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Diatribe estudantil do Globo

por Miguel do Rosário

As críticas políticas do Globo às vezes parecem saídas da boca de um estudante radical. Um radicalzinho de direita, mas igualmente utópico, exagerado e maniqueísta quanto qualquer trostkista de 17 anos. Pra começar, tudo é esquerdismo. Claro, da ótica de um seguidor fanático das facções ideológicas mais reacionárias dos EUA, tudo é esquerdismo. Receber o Ahmadinejad, presidente do Irã, é fruto de “um esquerdismo infantil que tenta afirmar a independência diante dos EUA”.

(Clique para ampliar).

É impressionante como eles pintam a bajulação mais vil dos EUA com a tinta bege do cinismo antiesquerda. Sempre contra o Brasil, sempre a favor dos Estados Unidos. O pior é que essa submissão, hoje sabemos muito bem, é politicamente inútil e economicamente negativa. O Brasil já não ganha nada, se é que ganhou algum dia, alinhando-se aos segmentos mais conservadores da potência do norte.

Na verdade, a coisa é ainda mais absurda. Porque há hoje uma clivagem na Casa Branca. De um lado, uma esquerda, ligada à Obama, a certo número de democratas e a vastos setores da opinião pública americana, com ênfase na intelectualidade acadêmica; de outro, Hillary Clinton, a direita, e a mídia americana, com ênfase na Fox e nos lobbies industriais ligados à guerra.

Mas a Casa Branca é ocupada por Obama, que vive um momento de recuo, de queda de popularidade, de crise política enfim. O Globo, que já teve editorialistas que apoiaram Obama (seguindo a onda moderninha), agora se alinha, decididamente, às alas mais conservadoras da política norte-americana.

O Globo fala em “adular” Ahmadinejad. Que adular! Desde quando receber um presidente, numa visita inclusive que foi pedida pelo próprio Ahmadinejad, é adular? Nada tem sentido. A semântica de tudo é distorcida. O Globo diz o seguinte:

“Não ajudará as ambições do Planalto, em termos de promoção da boa imagem de Lula no exterior, adular um Ahmadinejad mantido no poder por um golpe militar da Guarda Revolucionária – depois de uma eleição fraudada -, tudo em nome de um esquerdismo infantil que tenta afirmar a independência diante dos EUA – o “império”.

É inacreditável. Em todo o período, não há uma frase verdadeira. Vamos:

1) Ajudará sim. O Brasil é respeitado justamente por sua política externa altiva e independente. Se fosse seguir os conselhos do Globo, Lula não teria conquistado o prestígio que tem. O Globo só pensa em adular os EUA, mas não entende que, ao fazê-lo, não agrada nem aos EUA, porque ninguém respeita quem não se respeita. Lula fez muito bem em receber Ahmadinejad e conversar com ele e ajudar a distender as relações internacionais entre o Irã e alguns países ocidentais. Ademais, o mundo não é só EUA, Inglaterra, França e Alemanha. Existem mais de 200 países no mundo, e todos olham com orgulho para o Brasil quando Lula exerce uma política externa independente. O Globo representa um ponto-de-vista simplesmente burro. O comércio exterior do Brasil com o mundo em desenvolvimento, hoje, é muito maior do que com o mundo desenvolvido. A “imagem no exterior” de Lula, portanto, deve ser avaliada por esse prisma também. Com que fundamentos o Globo afirma que a visita de Ahmadinejad não contribuirá para a “boa imagem de Lula no exterior”? Não acertou uma vez sequer no passado recente e quer dar uma agora de especialista na imagem exterior de Lula?

2) É mentira também que Ahmadinejad “foi mantido no poder por um golpe militar”. Ele foi eleito duas vezes pelo sufrágio universal. Doideira do Globo. Golpe militar aconteceu no Brasil, em 1964, apoiado entusiasticamente pelo Globo. Golpe militar aconteceu na Venezuela, em 2002, apoiado pelo Globo. Golpe militar acaba de ocorrer em Honduras, igualmente apoiado pelo Globo.

3) A eleição não foi fraudada. Houve suspeita de fraude lançada pela oposição. Venhamos e convenhamos. Se quem perde eleição tivesse o poder final de decretar se houve fraude ou não, não haveria mais eleições no mundo. O Irã é um país soberano, com instituições republicanas capazes de julgar ou não se houve fraude. Eles decidiram que não houve fraude. Houve erros, problemas, talvez até mesmo tentativas de fraude, mas, segundo eles, nada que alterasse o resultado das urnas e justificasse o gasto de outros centenas de milhões de dólares na realização de outro pleito. É preciso respeitar a soberania do Irã.

4) Quem tem esquerdismo infantil? A política externa de Lula é respeitada por todos os países do mundo, inclusive por mandatários de direita, como Nicolas Sarkozy, da França, e Angela Markel, da Alemanha, para não falar das boas relações que Lula manteve com George Bush, o anti-esquerdista por excelência. Onde está o esquerdismo infantil? O último problema de Lula e de sua diplomacia é esquerdismo infantil. O Brasil tem uma política externa inteligente e só. Naturalmente, é uma política externa com personalidade. Ela representa a grande maioria dos brasileiros, os 80% de brasileiros que apóiam Lula.

5) Ahmadinejad foi visitar Bolívia e Venezuela. O Globo é tão burro que finge não entender as relações econômicas entre países produtores de petróleo e gás.

6) Por fim, uma crítica que está me dando nos nervos é essa obrigação agora do Brasil cobrar direitos humanos do Irã. Que moral o Brasil tem para fazer isso? O Brasil que mata dezenas de milhares de jovens por ano, em execuções frias realizadas por policiais corruptos? Que moral tem o Brasil? O Brasil é um dos países com as maiores taxas de criminalidade no mundo, e agora quer ensinar o Irã, uma civilização de milhares de anos, a resolver os seus problemas com segurança pública? O Irã trata mal os seus prisioneiros? Ãã. Macaco olha seu rabo. Brasil, olhe para suas próprias prisões. Olhe para seus orfanatos. Que eu saiba, no Irã não existem milhares de crianças abandonadas nas ruas, cheirando crack, como temos no Rio, São Paulo, Recife e em todas as grandes cidades. Que eu saiba, em Teerã, não temos milhares de pessoas catando lixo para comer e dormindo bêbadas pelas ruas, como vemos nas metrópoles brasileiras. Olha teu rabo, macaco!

7) Esse histeria anti-iraniana não nos permite enxergar algumas coisas. O Irã é um dos países em desenvolvimento com maior índice de jovens estudando em universidades. Os choques políticos de hoje, inclusive, são o resultado dialético dessa situação. O contato com uma realidade maior, mais complexa, faz os jovens aspirarem por mais liberdade, o que é natural, e aí entram em choque com as autoridades. Essa é a dinâmica dos conflitos no Irã. É uma dinâmica que, hora ou outra, terá que ser superada, mas outros problemas irão surgir, naturalmente. Nenhum país está livre de conflitos.

8) Sobre a questão dos judeus, a situação é mais ridícula. A imagem que se está passando para a opinião pública é que foram os iranianos os responsáveis pelo holocausto. Admito que é irritante ouvir o Ahmadinejad falar sobre o holocausto, mas, tirante as traduções mau feitas, não podemos esquecer que quem matou os judeus foram europeus de olhos azuis, cabelos louros, residentes num país chamado Alemanha. Então, senhores judeus, não confundam as coisas. Ahmadinejad pode falar besteira, e a comunidade internacional deve mesmo interpelá-lo, como fez Lula, para que se retifique e esclareça as suas posições. Mas quem matou os judeus foram os alemães, e não os iranianos. Está combinado?

9) Ninguém contou a história recente do Irã, e essa omissão impede os brasileiros de formarem uma opinião política um pouco mais embasada. Por exemplo, os jornais não lembraram que o Irã viveu uma das guerras mais cruéis da história recente. Saddam Hussein, para quem não se lembra, era amiguinho dos EUA e da Inglaterra, e atacou o Irã. A guerra Irã X Iraque resultou na morte de mais de um milhão de iranianos. E todos sabiam que Saddam recebia dinheiro, armas e relatórios de inteligência dos EUA. Creio que esse fato não tenha ajudado os iranianos a ficarem mais tolerantes, pluralistas, pacifistas, ambientalistas e fãs do rock ‘n roll.

10) O resto do editorial contém outras mentiras. É demais para mim. Num editorial de duas laudas, o Globo consegue fazer umas duzentas manipulações, forçando-me a um trabalho dez vezes maior que o editorialista que o escreveu. Porque eu devo contextualizar cada fato diacronica e sincronicamente, ou seja, fazendo a contextualização histórica e a contextualização geopolítica. Tudo bem, prefiro muito mais o meu esforço do que o golpismo tacanho e fácil do editorialista do Globo, que não tem nome, não tem ética, não tem patriotismo. Patriotismo? Isso é um terrível palavrão nas redações do Globo. Tornou-se cafona, bizarro, excêntrico, esquerdista… Enquanto os cineastas americanos, de Quarantino a Clint Eastwood, prosseguem enfiando a bandeira americana em todas as cenas, nossos intelectuais midiáticos parecem achar que apenas o amor por seu time de futebol é permitido. Por isso, para o Globo, é tão absurdo, ou esquerdismo, o Brasil “tentar afirmar a sua independência diante dos EUA”.

11) Daí entrevistam diplomatas da era fernandista, e todos se alinham caninamente às opiniões midiáticas, o que apenas serviu para mostrar o quão incompetente eles são, e o quão subserviente e medíocre era a política externa de FHC. Mesmo diante do sucesso político, diplomático, comercial, e inclusive na mídia estrangeira, da política externa do governo Lula, eles não dão o braço a torcer e continuam achando que o certo era ver nossos diplomatas tirando o sapato em aeroportos, pedindo dinheiro ao FMI e silenciando-se obsequiosamente nos grandes debates mundiais.

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Reitero que não tenho nenhuma simpatia especial pelo Irã. Sempre ouvi histórias escabrosas de lá, de suas prisões, do uso de tortura, de punições medievais. Mas sei que são práticas muito antigas. Eu sou um ocidental do tipo ultraliberal, desbocado, libertário. Acredito no Estado do bem estar social, e acredito na liberdade e na democracia. E acho que o Estado deva ser laico, radicalmente laico e mesmo ateu. Essas diatribes contra o Irã, contudo, são infantis e irresponsáveis, e servem a interesses específicos da indústria bélica norte-americana, que estão chantageando Obama e, sobretudo, não tem nada a ver com a gente. Nos EUA, os lobbies armamentistas ainda anunciam em jornais e bancam campanhas políticas. E aqui? O que esses babacas ganham com essa bajulação descarada de segmentos que, inclusive, nem tem mais tanto apoio junto à Casa Branca?

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Azenha matou a charada. José Serra é, seguramente, o candidato de Washington. Sua gestão com certeza será muito benéfica, para eles, e desastrosa, para nós. Já que os conservadores de lá não podem destituir Obama, eles vão tentar, ao menos, impor alguém amigo no país mais poderoso ao sul do Rio Grande…

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E olha que nem comentei a tentativa do Globo de criar uma crise política e diplomática entre Brasil e EUA… Cansei disso por hoje.

Fonte: Óleo do Diabo

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