra a corrupção.

Mas a danada da realidade atrapalhou tudo.

O DEM é uma caricatura.

O escândalo dos panetones põe o partido na lista das legendas em extinção. Com a expulsão de Arruda, deve perder o único governo que possuía (do Distrito Federal).

Dos 13 senadores que possui, 8 terão que passar pelo teste das urnas em 2010. Há risco concreto de encolher para uma bancada de 8 ou 9 senadores. E de 30 a 40 deputados.

Os tucanos (ao contrário da direita chilena) parecem envergonhados de defender o legado neo-liberal de FHC. Isso pode custar caro.

O partido viu sua base definhar no Congresso. E só sobrevive com algum destaque porque domina dois Estados importantes: São Paulo e Minas.

Falta identidade à direita brasileira. Falta programa.

No quadro partidário, ninguém cumpre o papel de encampar o discurso da direita. O DEM havia levantado velas, e preparava-se para ocupar essa raia. Mas parece que naufragou antes de chegar a mar aberto.

Não acho isso bom. A direita é uma força política, real, na sociedade brasileira. Se não se sentir representada politicamente, pode aderir a aventuras extra-institucionais (gostaram do eufemismo para golpe?).

O desespero que vemos nos colunistas e comentaristas da mídia corporativa indica o grau de desespero dessa turma. No Brasil, a direita sobrevive na mídia!

A desagregação política da direita na América Latina é um fato. No Brasil, esse fato ganhou uma imagem simbólica a representá-lo: as propinas do DEM.

Uma nova direita deve surgir. Espero que surja como opção política. Não como gangue, nem como aventura fora dos marcos da democracia.

Fonte: O Escrevinhador

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