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Um deserto de ideias

por Luiz Carlos Azenha

Tenho amigos progressistas e conservadores. Que se acreditam revolucionários, reformistas ou reacionários.

Dentre eles, os críticos conservadores do governo Lula se dividem em dois grupos: os que replicam o discurso dos colunistas da mídia corporativa — contra o assistencialismo e o personalismo, por exemplo — e os que acreditam que Lula é simplesmente “de mau gosto”, como legítimo representante de um operariado pequeno-burguês cujo horizonte intelectual estacionou na esquina entre Zezé de Camargo & Luciano e o jipe importado de segunda mão do Silvio Pereira.

Rejeito essa segunda linha crítica mais até do que a primeira, porque acredito ser resultado de puro preconceito de classe e porque envereda pela crítica de costumes. Se é disso que se trata, porque Lula seria pior que Serra, representado por Bonner, Tas e Kamel, nossos subintelectuais cuja matriz de pensamento se parece com um carimbo produzido em Miami?

Minhas próprias críticas ao governo Lula são muitas e minhas dúvidas sobre o futuro do pacto político promovido pelo presidente da República são maiores ainda. É possível sustentar uma coalizão com os setores mais retrógrados da sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, formular e colocar em prática as políticas públicas necessárias a criar empregos de qualidade, investir em tecnologias limpas e energeticamente menos intensivas e criar centros de conhecimento para explorar comercial e industrialmente a biodiversidade da Amazônia e da Amazônia Azul?

Seria a engenheira Dilma Rousseff a pessoa melhor preparada para fazer isso? Teria a engenheira Dilma Rousseff a sensibilidade social de um sanitarista como José Gomes Temporão? Minha esperança, francamente, é de que a engenheira “desenvolvimentista” tenha preservado suficientemente em si a mulher e mãe. Digo isso porque não acho que nós, brasileiros, precisamos exatamente de um “trator” em 2010, mas de alguém com sensibilidade social e conhecimento gerencial para lidar com os grandes fossos que separam os brasileiros: ricos e pobres, homens e mulheres, brancos e negros, com e sem terra, os incluídos e os não incluídos no mundo digital.

Incorporar as mulheres ao mercado de trabalho com os mesmos direitos dos homens parece uma tarefa prosaica, mas não é. Entender que as adolescentes da periferia buscam a maternidade porque a maternidade é algo que dá a elas protagonismo social exige uma compreensão que vá além dos números e das planilhas. Quando a família brasileira muda de composição e passa ser liderada muitas vezes pela mulher, é preciso calibrar os programas sociais para levar isso em conta. Investir em uma rede nacional de banda larga é preciso não apenas pelo efeito político, mas porque reduz distâncias em um país continental e incentiva novos empreendimentos, “virtuais”; isso requer, do político, uma antena sintonizada no século 21.

Eu juro que gostaria de ter a mesma expectativa em relação à oposição mas, sinceramente, não tenho. Quais foram as grandes ideias colocadas em prática no governo por José Serra ou Aécio Neves? Costumo fazer essa pergunta a meus amigos conservadores mas não aceito como resposta planos de governo ou de campanha… Como se sabe, o papel aceita tudo.

Olho para São Paulo, onde vivo, e me pergunto todos os dias: quais foram as grandes ideias que os tucanos desenvolveram ao longo de 16 anos no poder para lidar com os problemas da maior metrópole do Brasil? Aparentemente, tudo o que fizeram, em nome de libertar o “espírito selvagem” dos paulistas, foi desonerar o grande capital para que ele pudesse se acumular à vontade Brasil afora, comprando terras, explorando minérios e a mão-de-obra barata de outros estados. O que, para a elite paulistana, não é pouco. (Particularmente, o governo Serra me parece um governo de homens brancos para homens brancos).

Como não canso de constatar, acompanhando de perto a mídia paulistana, aqui em São Paulo tudo acontece “por acaso”: é culpa da chuva, do “excesso de veículos”, da baderna de camelôs arruaceiros. A ideia de que haja um governo e de que ele deva ser responsabilizado por coisas “prosaicas” como o trânsito infernal, as enchentes e o metrô lotado não se aplica aos tucanos paulistas. Curiosamente, os próprios moradores de São Paulo costumam achar que tudo isso está dado, que não tem jeito, que sempre foi e sempre será assim.

Ora, se os tucanos governam São Paulo há 16 anos, não deveriam ter as melhores ideias e as grandes soluções para o resto do Brasil, se aceitarmos que São Paulo é de fato a “locomotiva” do Brasil? Mas, não. Cobramos o Lula e o PT pelas grandes ideias nacionais que os tucanos não apresentaram em São Paulo.

Podemos questionar o governo Lula por não ter institucionalizado as mudanças, como fizeram outros governos da América Latina; podemos questioná-lo por avançar menos do que era o desejável; por fazer concessões aos banqueiros e aos latifundiários. Mas, e a alternativa?

Vou dar um exemplo de quando eu morava nos Estados Unidos, nos anos 80, um período em que os principais centros urbanos do país estavam dilapidados pela fuga da principal base de contribuintes para os subúrbios (o equivalente à fuga da elite paulistana para as cidades muradas de Alphaville, onde ela se tranca com educação, segurança e saúde privadas, enquanto a população em geral se explode em Heliópolis).

Um programa tripartite — federal, estadual e municipal –, adotado no governo Clinton, dava incentivos fiscais para que empresas se instalassem em determinadas regiões das cidades, desde que se comprometessem a contratar mão-de-obra local. Contratada, essa mão de obra local tinha salário para comprar apartamentos parcialmente financiados com dinheiro público. Não foi o único fator, mas foi um fator importante para o renascimento de regiões inteiras das grandes cidades americanas, em Boston, Baltimore, Nova York e outros lugares.

Eu juro que esse tipo de solução, “de mercado”, era o mínimo que eu poderia esperar de um grupo político paulista, preocupado com a mobilidade e a renovação urbanas, depois de 16 anos governando a maior metrópole do país. Mas, o que vemos em São Paulo? As mesmas ideias de Paulo Salim Maluf: não há obra viária que não seja capaz de empurrar o problema para o próximo governo. Governo? Que governo? Quem mandou morar em São Paulo? Nós, paulistas e paulistanos, simplesmente abdicamos de cobrar dos governos locais as soluções que cobramos do governo federal. Olho para São Paulo e, francamente, vejo um deserto de ideias, com a justificativa de que que “governo atrapalha”, quando na verdade a inexistência dele está a serviço de alguns poucos.

Fonte: Vi o Mundo

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