Doha, um fracasso que salvou empregos

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Sobrevalorização cambial e juros estratosféricos terminam por levar a alienação de ativos a investidores estrangeiros. Mas para o diretor da Fiesp isso significa fazer o “dever de casa”. Como essa lição, para ser bem feita, solicita uma crescente desestruturação do mercado de trabalho, resta aos especialistas calcularem quantos empregos foram salvos com o fracasso das negociações em Genebra.

Se alguém ainda tinha um mínimo de dúvida de que o caminho traçado pela burguesia brasileira para consolidar, entre nós, uma nova forma de dominação de classe passa pela desconstrução permanente de direitos trabalhistas, Mário Marconini, diretor de negociações internacionais da Fiesp tratou de dissipar qualquer incerteza.

Quando lamenta o fracasso de um acordo que, entre outras coisas, traria um corte médio de 54% nas tarifas de importação do setor industrial, além de acordos setoriais, que levariam a perda de mercado para corporações de países centrais, Marconini demonstra que o ajuste imposto nos anos 1990, com a abertura comercial indiscriminada, foi assimilado por um setor que traz a vocação para a dependência no DNA.

Ao declarar à Folha de S. Paulo (30/7) que “as concessões poderiam significar ganho de produtividade nos próximos anos, à medida que tornaria a realização de reformas estruturais mais prementes”, o dirigente empresarial deixou claro que tipo de projeto encampa como forma de desenvolvimento para o país.

O governo Collor e os oitos anos do consórcio tucano-pefelista já nos ensinaram como a burguesia nativa interpreta o conceito de “produtividade”: terceirização de atividades, fusões, fechamento de plantas, transferência de controle acionário e redução de custos. Sobrevalorização cambial e juros estratosféricos terminam por levar a alienação de ativos a investidores estrangeiros. Mas para o diretor da Fiesp isso significa fazer o “dever de casa”

Como essa lição, para ser bem feita, solicita uma crescente desestruturação do mercado de trabalho, resta aos especialistas calcularem quantos empregos foram salvos com o fracasso das negociações em Genebra.

Por trás dessa “visão modernizadora”, no entanto, persiste o interesse patrimonial típico da elite brasileira, com a visão do aparelho estatal como extensão do patrimônio particular.Falta, contudo, o bloco de poder que até 2002 tratava a administração pública como se fosse a gerência de uma empresa privada ou de uma grande fazenda.

É no compasso de espera do retorno do tucanato ao poder que a direita urde sua trama. Agindo dentro da própria institucionalidade, sem quebra de regras, sem movimentos abruptos. Já não há dúvidas que é mais eficaz, sai menos custoso, além de dar menos visibilidade a seus interesses.

“Marconini, talvez sem o querer, mostrou o que mobiliza os nossos “indignados” e moralistas” completamente inocentes”, em sua grita diária por mais ética e menos gastos públicos. O horizonte é 2010

Por enquanto, resta o consolo de que vários postos de trabalho não foram esterilizados.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

Fonte: Agência Carta Maior.

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