>Existe uma coisa chamada agro-imperialismo?

>::

https://muitasbocasnotrombone.files.wordpress.com/2009/11/15837023_c157ca48c0.jpg?w=300


Existe uma coisa chamada agro-imperialismo?

por ANDREW RICE, no New York Times

Tradução sujeita a chuvas e trovoadas do Viomundo

O Dr. Robert Zeigler, um eminente botânico estadunidense, voou para a Arábia Saudita em março para uma série de discussões de alto nível sobre o futuro do suprimento de alimentos do reino saudita. Os líderes sauditas estavam assustados: fortemente dependentes da importação de alimentos, eles tinham visto o preço do arroz e do trigo, base da dieta local, flutuarem violentamente no mercado internacional nos três anos anteriores, em um ponto dobrando de preço em apenas alguns meses. Os sauditas, ricos em dinheiro de petróleo mas pobres em terra arável, corriam atrás de uma estratégia para garantir que poderiam continuar a atender o apetite de uma população crescente, e queriam ouvir Zeigler.

Há duas formas básicas de aumentar a oferta de comida: encontrar novos campos para plantar ou inventar formas de multiplicar o que os campos existentes oferecem. Zeigler dirige o Instituto Internacional em Pesquisa do Arroz, que se dedica ao segundo modelo, usando a ciência para expandir o tamanho das colheitas. Durante a assim chamada Revolução Verde dos anos 60, os laboratórios do instituto desenvolveram o “arroz milagroso”, uma variedade altamente produtiva que recebe crédito por ter salvo milhões de pessoas da fome. Zeigler foi à Arábia Saudita esperando que o reino milionário poderia oferecer dinheiro para a pesquisa básica necessária a novos saltos tecnológicos. Em vez disso, para surpresa dele, descobriu que os sauditas queriam atacar o problema de uma direção oposta. Estavam em busca de terra.

Em uma série de encontros, autoridades sauditas, banqueiros e executivos do agronegócio disseram a uma delegação do instituto liderado por Zeigler que queriam gastar bilhões de dólares para produzir arroz e outras culturas em nações africanas como o Mali, Senegal, Sudão e Etiópia. “Eles apresentaram esse plano incrível”, Zeigler relembra. Ele ficou surpreso, não só pela escala dos projetos mas pela audácia da ideia. A África, o continente mais faminto do mundo, não consegue se alimentar atualmente, o que dizer de alimentar mercados estrangeiros…

O que o cientista americano viu foi uma demonstração de um cenário emergente para os recursos alimentares do mundo, um cenário que começou a se formar no ano passado, longe do escrutínio internacional. Uma variedade de fatores — alguns transitórios, como o aumento do preço dos alimentos, e outros intratáveis, como o crescimento da população global e a escassez de água — criaram um mercado para terra arável, no momento em que países ricos mas sem recursos agrícolas, no Oriente Médio, na Ásia e em outros lugares procuram produzir seus alimentos em lugares onde há solo barato e abundante.

Uma vez que a maior parte da terra arável do mundo já está em uso — quase 90%, de acordo com uma estimativa, se você levar em conta as florestas e os ecossistemas frágeis — a busca levou a países menos tocados pelo desenvolvimento, na África. De acordo com um recente estudo do Banco Mundial e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) , uma das últimas grandes reservas de terras subutilizadas é a zona da savana da Guiné, com um bilhão de acres, uma porção de terra em forma de crescente que vai do leste da África até a Etiópia e em direção ao sul, passando pelo Congo e Angola.

Investidores estrangeiros — alguns representando governos, outros interesses privados — estão prometendo construir infraestrutura, trazer novas tecnologias, criar empregos e aumentar a produtividade para abastecer mercados estrangeiros, mas também alimentar mais africanos. (Mais de um terço da população do continente é subnutrida). Eles descobriram que governos empobrecidos estão dando boas vindas, oferecendo terras a preço de banana. Algumas transações receberam grande publicidade, como o aluguel de 100 mil acres feito pelo governo do Quênia ao governo de Qatar em troca do financiamento de um novo porto ou a decisão da Coréia do Sul de desenvolver quase 400 milhas quadradas na Tanzânia. Mas muitos outros negócios envolvendo terras, muitas vezes de tamanho sem precendentes, foram fechados sem fazer barulho.

Investidores que participam dessa corrida à terra estão confrontando um medo primitivo, uma situação na qual os alimentos se tornam escassos mesmo que se ofereça qualquer preço. Durante os 30 anos entre a metade dos anos 70 e a metade desta década, a oferta de grãos disparou e os preços cairam pela metade, uma tendência que levou muitos especialistas a acreditar que não havia limite para a capacidade humana de se alimentar.

Mas em 2006 a situação reverteu, acompanhando o boom mais geral das commodities. Os preços dos alimentos cresceram um pouco naquele ano, cresceram 25% em 2007 e dispararam em 2008. Países que produzem além do consumo, como a Argentina e o Vietnã, preocupados em alimentar a própria população, colocaram restrições nas exportações. Os consumidores estadunidenses, se notaram a crise alimentar, a viram nas contas de supermercado, especialmente nos preços das carnes e laticínios. Mas em muitos países — não apenas no Oriente Médio mas em nações dependentes de importados como a Coréia do Sul e o Japão — o espectro da hiperinflação e do desabastecimento representam uma ameaça existencial.

“Quando alguns governos deixam de exportar arroz ou trigo, o problema se torna real e sério para povos que não são autosuficientes”, diz Al Arabi Mohammed Hamdi, um assessor econômico da Autoridade Árabe para Investimento e Desenvolvimento Agrícola. Sentado em seu escritório em Dubai, de olho nos barcos de madeira ancorados na cidade, Hamdi me falou de sua visão, de que a única forma de ter segurança alimentar é controlando os meios de produção.

A agência de Hamdi, que coordena investimentos em nome de 20 estados-membros, recentemente anunciou vários projetos, inclusive uma joint venture de 250 milhões de dólares com duas empresas privadas, que deve receber subsídios pesados de um programa saudita chamado Iniciativa Rei Abdulahh para Investimento Agrícola no Estrangeiro. Ele disse que os principais campos para investimento seriam provavelmente o Sudão e a Etiópia, países com climas favoráveis situados do outro lado do Mar Vermelho. Hamdi mostrou um pacote de memorandos que acabava de chegar à sua mesa, vindos de um parceiro, o Sheik Mansour Bin Zayed Al Nahyan, um membro bilionário da família real do emirado de Abu Dhabi que demonstrou interesse em comprar terras no Sudão e na Eritrea. “Não há problema quanto a dinheiro”, Hamdi disse. “O problema é onde e como investir”.

Na estrada de terra que acompanha o lago Ziway, uma gota d’água no vale do Rift, na Etiópia, agricultores dirigem suas carroças puxadas por burros diante de uma igreja Ortodoxa de teto laranja, passam pelas tumbas de seus ancestrais, decoradas com murais vívidos de cavalos e gado. Entre grupos de casas de palha, uma cerca apareceu, fechando o campo com arame farpado.

Em toda a região do vale o homem que me acompanha, um economista etíope, me mostrou as novas cercas, que aparecem nuas como uma colheita fresca — símbolos mundanos, eles disse, da corrida pelas terras da Etiópia. No passado, ele contou, os agricultores daqui raramente se preocupavam com essas linhas formais de demarcação, mas agora há demanda pelas terras do país. Essa cerca, no entanto, é diferente das outras — tem mais de uma milha. Atrás dela é possível ver uma paisagem de solo escuro, vulcânico, recentemente remexida por tratores. “Essa terra”, disse-me o guia, “pertence ao sheik”.

Ele estava se referindo ao Sheik Mohammed Al Amoudi, um bilionário da Arábia Saudita dos ramos da construção e do petróleo, que nasceu na Etiópia e mantem uma relação próxima com o primeiro-ministro etíope Meles Zenawi e seu regime autocrático. (Medo dos dois homens levou meu guia a pedir que eu não o identificasse pelo nome). Ao longo do tempo, Al Amoudi, um dos 50 homens mais ricos do mundo, de acordo com a revista Forbes, tem usado sua fortuna e conexões políticas para assumir o controle de grandes porções do setor privado da Etiópia, inclusive de minas, hotéis e plantações de chá, café, borracha e japtropha, uma planta que tem enorme potencial na produção de biocombustíveis. Desde a disparada do preço dos alimentos, ele tem entrado no novo campo lucrativo do comércio mundial de alimentos.

A Etiópia não parece ser um destino quente para o investimento agrícola. Para a maior parte do mundo o país é definido pelas imagens da fome: cerca de um milhão de pessoas morreram no país durante a seca da metade dos anos 80 e hoje 4 milhões dependem da ajuda emergencial para ter acesso a comida. Mas, de acordo com o Banco Mundial, quase três quartos da terra arável da Etiópia não estão sendo cultivados e os agrônomos dizem que com investimentos substanciais de capital essa terra poderia se tornar produtiva.

Desde a crise mundial de alimentos, Zenawi, um ex-rebelde marxista que se tornou campeão do capital privado, disse publicamente que está “muito disposto” a atrair investidores estrangeiros oferecendo a eles o que o governo descreve como “terra virgem”. Uma autoridade do ministério da agricultura etíope disse recentemente à agência Reuters que identificou mais de sete milhões de acres de terras assim. O governo pretende alugar metade disso antes da próxima colheita, à taxa anual de 50 centavos de dólar por acre. “Estamos associados à fome, embora representemos enormes oportunidades de investimento”, explicou Abi Woldemeskel, diretor-geral da Agência de Investimentos da Etiópia. “A percepção negativa precisa ser transformada pela promoção”.

A atitude do governo, junto com a localização conveniente da Etiópia, fez do país um alvo ideal para os investidores do Oriente Médio como Mohammed Al Amoudi. Não faz muito tempo, uma companhia formada por Al Amoudi, a Saudi Star Desenvolvimento Agrícola, anunciou seus planos para obter os direitos sobre mais de um milhão de acres — terra do tamanho do estado americano do Delaware — na esperança aparente de tirar proveito dos planos do governo saudita de subsidiar a produção de alimentos no estrangeiro. Num teste-piloto localizado no oeste da Etiópia, a empresa já cultiva arroz. No início deste ano, em meio a grande fanfarra, Al Amoudi estava presente pessoalmente à primeira remessa de arroz da fazenda para o rei Abdullah, em Riad [a capital saudita]. Enquanto isso, na região do vale do Rift, outra subsidiária está começando a produzir frutas e legumes para exportar para o Golfo Pérsico.

Os planos de Al Amoudi trazem de volta questões recorrentes sobre os investimentos para a produção de alimentos: quem ficará com os benefícios? Enquanto dirigíamos às margens do lago, através de campos cultivados, um supervisor da fazenda me disse que a propriedade de 2 mil acres atualmente produz comida para o mercado local, mas que há planos para irrigar os campos com água do lago e mudar o foco para exportação. À distância, dezenas de trabalhadores estavam agachados no campo, plantando milho e cebolas.

Mais tarde, quando perguntei a um grupo de trabalhadores quanto ganhavam, eles disseram nove birr [a moeda local] por dia, ou 75 centavos de dólar. Não é muito, mas os defensores de Al Amoudi dizem que este é o valor do trabalho no campo na Etiópia. Ele argumentam que os investimentos criam empregos, aumentam a produtividade da terra dormente e trazem novo desenvolvimento econômico para as comunidades rurais. “Conseguimos fazer o que o governo não conseguiu por muitos anos”, disse Arega Worku, um etíope que é assesor de Al Amoudi. (Al Amoudi não quis ser entrevistado). Jornalistas etíopes e figuras da oposição, no entanto, questionam os benefícios econômicos dos negócios, além das relações próximas de Al Amoudi com o partido do governo.

Mas a oposição mais poderosa, no entanto, está na questão dos direitos ao uso da terra — um problema de proporções históricas na Etiópia. Na mesma estrada da fazenda que fica perto do lago Ziway, vi um homem de barba grisalha vestindo um blazer de risca, que estava agachado lavando os sapatos. Parei para perguntar a ele sobre a cerca e, depois de algum tempo, um grande grupo de moradores se juntou para me contar sua história de ressentimento.

Décadas atrás, eles disseram, durante o governo de uma ditadura comunista na Etiópia, a terra foi confiscada deles. Depois que a ditadura foi derrubada, Al Amoudi assumiu as terras privatizadas pelo governo, apesar das objeções de quem tinha sido despejado. O bilionário pode considerar que a terra é dele, mas os moradores têm memória e muitos dizem com raiva que eles são os verdadeiros donos.

Em toda a África, a política da terra é ligada à realidade da fome. A fome, tipicamente produzida por uma combinação de clima, peste ou má governança, ocorre periodicamente, causando calamidade e mudando a história. Todo país sem sua própria dinâmica. Ao contrário da maioria das nações africanas, a Etiópia nunca foi colonizada no século 19 mas foi governada por imperadores, que deram terras feudais a membros das cortes. O último imperador, Haile Selassie, foi derrubado pela fome que provocou uma revolta popular.

Seu vassalos despossuídos gritavam o slogan “terra para quem cultiva”. A ditadura comunista que o sucedeu assumiu o controle da terra e perseguiu uma política desastrosa de coletivização e foi derrubada depois das secas dos anos 80. Sob o atual regime, a posse privada da terra ainda é banida, mas todo agricultor da Etiópia, estrangeiro ou local, trabalha sua terra sob licença do governo. Essa política permite que o estado de um partido só entregue grandes porções de terra a investidores por um aluguel nominal, sem se preocupar com protestos.

O governo da Etiópia nega que qualquer pessoa esteja sendo expulsa, alegando que a terra é virgem — uma alegação que levanta dúvidas. “Uma coisa que parece bem clara, que não chama a atenção da maioria dos investidores, é que essa não é uma terra vazia”, diz Michael Taylor, um especialista em política da Coalizão Internacional da Terra. Se a terra na África não foi plantada, ele alega, é possivelmente por alguma razão. Talvez seja usada como pastagem ou deixada de fora deliberadamente para evitar o esgotamento de nutrientes ou a erosão.

Existe um debate em andamento entre especialistas sobre essa tendência de investimento global em terras. Por sua natureza, ele é baseado em detalhes anedóticos e muitos investimentos que receberam grande publicidade nunca se materializaram. A melhor tentativa para quantificar essa corrida, feita pelo Instituto Internacional pelo Meio Ambiente e Desenvolvimento sugere que no início deste ano o governo da Etiópia aprovou negócios totalizando 1,5 milhão de acres, enquanto a agência etíope de investimentos diz que aprovou 815 projetos agrícolas financiados por estrangeiros desde 2007, dobrando o número registrado em toda a década anterior. Mas esse não é um retrato completo. Enquanto os detalhes de alguns negócios vazaram, como os planos do consórcio saudita de investir 100 milhões de dólares para plantar trigo e arroz, muitos outros permanecem desconhecidos e Addis Abeba [a capital etíope] está cheia de rumores sobre empresários árabes que alugam aviões, escolhem as terras e fecham negócios.

Naturalmente que houve corrida pela terra africana antes. Na visão de críticos, o legado colonial é que torna os negócios envolvendo grandes quantidades de terra ultrajantes, e eles advertem sobre as consequências calamitosas. “Guerras foram lutadas por causa disso”, diz Devlin Kuyek, um pesquisador da Grain, um grupo que se opõe a projetos do agronegócio e que desempenha um papel-chave em chamar atenção para a “corrida global pela terra”.

Foi depois que a Grain completou uma longa lista de grandes negócios num relatório polêmico intitulado “Ocupados!” que especialistas começaram a discutir a tendência com seriedade. Embora os negócios tenham sido fechados em lugares tão distantes quanto a Austrália, Casaquistão, Ucrânia e Vietnã, o campo mais controverso do investimento é a África.

“Quando você começa a ter informações sobre esses negócios”, diz Kuyek, “é chocante”. Dentro de um mês, o alerta da Grain ganhou força quando o Financial Times noticiou que o conglomerado sul coreano Daewoo Logistics tinha assinado um acordo para assumir o controle de metade da terra arável de Madagascar [país na costa oriental da África] sem pagar nada, com a intenção de produzir milho e óleo de palma para exportação. Protestos populares estouraram, ajudando a mobilizar a oposição contra o já impopular presidente de Madagascar, que foi derrubado em um golpe em março.

O episódio ilustra a volatilidade emocional da questão da terra e levantou questões sobre o grau de envolvimento de líderes corruptos e do lucro obtido por eles nos negócios com a terra. Desde então, houve repercussão internacional. Legisladores das Filipinas pediram uma investigação dos acordos de seu governo com várias nações investidoras e líderes da Tailândia prometeram expulsar compradores estrangeiros de terra.

Mas há mais de um lado nesse debate. Economistas do desenvolvimento e governos africanos dizem que se um país como a Etiópia pretende um dia se alimentar, ainda mais se livrando da ajuda externa, que foi de 2,4 bilhões de dólares em 2007, terá de achar uma forma de aumentar a produtividade na agricultura.

“Temos reclamado por décadas sobre a falta de investimento na agricultura da África”, diz David Hallam, um expert em comércio da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). No outono passado, Paul Collier, da Universidade de Oxford, uma voz influente em questões da pobreza mundial, publicou um artigo provocativo na [revista] Foreign Affairs, no qual argumentou que “o amor da classe média e dos ricos pela agricultura camponesa” turva o debate sobre desenvolvimento na África com “romantismo”. Citando o exemplo do Brasil — onde pequenos proprietários de terra foram expulsos em favor da agricultura em larga escala — Colliers concluiu que “ignorar a agricultura comercial como força do desenvolvimento rural e da oferta de alimentos é certamente ideológico”.

Na Etiópia, Mohammed Al Amoudi e outros investidores agrícolas estão colocando a teoria de Collier em prática. Perto da cidade sulista de Awassa, à sombra de uma escarpa do vale do Rift, existe um campo plantado com milho e um complexo de estufas, parecendo novos e exóticos no cenário natural. Numa manhã de céu encoberto em julho, dezenas de trabalhadores preparavam a terra para o novo empreendimento de Al Amoudi: uma fazenda comercial para produzir legumes.

“Para um agricultor, esse é um paraíso na terra”, diz Jan Prins, diretor gerente da companhia subsidiária que está tocando a empresa para Al Amoudi. Originalmente da Holanda, Prins disse que acreditava que a Etiópia era árida mas está surpreso com a descoberta de que o país é fértil, com microclimas diversos. A fazenda de Awassa é uma das quatro que Prins está organizando e tocando. Com apoio de sistemas computadorizados de irrigação, os fazendeiros vão produzir tomates, pimentão, brócolis, melões e outros produtos frescos, a grande maioria para exportar para a Arábia Saudita e Dubai. Com tempo, ele espera se expandir para outras culturas, como trigo e barley, este último para alimentar camelos.

As nações do Golfo Pérsico verão suas populações crescer em 50% até 2030, e atualmente já importam 60% de seus alimentos. Autosuficiência não é uma opção viável, como os sauditas aprenderam através de uma experiência amarga. Nos anos 70, preocupações com a estabilidade da oferta global de alimentos inspiraram o governo saudita a cultivar trigo através de irrigação intensiva.

Entre 1980 e 1999, de acordo com um estudo de Elie Elhadj, um banqueiro e historiador, os sauditas bombearam 300 bilhões de metros cúbicos de água em seu deserto. No início dos anos 90, o reino tinha conseguido se tornar o sexto maior exportador de trigo. Mas então os líderes começaram a prestar atenção nos alertas dos ambientalistas, que diziam que a irrigação estava destruindo os depósitos de água subterrânea. A Arábia Saudita agora planeja acabar com a produção de trigo até 2016, um dos motivos pelos quais busca em outros países a capacidade de suprir suas necessidades.

“As regras do jogo mudaram”, diz Saad Al Swatt, executivo-chefe da Companhia de Desenvolvimento Agrícola Tabuk ,uma das maiores empresas agrícolas do reino. A companhia dele foi uma das que se encontraram com Robert Zeigler para tratar do plantio de arroz; ele diz que com o encorajamento do governo está procurando se expandir em países como o Sudão, a Etiópia e o Vietnã. “Eles tem terra, eles tem água, mas infelizmente eles não tem o sistema ou as finanças para tocar esses projetos agrícolas de larga escala”, diz Al Swatt. “Queremos exportar nossa experiência e na verdade desenvolver essas áreas, ajudar as pessoas”.

Cerca de 10% dos 80 milhões de pessoas que vivem na Etiópia sofrem com a falta crônica de alimentos. Este ano, por causa das chuvas pobres, o Programa de Alimentos da ONU adverte que boa parte da África Oriental enfrenta a ameaça da fome, potencialmente a pior em quase duas décadas.

Tradicionalmente, o modelo para alimentar a África faminta envolve a remessa de sobras de alimentos do resto do mundo em tempos de emergência, mas os governos africanos que tentam atrair investimento dizem que a produção local poderia oferecer uma solução de longo prazo sem envolver caridade. (“É melhor que pedir esmola”, uma autoridade etíope afirmou recentemente ao Business Daily, uma publicação africana).

Qualquer que seja a justificativa de longo prazo, parece muito ruim politicamente para países como o Quênia e a Etiópia permitir que investidores estrangeiros usem suas terras num período em os povos locais enfrentam o espectro da fome. E muitos especialistas se perguntam se os governos cumprirão os acordos. A Etiópia, afinal, foi um dos países que baniram a exportação de grãos quando houve o aumento de preços no mercado internacional. “A ideia de que um país vai pedir a outro para alugar terras e esperar que o arroz produzido naquele país seja exportado num momento de crise alimentar é ridícula”, disse Robert Zeigle

A espiral hiperinflacionária que causou a crise mundial de alimentos teve causas múltiplas. As colheitas de 2006 e 2007 foram as piores da década, os fundos de investidores e outros jogadores do mercado de commodities empurraram os preços para cima e os subsídios governamentais para a produção de biocombustíveis encorajaram mais agricultores a cultivar lavouras que acabaram produzindo etanol.

Mas o meio ambiente e a demografia são fatores longo prazo e especialistas prevêem que os preços, que caíram nos últimos meses, vão se estabilizar significativamente acima dos níveis de antes da crise. Isso representa um perigo para o mundo em desenvolvimento, onde os pobres gastam entre 50 e 80% da renda em comida, mas também representa uma oportunidade. Se uma coisa boa emergiu da crise, é a atenção para o potencial não realizado da agricultura na África. Porque onde há apetites, há lucro a ser perseguido.

No fim de junho, centenas de fazendeiros e banqueiros de investimento se juntaram em Manhattan para avaliar a situação em uma conferência sobre investimento global em agricultura. A crise dos alimentos serviu de catalizador para o dormente setor agrícola, levando firmas financeiras como a Goldman Sachs e a BlacRock a investir centenas de milhões de dólares em projetos agrícolas no estrangeiro. Na conferência, o clima era bom para os negócios, embora deprimente para a humanidade. Houve muita conversa sobre Thomas Malthus, o profeta da superpopulação e da fome do século 19.

“Fiquem alertas para 2020 e depois, porque pensamos que poderá acontecer genuína escassez de alimentos naquele período”, Susan Paune, a executiva-chefe da Emergent Asset Management, disse ao público durante a conversa sobre o potencial agrícola da África. Ela mostrou uma série de slides com estatísticas assustadoras: o estoque de grãos está no nível mais baixo dos últimos 60 anos; houve protestos por falta de comida em 15 países em 2008; o aquecimento global está transformando terra arável em deserto; a água doce está acabando e a China já está usando suas reservas; e o grande problema que contribui com todos os outros — a população do mundo — cresce 80 milhões de pessoas por ano.

A FAO estima que para alimentar a população do mundo em 2050 — cerca de 9 bilhões de pessoas — a produção agrícola precisa aumentar em média 1% ao ano. Isso significa acrescentar 23 milhões de toneladas de cereais aos estoques globais no ano que vem, um pouco menos que a produção total da Austrália em 2008.

“A África é a fronteira final”, Payne disse depois da conferência. “É o continente que continua relativamente inexplorado”. O Fundo de Terra Agrícola da Emergent, criado no ano passado, está investindo centenas de milhões de dólares em fazendas espalhadas pelo continente. A África pode ser conhecida pela infraestrutura decrépita e por governos corruptos — problemas que tem sido crescentemente aliviados, argumenta Payne — mas a terra e o trabalho são tão baratos que ela calcula que os riscos valem a pena.

Os lucros poderiam ser imensos. Em um país como a Etiópia, os fazendeiros fazem grande esforço, mas produzem um terço do trigo por acre que na Europa, China ou Chile. Mesmo intervenções modestas poderiam começar a reduzir a diferença. Um pequeno exemplo: o solo negro que vi ao longo da região do vale do Rift. Conhecido como vertisol, é um produto da atividade vulcânica e possui os nutrientes que produzem enormes colheitas.

Por causa do alto conteúdo de argila, no entanto, ele se torna grudento durante as chuvas, o que o torna difícil de lavrar pelos métodos tradicionais. Com o acréscimo de implementos agrícolas, sementes melhoradas e fertilizantes, a produção de trigo pode ser dobrada. A Etiópia, como toda a África, está cheia de tais oportunidades, uma das razões pelas quais o Banco Mundial diz que o investimento em agricultura é uma das formas mais eficazes de acelerar o desenvolvimento econômico do continente.

Ainda assim a agricultura tem sido historicamente um pequeno item na ajuda estrangeira à África. Por anos, os governos, as fundações privadas e as instituições doadoras como o Banco Mundial tem dito a governos africanos para preencher esse espaço com investimento privado. Agora, no momento em que surge uma crise global de alimentos, criando talvez uma possibilidade passageira de um aporte de capital na agricultura africana, algumas das mesmas organizações estão mandando sinais conflitantes.

A FAO, por exemplo, co-produziu um relatório pedindo a expansão da agricultura comercial na África, mas o diretor-geral da organização simultaneamente alertou contra os perigos “neocoloniais” dos negócios envolvendo a terra. “Estamos fazendo eles sentirem que é pecaminoso”, diz Mafa Chipeta, uma malauiana que cuida da Etiópia e toda a África Oriental para a organização. “Porque não estamos dizendo que é uma oportunidade?”

Um dos focos de investimento agrícola na Etiópia é a região de Gambella, perto da fronteira com o Sudão. O Banco Mundial diz que há ali mais de quatro milhões de acres de terras irrigáveis.”É verde esmeralda, o lugar todo é fértil e tem apenas 200 mil pessoas lá”, diz Sai Ramakrishna Karuturi, chefe de uma companhia de agricultura comercial da Índia.

No início deste ano, Karuturi assinou um acordo com o governo para alugar cerca de 800 mil acres de terra para plantar arroz, trigo e cana de açúcar, entre outras culturas. Karuturi me disse que ele não precisa exportar comida para fazer dinheiro; há um grande potencial no mercado da África Oriental. Ele mandou tratores da John Deere, especialistas agrícolas da Texas A&M [universidade americana] e agricultores comerciais do Mississipi para ajudá-lo a tocar o projeto. Ele diz que está levantando 100 milhões de dólares em capital de firmas privadas para a primeira fase do projeto, que ele estima que vai custar no total mais de 1 bilhão de dólares. “Recentemente vi uma série de artigos… nos quais se referiam a mim como pirata da comida”, Karuturi diz. “Essa coisa é tão elitista, é ridículo. Eles querem que a África continue pobre”.

Mas os argumentos contra as enormes concessões de terra não são baseados apenas em questões de direitos humanos, alertas ambientais e romantismo. É possível acreditar em desenvolvimento sem endossar a visão de Paul Collier de que os pequenos agricultores atrapalham. Na verdade, há uma escola de pensamento econômico que diz que Collier está errado, que em agricultura maior não é necessariamente melhor — e que que esses grandes negócios envolvendo terra não são inteligentes, nem lucrativos. Um estudo recente do Banco Mundial descobriu que a agricultura de larga escala para exportação só deu certo na África com produtos como açúcar e chá, que foram sustentados por subsídios do governo durante o colonialismo ou o apartheid na África do Sul.

Essa história de fracasso é uma razão pela qual o governo do Qatar, ao tratar de suas preocupações com a falta de alimentos, escolheu se concentrar em propriedades do agronegócio já existentes na África, em vez de comprar novas terras. Essa é uma das várias formas de investimento que não exigem a remoção de agricultores africanos.

Numa manhã brilhante no vale do Rift, fui ver outra opção, uma cooperativa sob a qual um grupo de 300 etíopes, trabalhando pedaços de terra de 4 a 10 acres, estavam entrando debutando no negócio da exportação agrícola. Durante o inverno europeu, eles plantam vagem para abastecer o mercado holandês. Durante o resto do ano eles cultivam milho e outras culturas locais, para consumo local. A terra é irrigada com a ajuda de uma organização sem fins lucrativos e um fazendeiro comercial etíope de nome Tsegaye Abebe, que se encarrega de colocar o produto no mercado.

Quando uma brisa atravessou o campo plantado com milho, um grupo de agricultores, usando sandálias feitas de pneus usados, disse que o arranjo, embora com problemas, é benéfico no ponto crucial: eles não estavam trabalhando para os outros. Não muito longe dali, um investidor do Paquistão tinha assumido uma fazenda de criação de gado do governo, que um dia foi área livre de pastagem, tinha colocado cercas e trincheiras para afastar o gado local. Os etíopes que trabalham para o estrangeiro são miseráveis.

Os agricultores tinham ouvido rumores de que investidores estrangeiros estavam de olho em terras etíopes. Imam Gemedo Tilago, um homem de 78 anos de idade vestido em uma roupa de algodão branco, balançou o dedo, prometendo que Alá não permitiria à comunidade permanecer passiva. Mas este era um problema para o futuro e eles tinham preocupações mais concretas. Notei, ao dirigir por estradas rurais que levavam àquela fazenda, que a terra parecia seca em alguns lugares e que o gado mostrava os ossos através da pele. Os agricultores preocupados me disseram que este ano a temporada de chuvas estava atrasada no vale do Rift. Se não chegasse logo, haveria fome.

Notas do Viomundo:

1. O autor não fala que as culturas implantadas na África exigem grande quantidade de água (milho, por exemplo), quando as secas periódicas marcam a história do continente. Seria melhor plantar sorgo, por exemplo, como argumenta a Nobel da Paz Wangari Maathai. Porém, como acontece no Brasil, quando o foco da agricultura é a exportação o agronegócio quer que se danem os interesses locais.

2. A chegada do agronegócio à África, embora possa produzir efeitos econômicos benéficos, vai consolidar a matriz de exportação da pouca água existente no continente e do uso de terras férteis não para alimentar populações locais, mas para produzir chá para os britânicos (no Quênia), carne para os europeus (na Namíbia) e melão para os árabes (na Etiópia).

3. Esse fenômeno não é africano, apenas. Quanto da água da transposição do rio São Francisco será usada pelas populações locais e quanto será destinada à irrigação do agronegócio e à incorporação das terras do Nordeste ao agronegócio?

4. Crescentemente, o Primeiro Mundo vai “exportar” as indústrias ecologicamente destrutivas para as terras fisicamente mais próximas. Já há esquemas para produzir na África a energia a ser exportada para a Europa. O Nordeste do Brasil produzirá frutas para os europeus e estadunidenses com vasta exportação de um bem público, a água, embutida nesses produtos.

Fonte: Vi o Mundo

::

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s