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Genocídio em Ruanda (detalhe da marca de facão na cabeça do menino)

Genocídio e políticas de extermínio: entrevista com Daniel Jonah Goldhagen

Entrevista por Klaus Brinkbäumer e Martin Doerry – Der Spiegel – Hamburgo – [Trechos]

Tradução: Jonas Lunardon


Daniel Jonah Goldhagen, 50 anos, autor do controverso livro sobre o Holocausto “Hitler’s Willing Executioners” (“Os Dispostos Carrascos de Hitler”, em tradução livre), escreveu um novo livro chamado “Worse than War: Genocide, Eliminationism, and the Ongoing Assault on Humanity” (“Pior que a Guerra: Genocídio, Eliminacionismo e a Atual Investida contra a Humanidade”, em tradução livre). O livro examina os inúmeros assassinatos em massa do século XX para identificar as origens e o desenvolvimento destes crimes contra a humanidade. Goldhagen argumenta que a comunidade internacional pode fazer muito mais para assegurar que os assassinatos em massa não ocorram, declarando, inclusive, aberta a caça aos líderes que utilizam o genocídio e o extermínio como ferramenta política.

O primeiro livro de Goldhagen tornou-se um best-seller imediato, em parte por conta do argumento de que o Holocausto não teria sido possível sem o apoio e a participação massiva da população alemã.

O cientista político nunca se esquivou da controvérsia. No seu novo livro, ele argumenta que governantes que praticam genocídio deveriam ser mortos. SPIEGEL conversou com ele sobre o uso do assassinato em massa como instrumento político, a reação da Alemanha quanto ao seu primeiro livro sobre o Holocausto e a falência das leis internacionais.

SPIEGEL: Sr. Goldhagen, todas as nações têm potencial para cometer genocídio?

Goldhagen: Nem todo genocídio que poderia ter acontecido, nem todo massacre que poderia ter acontecido, de fato, aconteceu. Preconceitos e aversões – idéias sobre pessoas que as fazem parecer diferentes, de modo que sejam perigosas ou potencialmente ameaçadoras para você – geralmente são difundidas. Existem grupos ao redor do planeta que, por suas crenças, poderiam ser mobilizados para atacar outros grupos e têm vontade para fazê-lo.

SPIEGEL: Que elemento precisa ser adicionado?

Goldhagen: A natureza do regime político – a natureza dos próprios líderes – é absolutamente crucial para que esse potencial resulte em um genocídio de fato.

SPIEGEL: Alguns Estados correm mais riscos do que outros?

Goldhagen: Você se refere a formas de governo? Nas ditaduras, que sempre podem ser desestabilizadas pelas classes sociais inferiores por não respeitarem seus direitos, existe um perigo muito maior de que as lideranças políticas optem por algum tipo de eliminacionismo para solucionar seus problemas. Quaisquer que sejam os preconceitos existentes hoje nos Estados Unidos, na Alemanha, na Itália, no Japão e em muitos outros países, é extremamente improvável que, num futuro próximo, eles se convertam em assassinatos em massa.

SPIEGEL: Porém, mesmo em democracias, problemas como racismo, xenofobia e aversões a minorias existem.

Goldhagen: Sim, mas em tais países, nenhum líder consideraria agir de tal forma. Está completamente fora de cogitação.

SPIEGEL: O título do seu livro é “Worse than War: Genocide, Eliminationism, and the Ongoing Assault on Humanity” (“Pior que a Guerra: Genocídio, Eliminacionismo e a Investida em Andamento contra a Humanidade”, em tradução livre). O que poderia ser pior que a guerra?

Goldhagen: Isso vai depender da nossa perspectiva moral e analítica de como medimos a maldade. Se quisermos medi-la por seu fator fundamental, que é a quantidade de pessoas mortas, aqueles que cometem massacres em massa já mataram mais desde o começo do século XX – mais de 100 milhões – do que as ações militares convencionais. Essa deveria ser uma das temáticas políticas centrais de nossa era. Este dado não é conhecido por quase ninguém.

SPIEGEL: A humanidade, em outras palavras, não está marchando em direção à racionalidade, mas criando um mundo cheio de assassinatos em massa?

Goldhagen: O assassinato em massa é um problema sistêmico do mundo moderno.

SPIEGEL: Por que você escolheu a palavra “eliminacionismo” ao invés de “genocídio” no seu livro?

Goldhagen: Porque genocídio, ou assassinato em massa de larga escala, é uma das tantas ferramentas que os Estados e líderes governamentais utilizam para levar adiante programas políticos intencionados à eliminação de populações consideradas não desejadas ou perigosas. Portanto, o fenômeno fundamental é o eliminacionismo, com a escolha dos meios sendo uma decisão pragmática para que seja alcançado o objetivo político. Existem cinco meios principais: repressão, transformação forçada, expulsão, prevenção da reprodução, como a esterilização, e extermínio.

SPIEGEL: Seu livro começa com o bombardeio atômico em Hiroshima e Nagasaki. Por que esses dois eventos não são considerados assassinatos em massa?

Goldhagen: Porque os vencedores escrevem a História. Foram assassinatos em massa. As pessoas nestas cidades eram na grande maioria não-combatentes. O bombardeio não era necessário para o fim da guerra. Os japoneses estavam prontos para rendição e o Presidente Harry Truman [1945-1953] sabia disso.

SPIEGEL: As pessoas no Ocidente tendem a acreditar que nós não cometemos genocídios, somente os outros?

Goldhagen: A população dos Estados Unidos, da mesma forma como nos outros países, não quer enxergar as transgressões ou crimes cometidos por seus compatriotas. Existe um movimento de negação em praticamente todos os países responsáveis por ataques eliminacionistas. Você já ouviu: “Nós não fizemos isso”, ou “nós não tínhamos opção”.

SPIEGEL: A linguagem mobiliza as pessoas a cometer genocídio?

Goldhagen: Sim. A linguagem é o veículo do medo. Os alemães não conheciam os judeus poloneses. Muitos turcos não sabiam quem eram os armênios. Hutus não sabiam nada da maioria dos Tutsis. E como saberiam? Ainda assim, em cada caso eles mataram um grande número de pessoas das quais eles só haviam ouvido falar. A linguagem transmite preconceitos e descrições de outros que levam à crença de que o outro precisa ser eliminado. Esse é um fator crucial para se entender a origem do assassinato em massa que geralmente não é levado em conta. Muitos dizem “é só conversa”. Mas a conversa é o terreno fértil para que estes ataques genocidas eventualmente cresçam.

SPIEGEL: Você não vê a necessidade de se corrigir? Treze anos atrás, você escreveu que nunca havia existido um genocídio comparado ao Holocausto. Agora, você compara vários genocídios da História e o Holocausto é incluído como um deles.

Goldhagen: Sim, para que sejam vistas as semelhanças e diferenças. Existiram muitos outros assassinatos em massa na História e também no presente.

SPIEGEL: Mas a sua tese ainda é verdadeira?

Goldhagen: Com certeza. O Holocausto tem especificidades que o fazem singular. Não o tornam necessariamente pior ou mais horrível moralmente. É apenas o fato de ter características distintas. Foi a única vez que um Estado com um grande número de apoiadores armou-se para exterminar os membros de outro grupo, não somente em seu território, mas, se tivessem vencido a guerra, em toda a Europa e depois em todo o mundo, sem exceção. Todos os homens, mulheres e crianças. Além disso, existe uma segunda característica que o torna distinto. O Holocausto foi cometido por uma coalizão genocida internacional na qual povos de diferente países e governos participaram dessa empreitada genocida.

SPIEGEL: Mas não havia planos concretos para o Holocausto quando a Segunda Guerra Mundial começou.

Goldhagen: É por isso que precisamos começar a falar de eliminacionismo ao invés de genocídio. A eliminação dos judeus sempre foi sua política. Começou na Alemanha em 1933 com diferentes tipos de leis e medidas excluindo os judeus da sociedade alemã. Naquele ponto, estavam tentando mandar o máximo de judeus possível para fora da Alemanha. Quando outros países começaram a ser conquistados, imediatamente foram tomadas novas medidas eliminacionistas contra os judeus, como a introdução dos guetos – ações temporárias até que a solução final pudesse ser iniciada. Então, dizer que uma investida eliminacionista contra os judeus foi conseqüência da guerra simplesmente não é correto. Sempre houve uma orientação eliminacionista e uma variedade de meios utilizados até que o programa de extermínio total começou em 1941, coincidindo com o ataque à União Soviética.

SPIEGEL: Você escreve que 500 mil alemães participaram no massacre e que quase todos sabiam que ele estava acontecendo. Nenhuma das afirmações é correta.

Goldhagen: Perdão? Se você considerar as ações que o regime organizava, o extermínio de judeus, o uso de milhões de escravos, os massacres de russos, poloneses, romenos e sintis [nômades romenos], o chamado programa de eutanásia – todas situações que os alemães considerariam criminosas hoje em dia – é claro que os alemães durante o período nazista tinham consciência da criminalidade do regime.

SPIEGEL: Os genocídios modernos têm maiores dimensões que os do passado em decorrência do avanço tecnológico?

Goldhagen: Grande parte dos massacres grandiosos que ocorreram no mundo contemporâneo – como em Ruanda, por exemplo – foram cometidos com meios técnicos inventados antes do século XX. A vontade é o fator decisivo. Eliminacionismo tornou-se parte integral do repertório político do mundo moderno.

SPIEGEL: No seu livro, você adverte sobre os perigos do Islã político. Por quê?

Goldhagen: “Islã Político” é o termo apropriado para descrever movimentos políticos que estão enraizados em um entendimento do Islã e procuram obter controle – geralmente totalitário – sobre suas sociedades e sobre outras sociedades que eles consideram que deveriam ser islâmicas. Estes movimentos geralmente se utilizam da violência e muitas vezes com um viés genocida ou eliminacionista.

SPIEGEL: O que a comunidade internacional deveria fazer?

Goldhagen: Existe algo fundamentalmente errado na situação atual. Todo o Ocidente é contrário ao assassinato em massa. E eles vêem um mundo onde países relativamente fracos e pobres com poucos recursos envolvem-se em genocídios. E isso continua assim e você se pergunta como pode ser? Se estas nações ricas e poderosas estivessem determinadas a pôr um fim às tentativas eliminacionistas, você pensaria que elas provavelmente conseguiriam. O presidente Barack Obama, o qual as pessoas esperavam que fosse muito melhor nesses assuntos, não fez nada. Ele deveria proibir o trânsito aéreo sobre Darfur [Sudão]; ele deveria bombardear as instalações militares sudanesas até que as atividades fossem encerradas. Mas os Estados-nação são instituições egoístas – os líderes destes países estão calculando os interesses nacionais e não percebem ser de interesse nacional de nenhuma das nações poderosas fazer algo a respeito.

SPIEGEL: Porque acontecem em lugares distantes.

Goldhagen: É nosso dever moral. Quantas vidas africanas valem uma vida européia ou uma estadunidense? Os meios de comunicação contemporâneos nos fazem saber imediatamente quando as coisas acontecem. Então é um problema de simpatia ou de empatia. A situação atual é a de que líderes e regimes que decidem cometer atos eliminacionistas têm pouco a temer. Eles geralmente são vitoriosos e o fazem com impunidade.

SPIEGEL: Tribunais internacionais…

Goldhagen: … O estabelecimento do Tribunal Penal Internacional em 2002 foi um avanço muito bom. Mas, do jeito que funciona atualmente, ele é lento e ineficiente. Basicamente, foi um jeito simples para que os países pudessem fingir que estavam agindo. É preciso que seja criado um ambiente internacional para que estes líderes que possam vir a realizar ataques eliminacionistas não se atrevam a realizá-los, porque vão perder poder ou sua vida.

SPIEGEL: Você acha que matá-los é a resposta?

Goldhagen: Os que cometem este ato pensam nisso como guerra. Estão fazendo guerra contra uma parte identificável da humanidade, que é o mesmo que guerrear contra a humanidade como um todo. E se estão fazendo guerra, as regras de guerra se aplicam. Nós deveríamos encorajar aqueles que podem matá-los para que o façam. Isso pode soar radical, mas é uma solução mais efetiva, menos custosa e, acredite ou não, mais provável de obter sucesso do que enviar esquadrões da ONU ou de outra força de reação.
SPIEGEL: A soberania não constitui um problema, e a lei internacional? Quem deveria ter o poder de decidir quando tais medidas deveriam ser tomadas?

Goldhagen: Eu não estou preocupado que isso vá conduzir a uma invasão precipitada de outros países. O problema não é uma voracidade demasiada. O problema é a ausência de praticamente qualquer vontade ou ação para salvar as vidas das pessoas que estão sendo exterminadas. E o problema é que não há nenhuma previsão na lei internacional que permita países de violar a soberania de outros. A lei internacional permite que líderes massacrem sua população a não ser que a ONU chame isso de genocídio, o que não vai acontecer. A lei internacional neste sentido está totalmente inadequada.

SPIEGEL: Os Estados Unidos invadiram o Iraque sob a desculpa da proteção dos direitos humanos.

Goldhagen: … Que não era o motivo verdadeiro para a invasão.

SPIEGEL: Eles depuseram o regime e enforcaram Saddam Hussein. Se você questionar as Nações Unidas e outros envolvidos em política internacional, você vai ouvi-los dizer que a invasão foi prejudicial para a comunidade internacional. A confiança nas regras que deveriam ser aplicadas a todos assim como a vontade de agir conjuntamente foram prejudicadas.

Goldhagen: Você está certo. Eu ficaria feliz se as leis internacionais funcionassem. O problema é que isso não se dará no futuro próximo. Eu perguntei ao Ministro da Justiça de Ruanda, Tharcisse Karugarama, se o genocídio teria sido prevenido se medidas fossem tomadas contra os líderes políticos e eles soubessem disso. Ele disse, “definitivamente, se soubessem que no final do dia eles seriam os perdedores, nunca se arriscariam nessa empreitada”.

Para acessar o texto original, clique aqui

Fonte: Correio Internacional

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