>EUA lutam em vão no Afeganistão

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por Virgílio Freire


Os Estados Unidos e seus líderes não dão valor à História.


Não se interessam por nada que não seja seu próprio país. Se tivessem um pouco de cultura histórica, saberiam que nos últimos 200 anos o país foi invadido pelos britânicos no Século 19, e que o Império Britânico foi expulso do país com pesadas baixas e mortes de militares e civis ingleses.

No século 20 a ex União Soviética invadiu o Afganistão em 1979 com 100.000 soldados. Os Soviéticos foram expulsos em 1989 com 13 mil mortos, 35 mil feridos, e quase meio milhão de soldados fora de combate devido a doenças e epidemiasl. Os combatentes afgãos perderam 70 mil homens. E mandaram os russos de volta com o rabo entre as pernas. Foi o Vietnam da URSS.

Na atual guerra, as baixas americanas estão cada vez maiores, e o governo dos Estados Unidos é míope e arrogante ao ponto de não aprender com a história. Irá aprender da forma mais dolorosa possível – um segundo Vietnã.

EUA lutam em vão no Afeganistão

por Nicholas D. Kristof*

Se bilhões de dólares de ajuda ao Paquistão podem desencadear o ódio nacionalista, não se deve esperar uma reação favorável no Afeganistão ao envio de dezenas de milhares de soldados americanos.

Os EUA nasceram do ódio nacionalista dos nossos ancestrais a um poder estrangeiro, cujas tropas eram vistas como forças de ocupação e não de proteção. Os ingleses nunca conseguiram avaliar a extensão da nossa revolta – a terra era nossa, não deles – portanto, quanto maior era a sua opressão, mais forte se tornava a reação americana.

Tendo em mente a nossa história, talvez devêssemos ser mais sensíveis ao nacionalismo lá de fora. Entretanto, o erro mais sistemático que nós cometemos em política externa, no período que se seguiu à 2ª Guerra, tem sido o de subestimar o seu poder, do Vietnã à América Latina.

untitledDo mesmo modo, acabamos esquecendo a força do nacionalismo no Afeganistão e no Paquistão, particularmente entre os 40 milhões de pashtuns que vivem de ambos os lados da fronteira. Esta é uma das razões pelas quais o envio ao Afeganistão de mais 21 mil soldados, ordenado pelo presidente Barack Obama no início deste ano, não contribuiu para a estabilidade. E é difícil perceber por que motivo outros 40 mil deveriam ajudar a consegui-la.

Os estrategistas americanos mostraram-se completamente míopes nas últimas semanas diante do escândalo provocado no Paquistão pelas condições do nosso pacote de ajuda mais recente – e se não podemos sequer distribuir bilhões de dólares sem suscitar o ódio nacionalista, não devemos esperar uma reação favorável ao envio de outras dezenas de milhares de soldados americanos.

Já lutamos no Afeganistão o dobro do tempo exigido pela nossa participação na 2ª Guerra, com um custo que, a preços atuais, é calculado em mais de US$ 60 bilhões anuais. A proporção de forças rebeldes em relação à população civil sugere que precisaríamos de 650 mil soldados (incluindo os afegãos) para pacificar o país.

Portanto, será que os mais de 40 mil somados aos 68 mil que já se encontram lá fariam uma diferença tão grande para justificar um custo anual adicional de US$ 10 bilhões a US$ 40 bilhões, principalmente considerando que eles poderão agravar a percepção dos americanos como forças de ocupação?

Fiquei fascinado pelos pashtuns desde que entrei nas áreas tribais pela primeira vez, quando ainda estava na universidade. Nos últimos anos, minhas entrevistas com pashtuns no Afeganistão e no Paquistão levaram-me a pensar que erramos a respeito da natureza dos movimentos de insurreição.

Alguns membros do Taleban são ideólogos fundamentalistas que lutarão contra nós até a morte. Outros, no entanto, tornam-se combatentes porque são pagos para isto, porque os representantes mais velhos da tribo assim sugerem, porque isto lhes dá a desculpa para se dedicarem ao banditismo tradicional, porque as tropas americanas mataram um primo ou porque estão revoltados com a presença de forças infiéis em seu país.

Quando os soldados paquistaneses entram nas áreas pashtuns, às vezes provocam uma reação violenta que favorece os extremistas. Se os pashtuns reagem dessa maneira a pessoas do Punjab, por que deveríamos achar que reagirão melhor aos texanos?

Na realidade, a moderna história pashtun é constituída, em parte, por uma reação violenta a esforços de modernização extremamente ambiciosos que não encontram a adesão local.

COOPERAÇÃO

Nos últimos anos, militares americanos tornaram-se muito mais atentos à sensibilidade afegã. Por outro lado, há comandantes de grande categoria que sabem cooperar com os líderes pashtuns. Isto cria uma autêntica estabilidade.

Entretanto, é impossível que todos os comandantes estejam acima da média e uma ação militar mais opressiva, quase inevitavelmente, leva a mais baixas, à irritação e ao recrutamento pelos taleban. Um dos principais argumentos apresentados para o envio de novas tropas é a ameaça terrorista representada pela Al-Qaeda.

No entanto, Steven Simon, representante do Conselho de Segurança Nacional do governo do ex-presidente Bill Clinton, atualmente especialista em terrorismo no Conselho de Relações Exteriores, observa que é possível que haja mais combatentes da Al-Qaeda no Paquistão, no Iêmen e até mesmo na Somália do que no Afeganistão. “Vejo com ceticismo a possibilidade de a guerra no Afeganistão solucionar o problema da Al-Qaeda”, disse.

Isto não significa que devamos sair do país. Seria uma falsa opção sugerir que deveríamos abandonar o Afeganistão ou dobrar o número de efetivos. A nossa saída acabaria sendo um sinal desastroso de debilidade por parte dos EUA e desestabilizaria o Paquistão.

Minha sugestão é que se reduza a escala dos nossos objetivos, porque, em todo caso, o Afeganistão não se tornará uma brilhante democracia no curto prazo. Deveríamos manter as tropas atuais para proteger as cidades, intensificando, ao mesmo tempo, o treinamento do Exército afegão, ajudando-o a integrar mais pashtuns para aumentar sua legitimidade no sul do país.

Deveríamos negociar a convocação de alguns comandantes taleban e atraí-los para o nosso lado, seguindo a antiga tradição afegã de “alugar” os líderes tribais cuja lealdade possa ser comprada. Também seriam muito úteis novos projetos de ajuda com a proteção tribal local, porque criariam empregos reduzindo as tarifas sobre os produtos de exportação paquistaneses e afegãos.

Lembremos também que o custo mínimo de 40 mil soldados – US$ 10 bilhões – pagaria uma sólida pré-escola para dois milhões de crianças americanas menos privilegiadas. A estimativa maior – de US$ 40 bilhões – pagaria, ao longo de dez anos, quase a metade da reforma da saúde.

Será que nos sentiríamos melhor gastando todo esse dinheiro para que novas levas de jovens americanos derramem seu sangue no Afeganistão sem conseguir nada muito mais concreto do que inflamar o nacionalismo pashtun?

*Nicholas Kristof é colunista e ganhador do Prêmio Pulitzer

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Domingo, 25 de Outubro de 2009

Contingente no limite dificulta aumento de tropas no Afeganistão


EUA não têm soldados suficientes para ampliar presença no país, obrigando combatentes a estender serviço no front

Patrícia Campos Mello
O presidente dos EUA, Barack Obama, decide nas próximas semanas se vai mandar 40 mil soldados a mais para o Afeganistão. Além de enfrentar grande oposição da população americana, essa escalada na guerra afegã vai sobrecarregar ainda mais as Forças Armadas, que enfrentam alto índice de síndrome de stress pós-traumático e suicídio entre os militares por atuarem no limite.
untitled3O comandante Stanley McChrystal pede, segundo se especula, no mínimo 10 mil e no máximo 80 mil soldados. As Forças Armadas estão cumprindo todas as metas de recrutamento – por causa da crise, muita gente que perdeu emprego lota os centros de alistamento, como o de Largo, Estado de Maryland. Mesmo assim, não há soldados suficientes para um grande aumento de tropas.

O Exército tem 44 brigadas de combate (176 mil soldados). Dessas, 19 estão na linha de frente e 13 já estão comprometidas para serem enviadas ao front ou acabaram de voltar. Sobram apenas 12 brigadas, o equivalente a 48 mil soldados – número perigosamente próximo do que Obama deve anunciar em breve.

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Como o período entre recrutar, treinar e efetivamente enviar um novo soldado para o front é estimado em um ano e meio, o chefe de gabinete do Exército, George Casey, já advertiu que será necessário reduzir o tempo que os soldados passam em casa para cumprir as metas de uma possível escalada de tropas.

“Não tem como evitar, se mandarmos mais soldados, vai ser necessário reduzir o tempo deles em casa”, afirmou Casey.

Pouco tempo de descanso é um dos principais motivos para o stress dos soldados, diz o major Kenneth O. Preston, que coordena questões dos soldados alistados e recentemente discutiu o problema com Obama. “Eu disse ao presidente que minha maior preocupação é com o stress dos soldados”, disse Preston.

Normalmente, os soldados têm 12 meses de descanso em casa para cada 12 meses na linha de frente. Nos últimos anos, isso havia caído para 12 meses em casa para cada 15 meses no front. O ideal seriam 24 meses em casa para 12 em combate, segundo ele.

A guerra no Afeganistão se arrasta há nove anos e a do Iraque, há sete. Neste ano, até sexta-feira, morreram 253 soldados americanos no Afeganistão – um recorde desde o início da guerra. No ano passado, foram 155. Um em cada oito soldados volta do front com stress pós-traumático, uma das principais causas de suicídio. No ano passado, 140 soldados cometeram suicídio. Neste ano, foram 129 até julho.

LONGE DE CASA

O tenente Anthony Great, de 40 anos, é líder de um pelotão que está na base de Kala Gush, leste do Afeganistão. Ele já passou duas temporadas de 15 meses no Iraque e agora está no Afeganistão. De seus 34 homens, 25 já estiveram no Iraque ou Afeganistão ou ambos. Great tem dois filhos, um de 4 anos e outro de 6 meses.

Ele, que não viu o mais novo nascer, manda e-mails todos os dias para garantir à mulher que está bem e fala ao telefone pelo menos uma vez por semana. Volta em maio. “Não vejo a hora de voltar para casa, é a terceira vez que me mandam para o front.”

A maioria dos soldados desenvolve casos leves de stress pós-traumático, que pode surgir depois de se testemunhar um evento traumático, como uma morte violenta. Mas a maioria não procura ajuda, pois teme ser estigmatizada e prejudicar sua carreira militar. Com isso, sintomas como flashbacks, pesadelos, insônia e irritação acabam evoluindo para depressão e, eventualmente, suicídio.

No ano passado, o número de suicídios no Exército atingiu o maior nível em 30 anos e neste ano deve ser ainda mais alto. O problema é tão sério que o Exército criou um grupo de prevenção de suicídios.

“Nós temos um Exército resistente, mas o número de suicídios já supera a média da população civil em geral”, disse a general Colleen McGuire, diretora da Força Tarefa de Prevenção de Suicídio do Exército. Com as Forças Armadas cada vez mais sobrecarregadas, a pressão sobre os soldados é mais um fator que Obama vai ter de considerar antes de decidir sobre a escalada das tropas para o Afeganistão.

Fonte: Blog do Virgílio Freire

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