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Dilma identifica o inimigo da nossa democracia

por Cristóvão Feil

PT acha que a imprensa ainda é um foro democrático

Não é possível deixar de chamar a atenção para o pronunciamento realizado sábado último da ministra Dilma Rousseff em evento petista que reuniu prefeitos da sigla.

A pré-candidata do PT à presidência da República ano que vem, fez dura crítica à oposição e à mídia: “A oposição não tem projeto, discurso, nem base de apoio social. O que eles têm é uma tentativa de partidarização de alguns segmentos da imprensa, substituindo a oposição política por uma oposição quase midiática”.

É a primeira vez que – em quase sete anos de governo lulista – algum agente político oficial se manifesta de forma tão clara e direta contra a midiocracia oligárquica brasileira. Lula nunca enfrentou de modo objetivo e direto a questão da mídia das sete famílias brasileiras. Como bom conciliador que é, vez por outra despacha alguns comentários menos simpáticos, mas que não chegam a constituir uma crítica com argumentos robustos e potentes. O Partido dos Trabalhadores jamais, em tempo algum, ousou tocar no terreno sagrado da mídia oligárquica, um dos mais evidentes e rombudos entraves à democratização completa da sociedade brasileira. Depois que o PT iniciou o seu longo processo de renúncia à condição de intelectual orgânico dos humilhados e ofendidos do País, em troca de ser apenas a passiva correia de transmissão do lulismo de resultados planaltino, nada mais se pode esperar do mais novo partido tradicional brasileiro.

Sendo assim, mais ênfase adquire a palavra lúcida e aguda da ministra-chefe da Casa Civil, neste final de semana em São Paulo. Dilma se deu conta, e o expressa corajosamente, que não havendo oposição, a mídia chama para si o papel de partido político ilegítimo que bate no governo quando seus interesses de classe são tocados. A ministra pré-candidata supera, assim, a noção ainda arraigada no peito do petismo cansado de guerra de que a imprensa seria quase o sinônimo de foro democrático, livre circulação de idéias e ágora política. Ora, essa noção existe somente nos livros de história, no capítulo que trata da imprensa pré-revolucionária dos clubes jacobinos, no distante século 18. Hoje, a imprensa reduziu-se a partido neoliberal por excelência, não só no Brasil, mas no mundo todo. Meses atrás, escutei uma entrevista de um dos editores da revista Vejathink thank da direita brasuca. O sujeito abriu o jogo, disse que a revista dos Civita fizera uma opção político-comercial (ele não usou essas palavras, exatamente, mas o sentido geral era esse), escolhera ficar com os seus anunciantes, que ele garantia ser formado por mais de 50% do PIB brasileiro, em detrimento dos eventuais governos de Brasília, e que tal política dera certo, uma vez que o faturamento crescera, blablablablá. Sinceridade quase integral, não fosse ele “esquecer” que durante a gestão tucana de FHC, a Veja optara de forma equânime pelos anunciantes mas também pelo tucanato privateiro.

O que o editor de Veja falou, os demais patrões e editores da midiocracia brasuca não ousaram falar, mas executaram à risca e com esmero de artesão: optaram pelos anunciantes, mas sem renunciar à farsa e ao simulacro de continuarem representando uma suposta vontade geral, como se fossem os intérpretes dos anseios nacionais, quando, a rigor, mal conseguem ocultar as suas verdadeiras raízes golpistas, antirrepublicanas e oligárquicas.

O jornalista Mauricio Dias lembrou, semana passada na sua coluna em CartaCapital, que Lula pediu ao ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, que conversasse com os barões da mídia, em outubro de 2003, por ocasião do programa Bolsa Família, a fim de saber por que eles reagiam de forma tão adversa ao programa social que se iniciava. “Patrus – diz Mauricio Dias – rodou jornais e revistas e levou a conclusão a Lula: consideram que o governo investe demais em programas sociais”.

Sem mais comentários.

Fonte: Diário Gauche

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